Professoras buscam formas de tornar o ensino remoto mais acessível e atrativo

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Driblando as dificuldades causadas pela falta de acesso à internet no Brasil, professoras e professores têm investido em conteúdos mais dinâmicos nas aulas online durante a pandemia do novo coronavírus. Esta é a última reportagem de uma série sobre as desafios do ensino remoto no Brasil. 

Desde o dia 16 de março Paula Capriglione, professora das redes públicas municipal e estadual de São Paulo atua de forma remota atendendo os alunos do 4º ano do ensino fundamental da rede estadual.

Para que as aulas fiquem mais dinâmicas, tem procurado exposições virtuais, trabalhado com arte, filmes e música para dar autonomia aos estudantes.

Inspirada por outras escolas, ela propôs para sua classe gravar um vídeo com todos cantando a música Gente, de Caetano Veloso. A turma adaptou a letra e trocou os nomes da canção original pelos nomes das alunas e dos alunos da sala de aula.

A professora explica que a turma ficou muito empolgada com a construção do vídeo, embora alguns alunos tivessem um pouco de dificuldade com a gravação. Ela conta que a atividade aproximou os alunos e o resultado foi aprovado por todos da turma. 

Miriam Mançano, professora da rede municipal de São Paulo, explica que uma das atividades mais significativas do período de pandemia é elaboração de releituras de obras de arte e destaca que muitos trabalhos revelaram habilidades antes desconhecidas dos estudantes. 

Quando se trata de trabalhar a arte online, professoras e professores aderiram ao uso de vídeos, músicas, desenhos, mas sempre com a preocupação de quem conseguiria ter acesso a esse material, explica Mançano. Com 24 anos de atuação como professora, ela também desempenha o papel de coordenadora pedagógica do ensino fundamental I.  

“Essa releitura de arte é fantástica, as crianças em casa montando as obras, todos os vídeos que são colocados, as músicas. É tomado um cuidado danado para não se colocar muito, porque cada vez que você sai da plataforma, você passa a usar dados de internet. E nas escolas públicas, como a gente sabe, a maioria não tem acesso à internet, então é tudo cercado de muito cuidado, cada uma das coisas que a professora vai fazer”, explica.

A pesquisa TIC Domicíliosrealizada pelo Cetic.br, mostrou que em 2019 apenas 41% das pessoas disseram ter realizado atividade ou pesquisa escolar na internet. Quando falamos de estudo por conta própria, 4 a cada 10 pessoas disseram utilizar a internet para este meio.

Na classe A, 60% das pessoas disseram ter estudado na internet por conta própria, já nas classes D e E, apenas 27%. Realidade que escancara as grandes diferenças entre classes sociais. 

Segundo Mançano, na escola onde trabalha apenas 20% dos estudantes conseguem ter acesso regular ao conteúdo. Para ela é imprescindível cobrar do governo que seja garantido o acesso à internet para os estudantes que não estão conseguindo participar das aulas. 

“A maioria dos estudantes acessa pelo celular e, vamos pensar em uma família que tem três crianças em uma escola ou em escola diferentes, então a mãe que nesse momento já está trabalhando chega em casa à noite e ela tem que entrar na plataforma, ver as atividades de uma das crianças. Ela sai, entra e vê a da outra, tudo com logins diferentes, porque para você ter acesso a sua sala de aula você tem um e-mail pessoal. Então é uma coisa muito complicada” explica Mançano. 

Na cidade de São Paulo (SP), além da plataforma digital, um caderno de atividades também foi enviado para as famílias. E, ainda assim, a falta de estrutura técnica prejudica muitos deles. Algumas crianças conseguem realizar as atividades e manter um diálogo com as professoras. Outras tentam fazer uma intervenção pela plataforma ou tiram fotos das atividades feitas e as professoras, por sua vez, corrigem e devolvem.

Mas o  governo ainda não encontrou uma alternativa para os alunos que não conseguem fazer essa devolutiva. Quando não falta o aparelho celular ou o acesso à conexão de internet, as câmeras dos celulares não conseguem captar as respostas do caderno. 

“Está sendo horroroso trabalhar desta maneira porque desvincula tudo aquilo que é considerado a educação, que é um vínculo que você tem, atenção às necessidades de cada uma das crianças – lembrando que a gente tem, só no período que eu trabalho, 21 crianças com deficiência. Então a gente tem que ver a necessidade dessas crianças e de todas as outras porque ninguém aprende no mesmo ritmo ou só lendo um texto”, explica a coordenadora pedagógica

Joana Monteleone é editora, historiadora e mãe de um menino de 14 anos, Francisco Monteleone Sereza, que está no 9º ano da EMEF (Tenente José Maria Pinto Duarte), em São Paulo. Ela conta que o filho é gosta muito do ambiente escolar, tiras notas altas e participou da construção do primeiro grêmio escolar da instituição de ensino. 

A historiadora considera que a forma como o estudo remoto está se dando não é proveitosa. Ela conta que tem dado “aulas” disfarçadas para o filho.

“Assinamos um jornal, discutimos as notícias, vemos como são montados gráficos, discutimos curvas epidêmicas, como são feitas as vacinas. Discutimos os jogos do computador, toda noite assistimos uma série vista em inglês sobre saúde pública na Inglaterra. Ele leu ‘O Mundo de Sofia’ e conversamos sobre. Também analisamos filmes da segunda guerra e falamos sobre guerra e guerra fria.  Vemos mapas, assistimos jornais, falamos da omissão do governo”, conta.

Para Joana o filho não ‘ficará para trás na escola’ por conta dessas medidas adotadas, mas diz ter consciência que vivem uma realidade privilegiada em relação aos demais estudantes. 

Edição: Leandro Melito

Fonte: CUT

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