Redução do auxílio para R$ 300 vai piorar desigualdade e crise, avaliam economistas

“Pago R$ 18,00 no pacote de arroz de cinco quilos e as contas de água e luz chegam a R$ 300,00. Dois, dos meus três filhos estão desempregados e ajudo a pagar a pensão da minha neta. Tive de parar de trabalhar como diarista depois de um acidente doméstico. Como vou sobreviver com R$ 300,00?, questiona, preocupada, Antônia Alves Pedrosa Moreira, de 56 anos, moradora numa invasão no bairro A.E Carvalho, na zona leste da capital de São Paulo.

Este é o drama de Antônia e de quase 60 milhões de brasileiros que estão sobrevivendo do auxílio emergencial de R$ 600,00 (R$ 1.200 no caso de mães chefes de família), aprovado pelo Congresso Nacional em março, cujo valor deve cair para R$ 300,00. O anúncio do novo valor e da prorrogação do pagamento do benefício por mais dois meses foi feito em reunião ministerial, nesta terça-feira (9), pelo ministro da Economia, o banqueiro Paulo Guedes.

A decisão de diminuir o valor do auxílio emergencial, utilizado como forma de diminuir a crise provocada pela pandemia do coronavírus (Covid-19) não tem a concordância da professora de economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Débora Freire, nem da mestra e doutora em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp e professora-visitante da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso-Brasil), Ana Luiza Matos de Oliveira.

As duas economistas defendem que para a economia girar é preciso distribuição de renda e sem o auxílio emergencial será muito mais difícil o país sair da recessão.

Débora se baseia no levantamento que originou a nota técnica de sua autoria e dos professores de economia da UFMG, Edson Domingues e Aline Magalhães e dos mestrandos Thiago Simonato e Diego Miyajima. No estudo publicado pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Faculdade de Ciências Econômicas (Cedeplar) , órgão suplementar da Universidade Federal de Minas Gerais, os economistas demonstram que o valor do auxílio emergencial é imprescindível para aliviar os efeitos da crise econômica.

Todos ganham com o auxílio emergencial, as famílias de baixa renda, as de renda mais alta que se beneficiam indiretamente do aquecimento da economia, as empresas que podem planejar suas demandas e o próprio governo que tem parte do valor do auxílio emergencial de volta na forma de impostos

– Débora Freire

O estudo mostra que quanto maior for o tempo de pagamento do auxílio emergencial, maior é o benefício para a economia brasileira.  Se o auxílio for pago até dezembro deste ano, 45% do seu custo total será coberto pelo aumento da arrecadação de impostos. Se for mantido apenas pelos três meses previstos, ele cobrirá apenas 24% do seu custo total.

Outro impacto econômico importante é sobre o Produto Interno Bruto (PIB). No trimestre que o auxílio foi pago se houver uma queda de 1% no PIB, ele mitiga 0,44% dessa queda. Se o benefício for estendido até dezembro, o valor do auxílio alivia 0,56% sobre 1% de queda do PIB.

“O auxílio tem impacto sobre as contas públicas porque quando a atividade econômica cai o governo arrecada menos, e quanto mais houver consumo as empresas pagam mais impostos. Ou seja, quanto mais tempo o auxílio for pago, mais vantajoso será para a economia brasileira”, afirma Débora Freire, que também é pesquisadora do Cedeplar.

A economista explica ainda que o auxílio emergencial impacta de forma direta a renda das famílias de menor poder aquisitivo, já que elas gastam tudo em consumo como alimentos e pagamento de contas, o que faz girar a economia. Se elas ficarem sem renda haverá queda de consumo e por consequência, o aprofundamento da recessão.

“Ao manter parte do consumo com o auxílio, as atividades produtivas se ajustam para atender a demanda, mantendo empregos, impactando na arrecadação de impostos e isto também é sentido nas classes mais altas porque são elas que recebem os benefícios da produção”, explica a professora de economia da UFMG.

Não dá para tirar, nem diminuir o valor do benefício agora. É um tiro no pé do ponto de vista da vida das pessoas, do trabalho e do próprio governo que vai ter ainda mais dificuldade em fazer o país sair da recessão”, conclui.

Defensora da prorrogação do auxílio emergencial, a economista Ana Luiza Matos de Oliveira, se preocupa com o alongamento da crise econômica no país, se o benefício for cancelado ou tiver o seu valor diminuído.

“A crise econômica vai se alongar porque se as pessoas saírem para trabalhar, sem manter o isolamento social pela falta dos R$ 600,00 para comprar comida e pagar o aluguel , não conseguiremos conter o vírus da Covid 19, e quem tem condições de consumir ficará com medo de sair de casa, de fazer compras, e a atividade econômica despenca”, avalia Ana Luiza.

A economista reforça que a renda média das pessoas que perderam o emprego ou eram informais era de R$ 1.200,00, o dobro do valor do auxílio, e essas famílias tiveram de se ajustar a esse quadro, cortando muitos gastos, e diminuir pela metade o valor a receber vai escancarar ainda mais um problema social do país.

“O problema econômico do Brasil é um problema social e reduzir o valor do auxílio emergencial aprofundará ainda mais esse quadro”, afirma Ana Luiza.

Antônia, como demonstrado no início da matéria, faz parte do problema social/econômico do Brasil. Ela é uma das mais de 60 milhões de pessoas que dependem do auxílio emergencial para sobreviver. A redução do valor do benefício pela metade a assusta, já que os altos preços do arroz, do feijão e das contas de luz e água, mal são pagos com R$ 600,00. “Se já está difícil pagar essas contas imaginem com R$ 300,00 ao mês”, diz preocupada.

Antônia, que foi diarista por 14 anos e teve de parar de trabalhar há cinco anos por conta de uma queda, já vinha sobrevivendo do Bolsa Família do marido e a complementação de renda com os bicos de consertos em fogões e máquinas de lavar que ele fazia, mas cujos pedidos caíram praticamente a zero com a pandemia.

Com três filhos adultos, casados e dois desempregados, a situação aliviou depois que ela e o marido passaram a receber o auxílio emergencial. Com isso, a renda da família subiu para R$ 1.200,00. Mas a pandemia ainda é um empecilho para seus filhos conseguirem um novo emprego e, por isso ela ainda tem de ajudá-los no sustento de suas famílias.

“Um deles é ajudante de pedreiro, e desempregado não tem como pagar a pensão da filha, e eu tenho de ajudar. Por isso os 600 reais são só uma ajuda para sobreviver. Mal dá pra pagar as contas de luz e água e comer. Mesmo assim, às vezes tenho de fazer a opção entre pagar a água e a luz ou comer. Não dá pra ficar sem água e luz. Comida sempre tem alguém que ajuda. O pouco com Deus, é muito”, diz Antônia, com fé.

A vida de Leandro Teixeira Oliveira, de 26 anos também sofreu um revés quando teve de fechar seu pequeno comércio de doces. Morador de São Miguel Paulista, zona leste da capital, ele tem no auxílio de R$ 600,00 a sua única fonte de renda, já que a pequena doceria que mantém na própria casa em que mora de aluguel, está fechada por causa da pandemia.

Antes da quarentena ele conseguia em média R$ 300,00 por dia, no pequeno comércio que abriu há dois anos depois de perder o emprego como atendente de loja.

Apesar de ser solteiro e morar sozinho, Leandro diz que sem o valor do auxílio emergencial vai ter de entregar a casa e o ponto, cujo valor do aluguel é exatamente R$ 600,00. E se o governo federal reduzir o valor do auxílio será inviável manter a doceria aberta com tanto sacrifício.

“Só de água e luz são R$ 400,00. Não estou conseguindo pagar as contas, mesmo com a ajuda da família, e como vou conseguir um emprego nesta crise?, questiona, preocupado com o próprio futuro.

Prestações mais altas para pagar tem o produtor de eventos, Caique Magalhães de Souza, de 27 anos. Sua vida virou de cabeça para baixo quando veio a pandemia. A área em que trabalha foi a primeira a sentir os impactos da quarentena e todos os eventos em que trabalhava foram cancelados.

A vida planejada com a namorada veio abaixo. Eles tinham acabado de alugar uma casa no valor de R$ 2.500,00, em Perdizes, quando Caique perdeu a renda de R$ 3.500,00 dos eventos. Julia tinha acabado de se formar em biomedicina e perdeu o emprego. Além disso, Caique tem de pagar meio salário mínimo (R$ 552,00) de pensão da filha de quatro anos de idade.

Ele e a namorada, por enquanto, sobrevivem com os R$ 1.200,00 que recebem de auxílio emergencial, que não cobre nem metade do aluguel, mas deixar a casa não é uma opção, já que com o contrato recente as multas pela quebra seriam bem maiores do que ser despejado.

O produtor conta que demorou mais de 40 dias para receber a primeira parcela do auxílio e só deu para pagar parte das contas atrasadas.

“Paguei luz, internet , conta do celular. Estava tudo atrasado. Quem está pagando a pensão da minha filha é minha mãe”, diz.

A sua esperança é que a namorada conseguiu esta semana um novo emprego, como consultora técnica numa empresa de serviços de sanitização. Mas, com tantos boletos atrasados vai demorar um bom tempo para que o jovem casal coloque a vida nos trilhos novamente.

“As contas ainda não estão fechando, eu ainda faço uns bicos de conserto de equipamentos de air soft [armas de bolinhas utilizadas em eventos esportivos]. O pessoal traz em casa, mas eu tenho de entregar e me expor a um possível contágio”, diz.

Caíque se revolta com a possibilidade do governo de reduzir o valor do auxílio emergencial para R$ 300,00.

“Não tenho um boleto sequer que seja menor do que R$ 200,00. Com este valor compro umas pizzas e fico olhando os boletos pra ver se eles desaparecem”, ironiza.

Fonte: CUT

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