O preço do descaso: adoecimento da categoria e Ideb em queda escancaram crise na educação do DF
A capital do país ostenta um paralelo preocupante: enquanto seus professores, professoras, orientadores e orientadoras educacionais adoecem em números recordes, a qualidade da educação pública desaba. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025, divulgado em agosto pelo Ministério da Educação, colocou o Distrito Federal com o pior desempenho no ensino médio, com a rede pública não atingindo a meta em nenhuma das etapas de ensino.
Para o Sinpro, não se trata de um mero acaso, mas de uma relação direta entre esse desempenho pífio e as condições de trabalho dos profissionais da educação.
A epidemia silenciosa
Os números do adoecimento docente são estarrecedores. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que, de 2023 para 2024, o número de afastamentos de profissionais da educação por transtornos mentais e comportamentais aumentou 68%. No Distrito Federal, a situação é ainda mais crítica: 56% dos professores e orientadores educacionais se afastam anualmente para tratar a saúde, sendo que 70% desses afastamentos estão relacionados a transtornos mentais e comportamentais.
Mais de 3 mil educadores se afastaram em 2023, colocando a categoria do magistério público do DF na segunda colocação entre as que mais se afastam no país. A Síndrome de Burnout, classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como doença ocupacional; depressão; ansiedade; distúrbios osteomusculares (DORT/LER) e problemas vocais estão entre os principais diagnósticos.
“O adoecimento muitas vezes vem pela impossibilidade de comunicar tantas dores. Elas aparecem nas frestas, como enxaquecas, dores musculares, insônia, medo, que é uma forma de evitar explodir em lugares errados diante de tanta demanda”, explica Luciane Kozicz, psicóloga do Sinpro e pesquisadora do Núcleo de Trabalho e Linguagem da Universidade de Brasília (UnB).
Causas estruturais
O cenário não é fruto do acaso. A sobrecarga de trabalho, salários defasados, falta de suporte por parte da SEEDF, condições precárias de trabalho e a carência de profissionais são apontados como os principais causadores do adoecimento em massa.
O Sinpro tem denunciado sistematicamente essa realidade. Segundo a entidade, o último concurso para orientadores educacionais foi realizado em 2022, e cada profissional atende hoje aproximadamente 680 estudantes. Apesar disso, existe um banco de aprovados em OE no concurso aguardando nomeação, mas o Governo do Distrito Federal (GDF) não convoca esses profissionais, o que agrava ainda mais a situação nas escolas. “Quando se fala em valorização e investimento, é necessário profissionais suficientes para atender as reais necessidades dos estudantes, pais e profissionais da escola. A criação de mais 1.000 cargos de orientadores educacionais para atender a demanda é urgente. Esta é uma pauta histórica do Sinpro: que para 300 estudantes tenhamos um orientador educacional, além de espaços adequados para um melhor desenvolvimento das suas atribuições diante das condições de trabalho existentes nas escolas públicas do DF”, alerta o diretor do Sinpro Luciano Matos.
A defasagem salarial agrava o quadro. Em 2015, o vencimento básico dos educadores estava mais de 100% acima do Piso Nacional do Magistério. Foram oito anos de congelamento dos salários, cenário modificado após greves realizadas pela categoria e intensa luta do Sinpro pelo reajuste salarial. Enquanto isso, o governo Ibaneis/Celina aprovou reajuste de 25% para si próprio e para o alto escalão.
A luta do Sinpro
Diante desse cenário, o Sinpro tem atuado em múltiplas frentes. Além de cobrar as nomeações e concurso público para reposição do quadro, o sindicato mantém a Clínica do Trabalho, criada em 2018 com o objetivo de oferecer atendimento psicológico individual e promoção de palestras nas escolas.
Luciane Kozicz comenta que a realidade da sala de aula no Distrito Federal tem se transformado em um campo minado para a saúde dos profissionais da educação. “Entre a violência crescente, a sobrecarga e a pressão por resultados, a categoria enfrenta uma epidemia silenciosa de adoecimento mental. Nesse cenário, a Clínica do Trabalho se consolida como um espaço essencial de acolhimento e reflexão.”
Desde que o protocolo contra a violência foi criado em 2024, o Sinpro já atendeu 134 casos, tendo como principais motivos assédio moral no ambiente de trabalho (35,8%), ameaças e outros crimes contra a honra cometidos por pais de alunos (20,1%), agressões de alunos TEA contra professores ante a ausência de monitores escolares (19,4%), agressões físicas ou ameaças de alunos contra os professores (12,7%), discriminação racial (6%) e outros tipos de acolhimento (6%).
Robertta Hutchison, advogada do Sinpro e responsável pela parte jurídica do Protocolo “Sinpro com você contra a violência”, explica que dentre estes atendimentos, em vários processos o sindicato conseguiu que o DF fosse obrigado a pagar indenizações aos professores agredidos por alunos, medidas protetivas para os docentes e até reconhecimento de acidente de trabalho. “Os números ajudam a evidenciar que o adoecimento relacionado ao trabalho não está restrito às condições físicas da atividade profissional. Conflitos, ameaças, violência, acusações de assédio, preconceito e outras situações de tensão no ambiente de trabalho também podem constituir fatores de sofrimento e adoecimento, demandando acompanhamento e, em determinados casos, medidas administrativas ou judiciais.”
Os dados nacionais são alarmantes e ajudam a dimensionar o problema. Pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 2024, revelou que o Brasil lidera o ranking de violência contra professores, com 47% dos docentes relatando intimidação ou abuso verbal como fonte intensa de estresse, um índice quase três vezes maior que a média global. No Distrito Federal, a situação se reflete nas queixas que chegam ao Sinpro.
É nesse contexto que a Clínica do Trabalho do Sinpro atua como um dispositivo fundamental de cuidado e escuta. Completando 17 anos em 2026, a clínica oferece um espaço de psicologia coletiva nas escolas, promovendo a ‘hora da palavra’ e o exercício da interrogação sobre o cotidiano laboral. Dados recentes do sindicato indicam que, anualmente, cerca de 1.400 servidores participam desse momento de reflexão, e a iniciativa já esteve presente em 252 escolas.
“A Clínica do Trabalho representa a possibilidade do educador narrar a própria dor, um espaço silenciado que se torna visível por meio das CIDs (Classificação Internacional de Doenças). Muitos participam desse momento e se inscrevem para terapia. Esse espaço narrativo é uma proteção, prevenção para uma força curativa”, analisa Luciane.
Além do atendimento coletivo, o Sinpro oferece 10 sessões de terapia individual para sindicalizados, atendendo aproximadamente 70 servidores por ano. Os problemas recorrentes revelam a complexidade do adoecimento: inclusão escolar idealizada, falta de recursos didáticos e físicos.
“Prevenir o adoecimento do trabalhador por meio da melhoria do ambiente laboral, do combate ao assédio moral e da gestão de outros riscos psicossociais é significativamente mais eficaz e humano do que recorrer à Justiça após o esgotamento da saúde do educador”, afirma a coordenadora da Secretaria de Saúde do Sinpro, Elbia Pires.
A sindicalista ressalta que a campanha Setembro Amarelo é uma oportunidade para ampliar o debate: “O Sinpro tem entre suas bandeiras de luta a reivindicação por melhores condições de trabalho, que trará mais saúde para quem está diariamente no chão da escola”.
Política neoliberal e conservadora
Especialistas vinculam o colapso da educação pública à adoção de políticas neoliberais que priorizam o ajuste fiscal em detrimento do investimento social. Esse cenário não é acidental: em 2019, a Convenção 190 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) foi implementada justamente em resposta ao acirramento das relações neoliberais no mundo do trabalho, impulsionado por reformas como a Reforma Trabalhista brasileira de 2016. A própria OIT chegou a declarar o Brasil em uma lista de preocupações devido aos impactos dessa reforma, que não afetou apenas a iniciativa privada.
Segundo Mônica Caldeira, diretora do Sinpro, no serviço público foi mais duro e perverso. “As leis 8.112 e a 840, que os trabalhadores tinham para recorrer, para ter dignidade, não foram atualizadas depois das novas formas de trabalho no serviço público. Foi a reforma trabalhista do Temer que autorizou o Ibaneis a fazer o tipo de contratação que ele sempre fez, que é a de contrato temporário”.
A terceirização, a precarização do trabalho e a ausência de concursos públicos são marcas de uma gestão que trata a educação como despesa, não como investimento. O resultado é uma bomba-relógio: educadores adoecidos, salas superlotadas, violência escolar crescente e alunos que carregam o peso de uma aprendizagem comprometida. Enquanto o DF comemora ter alfabetizado 65% das crianças ao final do 2º ano do Ensino Fundamental, os números gerais do Ideb mostram que o preço do descaso é alto demais e quem paga são os profissionais da educação e os 458 mil estudantes da rede pública.
A pergunta que fica é: até quando a capital do país vai tratar seus educadores como peças descartáveis de um sistema que insiste em falhar?
