“Toda solidariedade à paralisação dos servidores argentinos”

Sob um sol escaldante, com o termômetro falando 33 graus centígrados e a sensação térmica gritando 46, as ruas de Buenos Aires foram tomadas por mais de 40 mil argentinos no Dia Nacional de Protesto contra as medidas recessivas do governo Macri. Presente à manifestação, o professor José Celestino Lourenço, secretário de Cultura da Central Única dos Trabalhadores (CUT-Brasil), destaca a relevância do ato e a importância da solidariedade contra o retrocesso da política de ajuste neoliberal.
O que mais chamou a atenção na mobilização?
Para mim, a expressiva participação da juventude, cerca de 50% dos manifestantes, foi o mais marcante. Havia uma diversidade muito grande de movimentos que faziam o seu batuque sem parar um segundo sequer. Não tinha caminhão de som, era só batucada e cantoria de hinos de resistência que cada grupo criava, muito legal.
Tão poucos dias de governo e já tanta gente protestando…
O fato é que a aplicação do ajuste neoliberal já desempregou 24 mil funcionários públicos, isso só na primeira etapa. Outra leva já está programada para acontecer no próximo período. Temos o aumento da inflação; a desvalorização do câmbio, com o dólar valendo 15,6 pesos; um tarifaço de 600% na energia elétrica, que até então era subsidiada, e de 300% no gás. Como se não bastassem estes aumentos estratosféricos, a população começa a conviver com apagões. Isto é, ainda paga para não ter.
Macri prometeu o paraíso e entregou o inferno.
Há muitas medidas anti-populares como o pagamento dos fundos abutres em condições extremamente desvantajosas para o povo, algo que o governo de Cristina Kirchner não aceitava. Há também o problema das “paritárias”, que são negociações entre o empregador e o trabalhador. O ano letivo começa agora e, na educação, o movimento sindical não aceita que o governo federal repasse o problema. Concorda com o acordo se for obrigatório seu cumprimento pelos estados, que não estão aceitando.
Como está a questão da criminalização do protesto?
Há uma política clara de criminalização dos movimentos sindical e social, com a perseguição e prisão de lideranças como Milagro Sala, do Movimento Tupac Amaru e deputada do Parlatino. Com isso, Milagro está se tornando cada vez mais uma referência para o conjunto das entidades. Inclusive foi lida uma carta dela para os movimentos. O manifesto do companheiro João Felicio, presidente da Confederação Sindical Internacional (CSI), em solidariedade à manifestação também foi citado. Há uma judicialização do protesto, algo muito parecido com o Brasil, com a atuação conjunta da mídia e do Judiciário, em que o grupo Clarín pauta o governo.
O governo enveredou por estimular um clima de confronto…
Há inúmeras denúncias e ouvi depoimentos de que o governo está perseguindo e demitindo pessoas apenas porque supostamente são de esquerda. Li num cartaz segurado por uma senhora: “Fui funcionária por 11 anos da Secretaria de Direitos Humanos e fui demitida por ser considerada de esquerda”.
E o caso das Avós da Praça de Maio?
As Avós da Praça de Maio solicitaram uma audiência com Macri, que negou. Quando elas souberam que o presidente francês François Hollande visitaria o país, pediram para falar com ele. Hollande confirmou. Só aí Macri voltou atrás e atendeu o pedido.
E a popularidade ladeira abaixo…
Como a popularidade dele vem despencando, tenta propagandear que está “ampliando relações” com o mundo inteiro. O fato é que com cada um dos ditos “acordos” fechados com o estrangeiro ele compromete mais e mais o futuro do povo argentino, a soberania do país. Por isso o que mais se ouve nos protestos é: “Macri, nosso país não é sua empresa”. Ele conseguiu unificar todos os movimentos sociais e esta unidade vai se refletir numa jornada de mobilização e luta. A próxima paralisação já está convocada e será no dia 24 de março. A data recorda os 40 anos da implantação da ditadura militar na Argentina e coincide com a chegada de Obama ao país, o que está sendo considerado uma provocação, por todo o apoio que os Estados Unidos deram ao golpe e ao investimento que fizeram para a própria eleição de Macri.
O governo também aprovou uma lei para paralisar os movimentos da oposição. Como é isso?
É um negócio nojento. Determina como qualquer movimento deve se comportar nas ruas ou em praça pública, estabelecendo prazos e percursos, definindo inclusive os minutos que deve durar. Pelo que passará a ser determinado pelo governo, a polícia chega, estabelece prazos e depois está autorizada a descarregar todo o seu poder repressivo para desfazer a aglomeração, se utilizando até mesmo de armas letais. Se esta lógica vingar, ditabranda ou ditadura vai dar na mesma.

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