Os motivos que levaram a Alemanha à flexibilização parcial da quarentena

A Alemanha iniciou, na segunda-feira 20), a flexibilização da quarentena. Com critérios rigorosos, começou o retorno à vida normal depois de atravessar 40 dias de isolamento social e ultrapassar o pico da pandemia do novo coronavírus. Tanto quanto o isolamento social, as regras para o retorno também são rígidas.

Apesar ter um percentual relevante de idosos e da região sul do país ser próxima da Itália, a Alemanha permitiu a abertura de lojas de até 800 metros quadrados de área, mas restaurantes e salões de beleza continuam fechados. Em alguns estados, escolas secundárias voltam a funcionar nesta segunda-feira (27) somente para realização de provas de fim de curso, como o Ensino Médio, e de ingresso nas universidades.

Mas tudo com a rigidez da segurança: distanciamento, máscaras e higiene. Os detalhes serão publicados em outra matéria sobre o impacto da pandemia na educação da Alemanha. Algumas igrejas também voltam a funcionar. Já em outros, nem escolas nem igrejas retornam. Mas, o que a Alemanha fez para permitir a reabertura parcial das atividades cotidianas?

Uma matéria da BBC Londres explica os quatro principais motivos que levaram a Alemanha a ter sucesso no combate à pandemia do novo coronavírus e a decidir flexibilizar, parcialmente, a quarentena. Na matéria, a BBC destaca que, com um índice de mortalidade por covid-19 baixo, a Alemanha tem uma população de 83 milhões de habitantes, 20 milhões de pessoas a mais do que sua vizinha Itália (60 milhões de habitantes).

Importante ressaltar que uma diferença gritante entre a Alemanha e outros países do mundo, como o Brasil, é que, desde o dia 12 de abril, o número diário de pessoas que se recuperam da covid-19 é maior do que o número de novos casos. Nos outros países, essa realidade ainda não aconteceu. No Brasil, por exemplo, esse número está em franco e assustador crescimento. Confira o conteúdo divulgado pela BBC Londres.

PRIMEIRO MOTIVO
O primeiro passo para esse relativo sucesso no combate à pandemia do novo coronavírus não foi dado nem ontem nem hoje. Trata-se de uma questão de investimento de longo prazo. A Alemanha foi atropelada por essa crise com uma situação mais sólida do que a de muitos países, mesmo os mais ricos. Tem a mais alta taxa de leitos de UTI por habitante no mundo. E esse foi o principal motivo que levou o país a retomar, de forma relativa, a vida normal.

No total, eram 28 mil leitos de UTI, no início da crise, o que permite um cuidado adequado para pacientes graves e para a redução das mortes. Esse investimento em Saúde evitou a situação que ocorreu em vários países e que já começou a acontecer no Brasil: médicos tendo de fazer a escolha de Sofia. Mesmo assim, o governo federal alemão investiu mais dinheiro no sistema de Saúde e anunciou que, com isso, a capacidade atual subiu para 40 mil leitos de UTI.

Paralelamente à folga no número de leitos, a Alemanha desenvolveu um sistema digital unificado de rastreamento de todos os leitos. Esse sistema mostra onde há leitos livres em todos os hospitais do país. Isso permite decidir para onde levar o paciente no caso de uma cidade com UTI lotadas. Todavia, se a situação piorar, a ordem é fechar tudo de novo.

SEGUNDO MOTIVO
O segundo motivo foi o investimento pesado em testes. A Alemanha fez mais de 1,7 milhão de testes até agora. Só na primeira semana de abril, a Alemanha realizou 120 mil testes por dia. O Brasil, segundo os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) é o país que realizou menos testes no mundo. O Ministério da Saúde anunciou, no dia 20/4, que o País havia realizado apenas 132.467 testes específicos para covid-19. Outros 56.613 estão em análise. Um número irrisório para um Estado que pretende controlar uma pandemia.

A situação do Brasil é tão crítica em subnotificações, inação, omissões e falsificações de conteúdos sobre a pandemia que o País ficou de fora da aliança mundial da OMS para uma vacina contra o novo coronavírus. O Brasil, que já foi líder na discussão, medicação e tratamentos, nem sequer participou do encontro, realizado na sexta-feira (24), com lideranças mundiais para formar uma nova aliança para descoberta e distribuição de medicamentos e vacina contra o novo coronavírus. Parte do governo brasileiro não sabia da reunião.

POR QUE TESTAR?
Os testes permitem as autoridades saber onde estão localizadas as cadeias de infecção, ou seja, em que regiões, em que cidades, em que parte das cidades o vírus mais aparece. Cada vez que alguém tem o vírus confirmado por algum teste, as autoridades rastreiam todo mundo que entrou em contato com essa pessoa para impedir o contágio.

A Alemanha desenvolveu um aplicativo para monitorar quem está por perto do seu próprio celular. Assim, se a pessoa for contaminada, fica ainda mais fácil testar essas pessoas e mais fácil de evitar o alastramento do vírus. Ao anunciar o plano de flexibilização da quarentena, a chanceler Angela Merkel comemorou a queda na taxa de contágio.

“Com o isolamento e as demais medidas, a curva ficou mais achatada. Precisamos mantê-la de forma a não sobrecarregar o sistema de saúde. Fizemos algumas projeções. Chegamos ao fator de contágio de 1. Um infectado contamina mais um. Se uma pessoa infectar 1,1 pessoa, já em outubro chegaremos à capacidade máxima de leitos de UTI do sistema de saúde. Se chegarmos a um fator de 1,2, chegamos à capacidade máxima do sistema em julho. Com 1,3, em junho. Por aí se vê como é reduzido o nosso espaço de manobra”, explicou a chanceler.

Essa situação mostra que a Alemanha atingiu uma nova fase na pandemia. Merkel disse também que o governo irá manter a realização de testes e mudanças no diagnóstico do problema podem levar a revisões nas políticas de abertura da Alemanha.

TERCEIRO MOTIVO
O terceiro motivo que tem sido realizado paralelamente é o olhar para o procedimento da pandemia e do sistema de saúde a longo prazo. Considerando que não existe uma vacina e nem tratamento comprovadamente bem-sucedido, é com a imunidade do corpo que se pode contar. Já se sabe que não é tão simples. Não se sabe ainda se o corpo adquire imunidade depois que contrai e cura da covid-19 e nem se é total, parcial e quanto dura.

Enquanto não há resposta para isso, a Alemanha segue testando. Desta vez para anticorpos já para determinar que percentual da população desenvolveu anticorpos e também que grau de imunidade infectados desenvolvem tanto a um infectado que chegou a estado grave como o que não desenvolveu nenhum sintoma (assintomático). Estudos de anticorpos estão sendo feitos em várias partes da Alemanha para subsidiar decisões de mais longo prazo ainda e sobre o futuro da quarentena.

QUARTO MOTIVO
O quarto motivo que levou a Alemanha pôr em curso uma relativa flexibilização da quarentena e tem garantido o sucesso do seu combate à pandemia é o grau de confiança que povo tem no governo. Por exemplo, se a recomendação é ficar em casa, a grande maioria da população obedece, independentemente de concordar ou não com o partido político que está no governo e dos desafios do comércio.

A confiança nas instituições públicas tendem a ser alta na Alemanha. Angela Merkel governa o país desde 2005. Líder de uma coalização de centro-direita, ela é conhecida pela sua frieza na condução de crises. “A mãe”, como é chamada, carinhosamente, pelo povo germânico inspira confiança e respeito em grande parte dos alemães.

Formada em física, com doutorado em química quântica, Merkel criticou duramente o que ela chamou de “orgia de discussões sobre abertura”. A Alemanha é uma federação e as políticas não são iguais país afora. Há diferenças regionais, baseadas principalmente em taxas de infecção. Lá também nem todo mundo concorda com as recomendações. Há quem disse que as medidas de isolamento foram radicais e outros que dizem que a reabertura parcial agora ocorre cedo demais.

O momento é de cautela. Enquanto se discute a reabertura, o governo da Baviera, no sul da Alemanha, cancelou a tradicional festa Oktoberfest, que ocorre entre setembro e outubro, que atrai cerca de três milhões de pessoas para Munique e, segundo estimativas, movimenta mais de 1 bilhão de euros. Merkel anunciou também que dentro de duas semanas irá avaliar o resultado da experiência de flexibilização parcial. Avisou que pode voltar a restringir o contato social depois dos resultados.

Com a política de sempre investir nos setores essenciais do país, como saúde e educação públicas, bem como com o isolamento e demais medidas de contenção da pandemia, Merkel viu sua taxa de aprovação saltar de 68% para 80% em cinco semanas.

O Sinpro-DF tem acompanhado o impacto da pandemia do novo coronavírus em outros países e publicado matérias com entrevistados desses países no site e redes sociais. Confira o conteúdo que já foi divulgado.

Itália
Professora da SEEDF que adquiriu coronavírus conta como a Itália lida com a pandemia
Reportagem completa no site
Sinopse no Facebook

França
Na contramão da Cidade Luz, Brasil das trevas mantém o Enem
Reportagem completa no site
Sinopse no Facebook

Espanha
Covid-19 na Espanha: Tragédia, isolamento e mudanças na educação
Reportagem completa no site
Sinopse no Facebook

Europa
Europeus adotam critérios científicos para retomar a vida e abrir escolas
Reportagem completa no site
Sinopse no Facebook

Skip to content