O dia que Henrique ganhou um tablet para estudar

Henrique, 9 anos, aluno do 3º “C” da Escola Classe 66, no Sol Nascente

 

Henrique estava ansioso na porta da Escola Classe 66, no Sol Nascente, nessa quinta-feira (19/11). Os braços para baixo, em frente às pernas, com as mãos entrecruzadas faziam um “S”, e os pezinhos, calçados com um chinelo de dedo largo demais para seu corpo magricela, chacoalhavam sem parar. A máscara de tecido com o símbolo do Clube de Regatas do Flamengo que o menino usava mostrava a todo momento a ponta do nariz, e em todas as vezes que ela caía, ele a puxava para cima, recolocando-a no lugar. Era assim que o aluno do 3º ano “C” tentava acalmar sua inquietação pelo dia atípico: em poucos minutos ele receberia um tablet novinho para poder estudar remotamente, e ele jamais tinha tido acesso a um dispositivo desse tipo. A oportunidade é fruto de uma parceria do Sinpro-DF com o Ministério Público do Trabalho, que disponibilizou a entrega de 81 tablets à EC 66.

Henrique foi à escola acompanhado da mãe, dona Noêmia Gomes de Oliveira Guimarães, que tem outros seis filhos, todos em idade escolar. Ela e o esposo estão desempregados, e a família sobrevive com a renda gerada por pequenos “bicos” realizados pelo pai de Henrique. Numa espécie de desabafo, Noêmia disse que “está complicado demais”, e que colocar sete crianças para estudar com apenas dois aparelhos de celular antigos e uma internet a rádio é uma “tarefa quase impossível”. “A internet é lenta; vira e mexe dá umas quedas, e os dois celulares estão ruins demais”, conta ela.

Para ajudar no aprendizado, Henrique estuda também com o material impresso entregue pela escola, e sempre que tem dúvidas liga para a professora Sandra para pedir ajuda, principalmente quando a tarefa traz lições de multiplicação, ou como Henrique prefere dizer, “continhas de vezes”. “Professora, tem como você me ajudar nesse dever?”, diz ele com uma voz meiga, exemplificando como pede socorro nos momentos de dúvida.

Henrique entre a professora Sandra (à esquerda) e a mãe, dona Noêmia

 

Sandra Regina Santos é professora da Secretaria de Educação do DF há 11 anos, o mesmo tempo que leciona na Escola Classe 66. Ela tem a profissão como missão de vida e o espaço da escola como extensão da própria casa. Sandra conta que a turma de Henrique, assim como todas as outras da EC 66, é composta por estudantes que não têm condições de acessar a internet com qualidade. “Poucos alunos acessam a plataforma (utilizada para dar aulas), por falta de condições. Às vezes os pais trabalham o dia todo e chegam em casa só a noite; há um celular só em casa, uma série de outras questões.” Para garantir que os alunos tenham acesso ao conhecimento ainda que de uma forma básica, Sandra conta que propõe alternativas, como ligar, encaminhar áudio, fazer chamada de vídeo; tudo para poder explicar melhor o conteúdo, com um atendimento mais direcionado. E isso gera uma carga enorme para a professora.

“A gente tem trabalhado muito mais do que antes. Eu não me nego a atender meus alunos fora do meu horário. Então, atendo alunos das oito até dez da noite; fim de semana também. E sabendo da importância, a gente faz esse sacrifício de atender e estender a nossa jornada”, conta a professora.

A vice-diretora da EC 66, no Sol Nascente, Daniela Machado Melo, reconta a história dita por Sandra. Afinal, é desafiador ensinar diante da ausência de política pública que garanta a professores e estudantes acesso à internet banda larga, computadores e formação para uso das novas tecnologias.

Foto da esquerda: Vitor, um dos alunos que recebeu tablet para estudar, posa para foto com a vice-diretora da EC 66, Daniela Machado Melo (ao centro), a avó (à direita) e a professora Neide. | Foto da direita: As alunas Marina e Sara mostram o tablet que ganharam para estudar, junto com o diretor do Sinpro-DF Luciano Matos, a vice-diretora da EC 66, Daniela Melo (esquerda), a Supervisora Pedagógica, Tânia Maria (de casaco xadrez), e as mães.

 

Daniela diz que, a cada 15 dias, é entregue o material impresso aos alunos que não têm condições de acessar a internet. 

A vice-diretora estava empolgada com a chegada dos tablets viabilizados pela parceria do Sinpro-DF com o Ministério Público do Trabalho. Entretanto, conta que foi difícil selecionar 81 alunos no conjunto de 1.235 matriculados na Escola Classe 66. “A gente (ela e o conjunto de professores) optou por indicar um aluno de cada turma, totalizando 48 estudantes. O restante será doado para alunos especiais”, conta.

Mesmo que o número de tablets seja bem inferior à quantidade de alunos, a professora Aurineide Holanda Alves Dantas, conhecida como professora Neide, diz que os ganhos terão amplitude. Moradora do Sol Nascente, a delegada sindical lembra que a maioria das famílias da comunidade é numerosa, e que todos acabarão sendo beneficiados com o tablet doado. “A média de filhos é de cinco a sete, e esse tablet vai acabar sendo utilizado por todos eles. E quando a gente ajuda uma pessoa sequer, já estamos fazendo algo significativo”, diz.

Foto da esquerda: Gustavo, aluno do 5º ano, com a professora Neide e o diretor do Sinpro-DF Luciano Matos | Foto da direita: O diretor do Sinpro-DF, Luciano Souza, esclarece a parceria do Sindicato com o MPT para o responsável por Gustavo.

 

O diretor do Sinpro-DF Luciano Matos também diz estar contente com a possibilidade de o Sindicato colaborar com a educação remota, mas reforça que o problema vai além e não será completamente solucionado a partir dessa ação. Ele, que chegou cedo à Escola Classe 66 e ajudou a descarregar os dispositivos, lembra que, segundo pesquisa do Sinpro-DF, mais de 120 mil alunos no DF não têm acesso a dispositivos necessários para participar do ensino remoto.

“Essa parceria do Sinpro-DF com o MPT vem ao encontro daquilo que sempre apontamos: a necessidade do investimento na educação pública, aflorado nesse momento de pandemia”, avalia o dirigente sindical.

Ele conta que o Sinpro-DF vem colocando locais com baixo Índice de Desenvolvimento Humano como prioridade na entrega dos dispositivos. “Aqui nessa região é onde temos o menor IDH. Então, fizemos a primeira entrega no CEF 28, na Ceilândia, e agora na Escola Classe 66. Esperamos que essa parceria continue para que outras regiões administrativas possam ser atendidas.”

O diretor do Sinpro-DF Luciano Matos põe a mão na massa e descarrega os 81 tablets doados para a EC 66, no Sol Nascente

 

Segundo Luciano, a verba para a compra dos equipamentos vem de ações do MPT contra empresas que realizaram danos ao erário público. Com o recurso em mãos, o Ministério selecionou o Sinpro-DF para fazer a entrega dos materiais. O Sindicato fez a tomada de preço dos dispositivos e vem fazendo as entregas, com atenção para o arquivamento das notas fiscais e outros documentos que garantam uma prestação de contas transparente.

Foi dessa forma que Henrique, do 3º “C” da Escola Classe 66, no Sol Nascente, teve acesso ao seu primeiro tablet para fazer uma das coisas que mais gosta: estudar. Com a cabeça tampada pelo gorro do casaco para afastar o frio e nariz e boca escondidos pela máscara que previne contra a Covid-19, a satisfação do menino era vista claramente pelos olhos pequeninos. O que se deseja, segundo o diretor do Sinpro-DF Luciano Matos, é que todos os alunos e todas as alunas das escolas públicas do DF também possam ter a mesma oportunidade de Henrique, não dependendo de doações, mas enquanto direito. “É responsabilidade do GDF providenciar recursos tecnológicos para todos os alunos da rede pública de ensino; na verdade, sempre foi. A pandemia só deixou que isso ficasse evidente. Essa sempre foi uma necessidade da rede pública, justamente para podermos suprir a desigualdade com a rede privada, pois o que faz a diferença não são os profissionais, mas os recursos que a rede privada conta e nem sempre a rede pública tem, pois a educação não é prioridade nos investimentos.”

Entrega simbólica de 81 tablets para a Escola Classe 66, no Sol Nascente. Os dispositivos foram viabilizados a partir de parceria entre o Sinpro-DF e o MPT
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