O Brasil que não queremos

Em 2018, a Rede Globo fez um programa intitulado “O BRASIL QUE EU QUERO”, de maneira a identificar anseios das pessoas em diversos Estados, municípios e no Distrito Federal. Foram várias expectativas, entre as quais “de um Brasil sem violência, sem corrupção, com respeito à diversidade, sem preconceito, com saneamento básico, emprego para todos, educação e saúde como prioridades no âmbito governamental e desenvolvimento sustentável”, ainda que pensados e divulgados de maneira espetacular e não assumidos concretamente pelos donos da Rede Globo.
Importante também dizer o Brasil que não queremos com mais de 89 milhões de pessoas, incluindo os mais de 47 milhões que votaram em Fernando Haddad/Manuela e os mais de 42 milhões nulos, brancos e abstenções. E o que não queremos prioritariamente é um Presidente da República sem condições humana, política e técnica com seu pacote de maldades anunciado para início do mandato em relação à reforma da Previdência, escola pública, trabalhadores/as da educação pública, relações internacionais, etc. As eleições de 2018, primeiro e segundo turno demarcam um perfil de candidato e de sociedade: novo presidente que se sente “incapaz” e parte da sociedade mais fechada.
O ano de 2018 teve no Brasil seu momento decisivo e que decidiu o futuro do Brasil em dois dias importantíssimos do ponto de vista do exercício da democracia, ainda que formal: 07 de outubro, primeiro turno das eleições e no dia 28 de outubro, segundo turno das eleições. Há uma perplexidade e temores ante o espectro da violência no percurso e pós-eleição no Brasil. Em que pese a esperança dos que elegeram Bolsonaro, há que considerar o conjunto maciço dos que não acreditaram nem acreditam no perfil político desse presidenciável, agora Presidente da República. A oração pública pós-vitória, de perspectiva religiosa única, veiculada nacionalmente fere o estado laico e a esquerda que não é nem coaduna com o ultraconservadorismo.
A atitude religiosa que fere o Estado laico e forças políticas divergentes
O primeiro discurso de Bolsonaro teve seu repertório frágil de conteúdo e sem produzir esperança em um povo já sofrido no desgoverno Temer, seguido de uma oração pública conduzida por Magno Malta, senador derrotado na reeleição. De mãos dadas com Bolsonaro e correligionários, Malta chama para um agradecimento pós-eleição e, de maneira direta ataca a esquerda: “Os tentáculos da esquerda jamais seriam arrancados sem as mãos de Deus”. Quem não se lembra da oração de um líder político, no Distrito Federal, agradecendo a Deus por malas de dinheiro ilícito, no contexto da operação “Caixa de pandora”?
A oração não é nem pode ser um ato moralizante. A oração pós-vitória, televisionada em rede nacional foi um atentado ao estado laico e uma agressão ao Deus de Jesus Cristo que assumiu uma sociedade orientada pela fraternidade, sociedade economicamente redistributiva, preferência pelos oprimidos/as, amor, justiça e solidariedade como pressupostos da vida digna para todas as pessoas. Agrediu-se também a esquerda brasileira com toda a sua trajetória de luta contra a opressão multifacetada.
Celebrar a vitória em eleição, seja na igreja, no bar, na rua e outro espaço não fere a dignidade de ninguém, desde que se articule com seriedade e intensidade o fato valorizado, a expressão significativa e a comunhão intersolidária, reconhecendo o diferente como pessoa que deve ser respeitada. Entretanto, ao fazer uma oração pública, circulando em rede nacional por várias empresas televisivas, e, grotescamente, atacar pessoas que possuem outra concepção de mundo e de religiosidades fere a dignidade de quem tem o direito de ser, pensar, sentir, agir e celebrar diferentes.
A fé é um ato/sentimento pessoal vivenciado em comunidade de fé-vida, espaço privado de cada pessoa, templo, mesquita, terreiro, igreja, etc. Usar Deus como expressão de uma vitória truculenta e autoritária na expressão “arrancar os tentáculos da esquerda com as mãos de Deus” em meio à precariedade das relações humanas, no contexto das eleições, é uma afronta às demais expressões e representações de fé, religiosidades, de Deus e às pessoas que possuem vivências e concepções distintas das adotadas por Bolsonaro e seus seguidores. Não queremos um presidente que desrespeita o Estado laico e a diversidade de expressões políticas e culturais. No cenário político-social brasileiro, atual, formação técnico-política e humana são indispensáveis ao exercício de qualquer função.
Exigências formativas e humanas ao exercício da função presidencial
Em culto na Assembleia de Deus, do pastor Silas Malafaia, no Rio de Janeiro, 30 de outubro de 2018, Bolsonaro disse: “Eu não sou o mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos”. A expressão deixa o entendimento de um neófito assustado com a complexidade da função que o aguarda. Pode revelar também reconhecimento de que Fernando Haddad ou outro concorrente seria ou é o mais capacitado para enfrentar o debate e as condições e desafios socioeconômicos, políticos e culturais de nosso tempo.
Os diversos problemas no Brasil, com a extensão territorial não deixam dúvida de que sentir-se “incapaz” tem a ver com a extensão dos problemas no Brasil que exige, na esteira de Paulo Freire, rigorosidade metódica, política e técnica. Deus ajuda, mas não isenta do compromisso com os estudos e com ação humanitária. Não queremos um presidente com ausência de compromisso técnico-política, metódica e humanística. A campanha de Bolsonaro foi baseada em slogans, o que se pode avaliar alguns.
A sonoridade, vazio e eloquência dos slogans
O repertório de Bolsonaro sempre foi marcado pelo pressuposto: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. A máxima, como já de conhecimento de todos/as, lembra o nazismo. A Alemanha nazista tinha como slogan “A Alemanha acima de tudo”. É preciso nos perguntar: há mera coincidência no uso e sentido do slogan de Bolsonaro? Mais uma vez a expressão religiosa aparece no discurso de Bolsonaro, esvaziando e escondendo a dimensão política de um projeto de Nação que ele não tem. No percurso da campanha foram enaltecidos os slogans em detrimento de um discurso e projeto de Brasil consistentes.  Não queremos a volta do nazismo com sua expressão nos Skinheads, Ku Klux Klan, White Power, etc.
Imagem e expressão em camiseta teve também seu direcionamento ideológico: “Minha cor é o Brasil”. Não há inocência ao tratar a cor de maneira genérica em um país racista. Da mesma forma, não é inocente colocar um negro ao lado, tirar foto com camiseta “minha cor é o Brasil” e até dizer “não sou racista, tenho amigos e amigas negros e negras”. Essa prática esconde algo de grande interesse público: o fato de que o Brasil foi o último a abolir a escravidão e que em pleno século XXI convive-se com a brutal agressão ao povo negro que foi livre oficialmente sem as condições reais de acesso aos bens materiais e imateriais da existência. Esconde a riqueza da diversidade brasileira desrespeitada por políticas públicas sexistas, racistas e desenvolvimento social desigual e insustentável. Dissimula o fato de a cor preta ser demarcadora do acesso ou não a espaços públicos e privados, às benesses socialmente produzidas, ao poder em sentido mais amplo.
Fatos demonstram que “minha cor é o Brasil” não tem sentido para populações negras discriminadas e assassinadas no Brasil e no mundo. A onda de violência contra negros/as, LGBTTIQ e comunistas/socialistas traduz a falsificação do slogan em questão. O Estudante Pedro Bellintani Baleotii, do último ano de direito, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, exemplifica esse entendimento no que disse em vídeo com arma empunhada: “estou indo votar ao som de Zezé de Camargo e Luciano, armado com faca, pistola, o diabo, louco para ver um vadio, vagabundo com camiseta vermelha e já matar logo”.  E Acrescenta: “tá vendo essa negraiada? Vai morrer! É capitão, caralho”. Quem é o capitão que o estudante faz referência e reverência?
A postura do estudante de Direito revela um desejo não só dele, mas de muitas pessoas que defendem e praticam o ideário racista-sexista-homofóbico. O curioso é que Baleotii, ao fazer o vídeo com a perversidade do discurso estava com a cabeça raspada. Há mera coincidência entre sua cabeça raspada, armado e desejando eliminar negros com os Skinheads – movimento neonazista? Há mera coincidência entre o estudante em questão e os “carecas do ABC?” Em que medida o ataque violento às populações negras, LGBTTIQ, nordestinos, comunistas/socialistas, nações indígenas, empobrecidos/as, mulheres e outros segmentos sociais e culturais tem a ver com o processo eleitoral brasileiro, mais especificamente com a vitória de Bolsonaro? Deparamos com iminente atuação mais explícita dos grupos neonazistas que têm como pressuposto a supremacia branca, nacionalismo estremado e heterossexualidade como norma absoluta?
O assassinato do mestre de capoeira (negro) Romualdo Rosário da Costa – mestre Moa do Katendê, ocorrido após discussão política sobre os presidenciáveis Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL), em Salvador no dia 07 de outubro de 2018, primeiro turno das eleições demonstra a intolerância seguida de crueldade perpetrada por eleitor de Bolsonaro. Todas as práticas racistas (violência simbólica e física) coloca em evidência como se tem tratado e trata o racismo na escola e na sociedade: apenas maquiagem no dia 20 de novembro ou o enfrentamento com educação libertadora e políticas públicas emancipatórias? Não queremos governos que incitem e sejam coniventes com o racismo, o sexismo, o patriarcado, o antissemitismo, o genocídio, o feminicídio, o extermínio de comunistas/socialistas, a ditadura militar e a LGBTTIQ-Fobia.
A expressão “Meu partido é o Brasil” não reflete nem representa a pluralidade de partidos e a riqueza do Brasil para além do PSL. Há uma farsa na equiparação entre o Partido político e o Brasil, vez que tal partido não defendeu um projeto de Brasil plural, sustentável, democrático, de equidade social e respeito à diversidade. Não queremos engodo e falsificação no trato do Brasil com sua perplexidade e complexidade. Donald Trump como referência é um atraso político-social.
Estados Unidos e Donald Trump como referências
O novo Presidente da República deixa claro seu atrelamento aos Estados Unidos “de Donald Trump”: o capital financeiro nacional e internacional acima da vida e a perda de soberania brasileira. Ao reverenciar a bandeira dos Estados Unidos, Bolsonaro rasga a brasileira e desmente o que disse: “Meu partido é o Brasil”. É mais coerente dizer na perspectiva de Bolsonaro: Minha bandeira é estadunidense, o capital/mercado nacional e internacional. Não queremos um presidente subserviente aos ditames dos Estados Unidos, nem do ponto de vista financeiro, nem do ponto de vista militar/cultural. A hera do Brasil subjugado pela falso consenso de Washington sob a subserviência de FHC e empresariado nacional é pesadelo que não pode voltar. Chega de imperialismo!
O contexto social, político, ideológico, econômico, religioso e educacional brasileiro atual coloca em evidência desafios ao campo da educação pública. Educar/ensinar não tem a função de transformar pessoas em rebanho com obediência servil, mas em libertar/emancipar de todas as formas de violência, entre as quais a escravidão, colonização, imperialismo, patriarcado, ditadura, sexismo, racismo, LGBTTIQ-fobia, etc. A escola pública, assim como os/as professores/as têm uma função político-social e pedagógica, o que cabe lançar desafios ao contexto dessa reflexividade:
Desafios ao “professor opressor”
Enfim, na condição de negro e professor da rede pública, proponho alguns desafios ao professor de matemática do CED 4 do Guará-DF autodenominado “professor opressor” que fez festa em sala de aula com estudantes para comemorar a vitória de Bolsonaro e a quem mais interessar pelo debate:

  • Faça autocrítica da postura na condição de professor público desacreditado por Bolsonaro e seus aliados, que sinaliza levar a cabo o “Programa Escola Sem Partido” que amordaça professor/a.
  • Identificar e analisar com estudantes quantos professores/as, estudantes, pais, mães e/ou responsáveis, orientadores/as educacionais e demais segmentos internos e externos da comunidade escolar do DF são calculados (em sua disciplinar – matemática) por estarem envergonhados/as com um vídeo que apoia um candidato com o perfil de Bolsonaro. Ao mudar de ideia em relação ao mandato de Bolsonaro, o “professor opressor” será bem visto e aceito ao fazer críticas de Bolsonaro em sala de aula?
  • Fazer a discussão com a comunidade escolar ou pelo menos com estudantes sobre o sentido político-social e pedagógico de sua autodenominação “professor opressor a partir de contribuições de Paulo Freire, Michel Foucault e Antônio Gramsci.
  • Fazer com estudantes um mapeamento e discussão estatística, analítica e propositiva sobre as razões sociais, políticas e econômicas dos votos nulos, brancos e abstenções (42 milhões) e de Fernando Haddad (mais de 47 milhões) em um contexto eleitoral brasileiro orientado por Fakes News e sociedade inserida em profunda crise social e das instituições democráticas – O que indica política e socialmente mais de 89 milhões de brasileiros/as que não acreditam ser Bolsonaro o presidente desejável?
  • Identificar e analisar com estudantes todas as afirmações de Bolsonaro em relação aos negros/as, nações indígenas, trabalhadores/as, nordestinos, quilombolas, LGBTTIQ, comunistas, esquerda, mulheres, escolas públicas, professores/as, ditadura, PT – quais impactos dessas afirmações em sociedade brasileira com escalada da violência que vem crescendo, particularmente pós-eleições.

*Cristino C. Rocha possui formação filosófico-teológica; Pós-graduação em: Administração da Educação – UnB; Educação na Diversidade e Cidadania com Ênfase na Educação de Jovens e Adultos – UnB; Culturas Negras no Atlântico: História da África e Afro-Brasileiros – UnB e Educação, Democracia e Gestão Escolar – UNITINS/SINPRO-DF. É Mestre em Educação pela UnB e professor da rede pública do Distrito Federal.

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