Alemanha retoma educação com rigidez e restrições

Nesta segunda-feira( 27), algumas escolas da Alemanha voltaram a funcionar apenas para realização de provas de fim de curso do Ensino Médio. Outras tantas, não. Elas simplesmente cancelaram todas a provas, incluindo as provas do Abitur, o Enem de lá. O plano é voltar somente após as férias de verão, em setembro. O país iniciou, no dia 20/4, uma flexibilização da quarentena de forma parcial para alguns setores da economia.
 
Vários motivos levaram a chanceler, Angela Merkel, a optar por essa abertura lenta e gradual. Os principais foi o fato de o país germânico já ter passado pelo pico da pandemia e possuir um sistema de saúde com 40 mil leitos de UTI capazes de suportar a crise do novo coronavírus. A abertura é restrita e nem tudo foi liberado.
 
A chanceler permitiu, por exemplo, que apenas as lojas de até 800 metros quadrados pudessem abrir na semana passada. Mas manteve fechados restaurantes, salões de beleza, entre vários outros. A educação está no rol dos serviços liberados com reinício nesta segunda-feira (27), porém para algumas poucas atividades e com regras bem rígidas.

ESCOLAS NÃO RETOMARAM AS AULAS
Mesmo com a liberação da chanceler, em vários estados as escolas não voltaram. Mas, mesmo assim receberam o “Plano Básico de Higiene”, divulgado na sexta-feira (24), pelo governo federal, para as escolas que decidiram retomar algumas atividades a partir desta segunda e para as que irão retornar no dia 4 de maio.

Manuela Monti, uma professora brasileira que trabalha em Berlim há 7 anos, conta como tem sido essa a abertura. Ela atua como Betreuung – uma mistura de acompanhamento terapêutico, educador, psicólogo social, pedagogo e assistente social – na instituição Novus Hilfen Berlin. Coordena projetos de inclusão social e educacional de crianças e jovens migrantes e refugiados, e mantém uma parceria estreita com as escolas de todos os níveis educacionais da Alemanha.

Ela assegura que a flexibilização no setor da educação é rígida e, embora algumas deliberações advenham da esfera federal, a maior parte das decisões, como a de reabertura das escolas, são de competência estadual. Datas de férias e de início de semestre, por exemplo, ficam a critério dos respectivos estados. “Muitos deles cancelaram as provas mais importantes, como a de conclusão de curso ou de encerramento do Ensino Médio, que aqui se chama Abitur (como o Enem do Brasil). Outros ainda pensam em alternativas para realizá-las”, afirma.

Manuela ressalta que as escolas não reabriram para aulas. “Caso o estado determine a abertura de suas escolas, terá de ser apenas para aplicação de provas e, para isso, deve deixar espaços entre um estudante e outro de 1,5 metro de distanciamento, usar máscara na pausa e manter higiene básica, como lavar as mãos etc. As férias também têm sido motivo de preocupação porque, como a Europa inteira entra de férias entre julho e agosto, os governos querem evitar o caos”.

AULAS VIRTUAIS E FALTA DE COMPUTADORES
Com a pandemia, todos os estados da Alemanha fecharam as escolas no dia 16 de março e os professores trabalharam, intensivamente, nas duas primeiras semanas do isolamento social para colocar ou pelo menos pensar numa proposta digital. “Na época, a discussão entre os professores era sobre a viabilidade da educação virtual num país onde parte das crianças e dos adolescentes não tem acesso a computadores e à Internet.

“Muitas famílias, até na grande Berlim, não têm acesso à Internet ou não têm computador em casa. As universidades, por sua vez, conseguiram organizar pelo menos 80% das aulas num formato digital com webconferências por meio de aplicativos como o Zoom. Mas as escolas de Ensino Fundamental, Médio e de profissionalização enfrentaram os piores obstáculos”, afirma a professora, formada em psicologia, com mestrado em Psicologia na USP e fazendo mestrado em educação na Universidade Técnica de Berlim.

Ela disse que as atividades escolares foram passadas por telefone, via aplicativo de bate-papo. “Em Berlim, o governo estadual tem tentado contornar o problema das famílias que não possuem computador e acesso à Internet. Agora, com a obrigatoriedade da volta, fez um levantamento e vai emprestar 9.500 tabletes conectados à internet a estudantes, que, posteriormente, terão de devolver. Esses tablets serão recursos das escolas”, informa.

No isolamento, a maior parte das escolas enviou os conteúdos por e-mails, com exercícios para serem feitos em casa e utilizou plataformas de videoconferência para trocar informações com estudantes e tirar dúvidas.  Nos projetos de profissionalização, muitos professores agendaram chamadas telefônicas com os estudantes para acompanhar o andamento das atividades enviadas por e-mail ou por algum aplicativo de bate-papo.

Deram prazo de uma a duas semanas para o estudante mandar de volta a tarefa ou fazer o download e anexar na plataforma. Nas primeiras semanas, com o feedback dos estudantes, os professores adaptaram a demanda às necessidades estudantis. Em algumas escolas foi oferecido um atendimento individual de emergência em que professores se intercalaram para sanar dúvidas.

AS AULAS NÃO VOLTARAM
A professora informa que muitas escolas estão, teoricamente, de férias de Páscoa. Em alguns estados, a ideia é voltar com aulas intercaladas. As medidas para retorno das escolas ainda estão em debate. “Em Berlim, as que retornaram nesta segunda (27) foi apenas para estudantes do Ensino Médio fazerem as provas do Abitur. Outros estados cancelaram todas as provas inclusive essa. Em outros, ainda, há o projeto de realizá-las. Em Brandenburg estão planejando fazer; em Berlim, cancelaram todas”, afirma.

Ela diz que o Ensino Fundamental está previsto para voltar a partir do dia 4 de maio pouco a pouco. “Mas não serão aulas comuns e não tanto presencial. Eles querem fazer tudo em grupos pequenos, respeitando o distanciamento”, afirma.  O Ministério da Educação apresentou as possibilidades de retorno, dentre elas, a de realizar aulas separadas de manhã e de tarde, fazer blocos de aulas em só dois ou três dias.

“Por exemplo, um grupo visitaria a escola só de segunda a quarta-feira; e, outro, de quinta a sexta-feira. Depois troca. O grupo que ficar em casa terá trabalhos e uma aula digital, como de ensino a distância para fazer”, explica. Ela diz que essas serão as medidas a serem adotadas em Berlim até as férias escolares de verão previstas para começar no dia 25 de junho.

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