Por administrador em 18/mar/2009

Professora responde a secretário



A professora Maria Virgínia de Lima encaminhou ao sindicato uma carta que ela enviou ao secretário de Educação em resposta à Carta aos Professores, enviada por ele aos educadores. Pela clareza de sua abordagem, transcrevemos o texto para conhecimento dos professores. Brasília, 15 de março de 2009
Sr. Secretário
Secretaria de Estado da Educação
Distrito Federal

A correspondência a mim enviada merece contestação de certas afirmações com as quais eu não concordo e acho até levianas.
Afirmar que o piso salarial de R$ 3, 2 mil é o maior do Brasil, é pura enganação porque está desconstituindo o elevado custo de vida aqui praticado e o alto poder aquisitivo das demais classes de funcionários que compõem os quadros do DF e do próprio governo federal. Maior que esse salário o governo federal paga aos funcionários de nível médio das agências reguladoras. Também não é parâmetro em relação aos outros entes federados porque eles pagam muitíssimo mal.
Outro ponto relevante é que o DF arrecada tributos correspondentes aos Estados e Municípios e ainda tem as polícias militar e civil, bombeiros e Tribunal de justiça paga pela União. Portanto possui uma margem considerável de receita superior a muitos estados, igualando-se aos estados ricos.
Quanto aos efeitos da crise econômica que eclodiu no 2º semestre do ano passado, Brasília continuou indiferente já que o governo local anistiou dívidas de IPTU de muitos contribuintes e segundo a LRF quem perdoa dívida é porque tem projeção de aumento receitas para os dois exercícios subseqüentes. Os gastos excessivos com propagandas e o volume de recursos previstos para fazer um estádio de futebol não são compatíveis com esse discurso de falta de receita. A queda da receita houve não só em Brasília mas em todo o país, mesmo porque alguns tributos normalmente pagos em fevereiro passaram para março e as receitas vão se equilibrando e os sinais de recuperação já são analisados por especialistas do ramo. Usar essa desculpa para descartar negociação é tentar manipular dados e consciência dos estudantes e da população em geral gerando muita enganação e desrespeito com quem financia tudo isso, o povo.
Lamento o fato de o Sr. Secretário somente agora vir a se preocupar com os alunos ficarem sem aulas. Todos os dias pais e crianças recorrem aos veículos de comunicação tentando chamar atenção da população para o descaso com a educação por parte do governo. Uma vez o transporte não passa, outra não tem o transporte, outra falta a estrada e o transporte não circula, além das muitas vezes em que se mostram alunos sem poder assistir aulas por causa de escolas em péssimas condições. Tudo isso não foi motivo suficiente para colocar a educação desses jovens, crianças e adultos como prioridade. Somente agora é que surge o fantasma do medo de as crianças ficarem sem aulas porque os “barnabés” da educação estão reivindicando um salário decente! Ora, secretário, nem os padres vivem mais de sacerdócio, imagine a mãe de família que cuida de seus filhos e dos filhos dos outros.
Momento de crise é o ideal para os governos demonstrarem inteligência, priorizando gastos com vistas a obter resultado no futuro, investir em educação é não precisar construir presídios para abarrotar de jovens aos quais foi negado um direito público subjetivo, que é a educação de qualidade.
Para tratar-me como colega é porque, certamente, desempenhou função de professor e como tal sugiro que sente para negociar com os representantes da classe e o governo para encontrar uma saída efetiva e condigna com o trabalho que prestam à sociedade.
Volto ao ponto onde comecei: a crise econômica não pode ser usada como pano de fundo para descartar negociação, tendo em vista que nos EUA onde tudo começou, o Presidente quer reconstruir a América priorizando a educação, os gastos com educação. Eis a diferença do gestor que pensa em manter seus compatriotas no topo da civilização e de quem quer mantê-los no submundo, ignorantes alheios ao desenvolvimento para de quatro em quatro anos fazer promessas mirabolantes e acordos espúrios para se manter no poder.
Não priorizar a educação é ver aumentar os índices de criminalidade, a rota do tráfico e tudo mais que aterroriza os cidadãos que pagam seus impostos, cumprem com seu papel e o estado se faz de cego, surdo e incapaz.
Solicito a gentileza de não mais me importunar com essa conversa fiada, não sou ignorante nem leiga, sei que o DF arrecada muito bem e pode pagar um salário decente aos professores sem fazer comparações com outros estados.
Conduza as negociações com postura de gestor, estamos num estado democrático e de direito, sob a égide da Lei, onde não há lugar para arrogância nem ameaças.
O homem é um ser político por excelência, Deus os fez assim, vivendo em sociedade ou o ser é politizado ou se torna um alienado, essa história de greve política é história pra boi dormir.

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