Portugal volta à vida normal, mas mantém escolas fechadas e sem data para reabrir

Rua Garrett, em Lisboa, Portugal, com a estátua de Fernando Pessoa. Ponto turístico, em abril, durante a pandemia. Foto: Teresa Araújo Costa

 

O pico da pandemia do novo coronavírus ocorreu em Portugal em março. Mas o primeiro-ministro António Costa só iniciou o desconfinamento no dia 4 de maio: 40 dias após o auge. E avisou: “Enquanto houver covid, não haverá vida normal”. Costa disse isso ao anunciar o calendário do desconfinamento, que começou no dia 4/5 e vai até 1º/6, com análises dos resultados das medidas anteriores a cada 15 dias. Nesse percurso, até os centros comerciais vão ter muitas das suas lojas abertas. Contudo, as escolas permanecem fechadas e, se der tudo certo, reabrem em setembro, após as férias de verão.

O Ministério da Saúde (MS), por sua vez, anunciou, na terça-feira (5/5), pela manhã, 11 novas mortes e 178 novos casos de covid-19. Nos dias seguintes, esses números aumentaram. Mas nada que não indicasse que, em Portugal, já é visível o declínio de contaminação e mortes: 1.074 mortos por covid-19 ao todo.

O MS português diz que isso equivalente à taxa de crescimento de 1,9%. A imprensa informou também que, desde o começo da pandemia, “pela primeira vez, nesta semana, houve uma vítima com menos de 40 anos: um jovem do sexo masculino com idade entre 20 e 29 anos. Foi considerado exceção porque 67% dos mortos tinham mais de 80 anos.

 

Praça Marquês de Pombal, em abril 2020, na Baixa da Pombalina. Fotos tiradas por Teresa Araújo Costa

 

MERGULHO NO CONFINAMENTO
Portugal mergulhou no confinamento estratégico e rígido entre 16 de março e 4 de maio para impedir que a passagem do novo coronavírus provocasse um estrago avassalador. Com 18% da população vulnerável (idosa), o país decretou o início das restrições no dia 13 de março, mas só iniciou o confinamento no dia 16. Nesse período, ficou uma semana em confinamento total (o chamado lockdown). Desde então, todos permaneceram em casa, exceto alguns casos esporádicos de desobediência civil, todos tratados na rigidez da lei.

“Nas escolas respirou-se alívio. A última semana de março foi muito difícil. Havia estudantes e professores assustados porque a Itália estava a sofrer muito. As imagens já eram terríveis”, conta Deolinda Filomena Pedroso Pereira de Barros, professora de língua portuguesa e literatura no Instituto Giner de los Ríos, de Lisboa.

Ex-diretora de Serviços do Ministério da Educação (ME), em que coordenou a “Revisão Curricular” do Ensino Secundário de 1997 até 2001, Deolinda afirma que, diferentemente do Brasil, governantes, religiosos, comerciantes, políticos etc. de seu país não foram às ruas convocar a população para retornar ao trabalho com a desculpa de aquecer a economia e ninguém se atreveu a criar uma crise política para desconcentrar a atenção e os cuidados relacionados à pandemia.

“Não. Aqui não houve esse tipo de coisa. Posso dizer que os governantes, sobretudo o primeiro-ministro e o Presidente da República, fizeram um acordo que privilegia a solidariedade para com as populações e a ética entre ambos”, afirma. Ela é autora de numerosos artigos dispersos em revistas, foi assessora editorial da Susaeta e é coautora do Guia dos Verbos Portugueses, da Lidel, cuja oitava edição sairá em breve.

Nesta entrevista exclusiva para o site do Sinpro-DF, ela explica que os portugueses lidaram com a pandemia com tranquilidade, respeito, obediência e disciplina. Não é à toa que país se tornou uma exceção na pandemia. “O primeiro-ministro, sempre responsável a considerar e a estudar o que se passa ou passou nos outros países e a mostrar as suas fragilidades, sublinhando que as suas decisões se baseiam nos argumentos da comunidade científica, na Diretoria Geral de Saúde (DGS) e na OMS. Este diálogo diário, entre o primeiro-ministro, o Presidente da República, a Ministra da Saúde e a diretora-geral de Saúde, foi coerente e assertivo e levou a que ficássemos em casa”, afirma.

Indignada com a situação do Brasil, ela conta que nenhum político, comerciante ou grupo religioso convocou as pessoas para irem às ruas. Ela diz que os religiosos também respeitam a pandemia. “Tanto é que, pela primeira vez em 100 anos, o Santuário de Fátima não receberá ninguém para a Peregrinação Internacional Anual de 13 de Maio. As celebrações ocorrerão sem a presença dos fiéis e a Páscoa foi muito tranquila, estivemos 5 dias de confinamento total, não podíamos nem sequer sair do concelho, o limite eram 5 km. E de uma forma quase geral as populações cumpriram”, conta.

Na divisão política de Portugal, “concelho” é uma circunscrição administrativa. Nos concelhos, a população seguiu à risca as recomendações. Graças a isso, o país não atingiu o extremo de casos e mortes da vizinha Espanha, que, até ser ultrapassada pelo Reino Unido, nesta semana, era a primeira depois da Itália em número de contaminados e mortos por covid-19.

Rua do Ouro, Baixa da Pombalina, região turística, centro comercial e financeiro. Foto de Teresa Araújo Costa

 

O RETORNO DAS ESCOLAS
No calendário do governo, as escolas não abrirão mais neste semestre. Só em setembro, após as férias de verão, se tudo correr bem. Em 18 de maio, haverá a reabertura das escolas só para estudantes do 11º e 12º anos que farão os exames nacionais, os quais correspondem aos dois últimos anos terminais do Ensino Secundário.

“As escolas ficam fechadas. Só reabrem para os estudantes dos dois anos terminais, que têm exames. Não se sabe quando as escolas reabrem. Isso vai por tentativas. Se agora, neste período em que estamos, correr bem, reabrem em setembro”, informa a professora.

As creches, que não fazem parte do Sistema de Educação, retornam em 18 de maio e, o pré-escolar, reabre em 1º de junho. Mas tudo depende dos movimentos da pandemia e todas as escolas e creches terão de se sujeitarem ao cumprimento de condições e regras determinadas pelo governo, que, a cada 15 dias, irá anunciar novas regras, com mais abertura, mas, somente se tudo correr bem.

Em todas as fases da abertura, o governo exige uso obrigatório de máscara nos transportes e serviços públicos, nas escolas secundárias e nas lojas. “O teletrabalho está mantido sempre que for possível até o fim de maio e depois ainda em regime parcial e com equipes desfasadas. No transporte público, a lotação deve ser de dois terços”, informa Deolinda. Ela diz que a ministra da Saúde, Marta Temido, anuncia pela imprensa, todos os dias, o boletim da crise e declarou que o pico ocorreu, por lá, entre os dias 23 e 29 de março.

No dia 9/4, o governo reavaliou a situação e decidiu manter as escolas fechadas em abril e depois das férias da Páscoa (os países europeus costumam ter 15 de férias no período da Páscoa). No dia 2/5, após nova reavaliação, decretou estado de calamidade até o 17/5. No dia 18/5, iniciará, lentamente, a reabertura de vários setores do comércio e algumas escolas. Durante os mais de 2 meses de confinamento total, as escolas permaneceram fechadas.

EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA E TELESCOLA
“As aulas foram reiniciadas a distância a 13/4. A partir do dia 20/4, foram reforçadas com o apoio da Telescola (grupos de escolas envolvidas com o Ministério da Educação e professores que conceberam programas especiais) até ao fim do ano, que ocorre em junho”, explica Deolinda.  Ressalta que a escola será reaberta no dia 18/5 apenas para estudantes do 11º e 12º anos que irão fazer o exame nacional e porque o pico da pandemia ocorreu em março. Ou seja, a escola reabre para atividades específicas somente 40 dias após o pico.

O calendário divulgado no dia 4/5 indica que as universidades podem voltar, mas não são obrigadas. “Em Lisboa, Porto e Coimbra poderão continuar a manter aulas a distância e retomar apenas aulas práticas. Os institutos politécnicos poderão ficar para o fim e com restrições, como desdobramento de turmas e de horários. Em 1º de junho, abrirão cinemas, teatros, auditórios, salas de espetáculos sob as seguintes condições: lugares marcados, lotação reduzida e distanciamento físico”, informa Deolinda.

Ela conta que as escolas mantiveram aulas a distância. “Porém, aqui, há alguns inconvenientes, a saber: nem todos os estudantes tinham acesso às plataformas dos professores, nem todos os professores estavam munidos e preparados para aprender e dar aulas a distância e muitos lares tinham apenas um computador com o pai, a mãe ou ambos a trabalharem em regime de teletrabalho. Ou seja, visto que isso, a continuar, iria acentuar múltiplas desigualdades, foi criado este programa da Telescola”.

No início do confinamento, o governo anunciou que se tudo decorresse como previsto, em maio abriria as creches. “Havia autarcas muito preocupados com situações de fome nas crianças, pais desempregados, enfim, os mais frágeis, como sempre, são os que têm menos recursos econômicos”, comenta a professora.

A professora informou que quando começaram as férias da Páscoa, nos dias 2, 3 de abril, a avaliação do segundo trimestre estava concluída (em Portugal o ano letivo é dividido em três trimestres). Segundo ela, “nenhum professor queria ouvir falar do impacto da pandemia sobre a educação. Para evitar prejuízos, “os estudantes e nós temos trabalhado muito, desde então”.

CALENDÁRIO FASEADO
Deolinda disse que o primeiro-ministro, “António Costa, referiu que o objetivo do Executivo, com o calendário faseado de reabertura, ‘é o de medir em cada 15 dias os impactos da medida anterior, vendo se é possível ou não dar mais um passo’ em termos de levantamento de restrições”, assegura.

Costa anunciou também, nesta semana, que “vale ir agora lentamente e com segurança do que depois termos surpresas desagradáveis que nos obriguem a andar para trás. Cada vez que libertarmos uma norma de contenção, o risco de contaminação aumenta. Sabemos isso e, como tal, temos de manter esse nível de contaminação controlável, com capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde (SNS)”.

O calendário obriga vários setores a manterem o teletrabalho, como pequenos comércios, designadamente as lojas com até 200 metros quadrados; cabeleireiros e esteticistas, bem como as barbearias; livrarias; stands de automóveis. Foram permitidas atividades desportivas individuais, embora sem uso de balneários. “Apenas gostaria de deixar uma mensagem para os(as) professores(as) da rede pública de ensino do Distrito Federal no Brasil e que passa ajudar o povo brasileiro a ter um comportamento adequado à situação: a História da Humanidade está cheia de guerras e pandemias. Muita gente morreu e sofreu. Pedem-nos que fiquemos em casa, pois fiquemos e sejamos solidários. E que possamos, com a nossa inteligência, tornar o confinamento menos duro, sublimando os benefícios que ele nos proporciona”, finaliza.

O Sinpro-DF agradece à professora de história Eunice Rodrigues, diretora do CEF 102 Norte, pela ideia e colaboração na série de reportagens internacionais sobre o impacto da pandemia do novo coronavírus na educação e a carreira docente em outros países.

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