Novo ministro traz guerra cultural olavista, fim dos investimentos financeiros na educação e instala o caos do MEC

    A Educação brasileira está cada vez mais ameaçada pelo governo Bolsonaro e assediada pelo sistema financeiro. O presidente da República, Jair Bolsonaro, anunciou em uma rede social, na segunda-feira (8), a demissão do Ricardo Vélez Rodríguez do cargo de ministro da Educação e informou que entrará no lugar dele o Abraham Weintraub, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e ex-economista-chefe e ex-diretor e ex-sócio na Quest Investimentos, uma empresa do Banco Votorantim.
    Com Weintraub, a “educação bancária”, inimiga da educação libertadora de Paulo Freire, vai prevalecer mais profundamente. Parafraseando Milton Nascimento/Fernando Brant, na música Promessas do Sol: “que tragédia é essa que cai sobre a educação brasileira?”. “No currículo de Weintraub, além de professor, ele é economista, atuante do setor privado, com carreira em bancos. O que sabe sobre Educação? O que ele pode acrescentar de fato? Qual sua experiência? Quais suas contribuições para a área da pasta que assumiu? Desafiamos qualquer pessoa encontrar um só simpósio sobre Educação que ele tenha participado, algum congresso que tenha apresentado ideias ou textos produzidos na área de educação”, indaga a diretoria colegiada do Sinpro-DF
    Daniel Trojeira Cara, coordenador-geral da Rede da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, cientista político e membro do Conselho Universitário da Universidade Federal de São Paulo e membro do PSOL, fez uma análise da troca de ministro e afirma que nada vem bem na Educação e, na avaliação, Cara resume o que o país terá de enfrentar no campo da educação pública a partir da posse do novo ministro. A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) também divulgou matéria sobre o perfil do novo ministro.
    Cara também foi laureado com o Prêmio Darcy Ribeiro, em 2015, entregue pela Câmara dos Deputados e tem um blog no UOL. Na análise dele, a troca de Ricardo Vélez Rodríguez por Abraham Weintraub não significa trocar seis por meia dúzia. São pessoas e projetos completamente diferentes na agenda do Ministério da Educação. Rodríguez foi indicado pelo “guru” Olavo de Carvalho e tinha o apoio dos militares até porque ele é professor emérito da Escola de Comando do Estado Maior do Exército. Weintraub, por sua vez, também foi indicado por Olavo de Carvalho, mas foi apoiado pelo grupo ultraliberal do ministro da Economia, Paulo Guedes.
    Na opinião de Daniel Cara, esse apoio demonstra uma grande e fundamental diferença entre o nome que sai do Ministério da Educação (MEC) e o outro nome que entra. Ele diz que, enquanto Vélez Rodríguez defendia como prioridade a militarização das escolas públicas, Weintraub vai defender como prioridade a guerra cultural olavista.
    “É nisso que ele acredita e é isso que ele irá se fiar. Essa é a grande proposta dele. O MEC, com Abraham Weintraub ficará submetido ao programa econômico de Paulo Guedes, até porque o novo ministro chancela essa política do ministro da Economia, apoia a reforma da Previdência e é especialista em previdência privada e não entende nada de educação”, afirma Cara.
    O coordenador da Rede diz que, assim como Vélez Rodríguez, a tendência de Weintraub e maior ainda de submeter a essa ideia absurda de Paulo Guedes de que não é preciso mais ter as vinculações constitucionais, as despesas obrigatórias em Educação, Saúde, Previdência e demais áreas sociais. Essa posição começa com a Emenda Constitucional nº 96/2016 (EC95/16) – a emenda do teto dos gastos públicos –, que, na época que tramitava, ficou conhecida como PEC da Morte, PEC das Desigualdades, e foi a grande reforma econômica do governo ilegítimo de Michel Temer.
    “Agora, com o governo Bolsonaro, o ministro da Economia quer algo pior do que a EC 95/16. Ele prega [e tem elaborada proposta de emenda à Constituição sobre isso] o fim total das vinculações constitucionais, como o fim total dos investimentos financeiros obrigatórios para a educação, o que significa o fim do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), o fim do Plano Nacional de Educação (PNE), que já está muito comprometido. Vai sobrar o quê? A guerra cultural de Olavo de Carvalho, tão defendida pelo Bolsonaro, que se baseia no combate a um suposto ‘marxismo cultural’, que só existe na cabeça de quem acredita que a Terra é plana”, denuncia Cara.
    O fato é que isso irá determina as políticas do Ministério da Educação porque será o possível a ser feito num ministério que será totalmente esvaziado em termos de políticas educacionais. “A tendência é gravíssima e até pior do que a do Ricardo Vélez Rodríguez porque o combate à militarização das escolas poderia ser feito de diversas maneiras”, diz o cientista político.
    Na opinião de Cara, “é gravíssima a ideia de militarização das escolas, mas o combate à guerra nacional bolsonarista vai ser muito mais tensa e difícil de ser enfrentada até porque irá mobilizar toda a militância dele. O problema disso tudo é que no governo Bolsonaro não haverá políticas educacionais, não vai ter avanços no direito à educação, o que vai ter é a mediocrização da pauta da educação”.
    Abraham Weintraub tende a seguir a linha ultraliberal. Cara diz que a entrada dele no MEC prenuncia uma disputa pelos empresários da educação de tentar ocupar a agenda do ministro. “Já se sabe que ele tem vínculos como o apresentador da Rede Globo Luciano Huck, com movimentos ultraliberais, o que poderá gerar uma possibilidade de articulação, uma vez que o poder econômico sempre se faz valer. A certeza é que a guerra cultural olavista e bolsonarista será a linha predominante no MEC. Isso indica que os dias serão muito duros e a gente vai ter de continuar a batalhar”, alerta.
    Na avaliação do coordenador-geral da Rede, “essa nomeação também significa o primeiro revés dos militares no governo Bolsonaro, até porque Weintraub tem se comprometido a retirar ou diminuir o poder dos militares que ocupam o MEC. Assim, o governo que já está em quase colapso dá um passo além nesse sentido de desorganização geral da educação brasileira. É importante lembrar que os municípios estão em situação anômica”.
    “Fui para o agreste nordestino nos últimos dias e é terrível observar a falta de recursos financeiros neles, a educação está numa situação calamitosa e ela deve entrar numa situação caótica com esta nova gestão do MEC. É preciso a gente ter muito cuidado nas análises e observar o que está acontecendo e ter a certeza e a clareza de que nesse mar de lama em que o Brasil se encontra a gente vai precisar ter a fortaleza de lutar pelo direito à educação pública, laica, gratuita e de qualidade como reza, determina e defende a Constituição da República Federativa do Brasil”.
    Confira aqui o áudio com a análise na íntegra.