Exposição fotográfica no CED 02, do Cruzeiro, lança novo olhar sobre a escola


“A câmera é um instrumento que ensina a gente a ver sem câmera”. Essa frase está entre o legado de Dorothea Lange – uma influente fotógrafa documental e fotojornalista norte-americana conhecida por seus retratos da Grande Depressão Mundial de 1929, cuja obra ajudou a humanizar as consequências dessa crise econômica e influenciaram o desenvolvimento da fotografia documental. Revela também a essência do ofício de quem escolhe a fotografia como profissão, estilo de vida, visão de mundo, produção artística ou como atividade pedagógica numa escola da rede pública de ensino.
A frase de Lange se encaixa bem na proposta da professora de artes Érica Guedes e da recente experiência do Centro de Ensino nº 02 (CED 02), do Cruzeiro Novo, que, pela primeira vez, realizou uma exposição de fotografia com vernissage e tudo o mais que uma grande apresentação artística merece. Érica queria justamente isso: mostrar aos quase 200 estudantes do 2º ano do Ensino Médio que é possível ver o mundo com um olhar diverso daquele que se tem das coisas do dia a dia e que, através de uma lente, de um novo ângulo e sob uma perspectiva de luz diferente, esses(as) jovens podem recriar imagens cotidianas do espaço físico da escola com uma visão de mundo inédita.
Feito isso e selecionadas as fotos, a professora montou a exposição e levou para o público as leituras extraídas de cada um desses quase 200 olhares que participaram do projeto fotográfico e pedagógico e que resultou na exposição de fotografia intitulada “A percepção do espaço escolar”, inaugurada no dia 28 de setembro, no turno noturno.
A exposição mostrou, a todos e todas, uma visão inédita e uma nova leitura do espaço físico da escola. Érica buscou ensinar a seus(as) pupilos/as que fotografar não é só apertar um dispositivo, ouvir o clique e pronto. Não. Fotografar é pensar. E, além de incitar o raciocínio, trouxe uma provocação insólita sobre a leitura do mundo.
E foi aí que Érica uniu o útil ao agradável: elaborou um trabalho escolar que contemplou a proposta curricular da escola; as necessidades pedagógicas dos(as) estudantes – que precisam treinar a leitura de imagens para prestar vestibular ou disputar uma vaga na universidade por meio do PAS e do Enem –;  e a pesquisa de mestrado dela que visa, por meio da fotografia, despertar em cada estudante o sujeito artístico. “Trata-se de um projeto de leitura de imagem que os estudantes utilizam nas provas do PAS, do Enem e do vestibular e podem usar no dia a dia deles também”, explica a professora.
A ARTE DE PENSAR
No decorrer do trabalho, os(as) estudantes foram levados a perceber que fotografar é ler o mundo através de uma lente grande angular, 18-105, 70-300, 80, 16, 24-70 ou 50 milímetros ou de um aplicativo de fotografia de um celular, ou seja, a leitura vai depender da realidade e do aporte de conhecimento de cada um. A professora os(as) levou a pensar em tudo, desde sobre o próprio fazer fotográfico até a respeito das influências internas e externas dessa prática no objeto ou no indivíduo. Como Lange propôs em sua obra revolucionária no século XX, fotografar é pensar nas condições e até mesmo na conjuntura política e econômica que envolve a realidade fotografada.
A exposição reúne toda essa reflexão e muito mais desenvolvida pelas seis turmas de 2º ano do Ensino Médio e irá permanecer na escola por mais dois meses. Após esse período será levada para outros locais. “Ela ficará dois meses na escola e, depois, irá para a Regional do Plano Piloto/Cruzeiro. Temos projetos para inscrever essas fotos em algum projeto ou concurso de fotografia em que os(as) estudantes possam participar e que o conteúdo das fotos se encaixem”, informa a professora.
Teylor Moraes, estudante e participante da exposição, foi orador do vernissage e disse que o trabalho envolveu a todos e todas de forma especial. No discurso proferido durante o vernissage, ele disse que a proposta de Érica o remeteu a outro momento da vida escolar que ele viveu na 7ª Série. “Na 7ª Série fiz um trabalho sobre o budismo, que tinha uma proposta interessante, segundo a qual, a gente devia fazer todas as coisas que faz no dia a dia e refazer todos os caminhos que a gente faz todos os dias com olhar diferente. O problema é que a gente fica ligado na tecnologia, no celular e na internet e não vê as coisas”, diz o estudante.
No período que a Érica passou o trabalho, ele ficou sem celular. E, graças a isso, ele pôde reviver e aplicar, na prática, o que ele aprendeu na 7ª Série. “Na primeira semana que fiquei sem meu celular, fiquei nervoso. Na segunda, aceitação. Na terceira, relaxei. E, como estava sem o celular, fiz as coisas diferentes. Inspirado na experiência da 7ª Série, dediquei-me mais à proposta da professora Érica. Lembrei-me de que, na época do budismo, descobri uma árvore bonita no caminho que perfazia para a escola. Era enorme. Mas eu nunca a havia notado. A lembrança disso me ajudou a ver e a fotografar objetos da escola com outro olhar”, conta.
A LEITURA DA IMAGEM
A diretoria colegiada do Sinpro-DF participou do vernissage representada por Regina Célia Pinheiro, diretora da Secretaria de Política Educacional. “Penso que a professora alcançou o objetivo, que era o de estimular a criatividade para que o(a) estudante pudesse observar o espaço escolar por outro ângulo, por uma nova lente, de uma outra maneira. Isso está diretamente relacionado ao currículo escolar porque ele orienta sobre o que é arte. E arte também é isso: é dar um novo tom ao mesmo, à disciplina, é lançar um olhar poético de maneira que estimula no(a) estudante uma sensibilidade que desperta o sentimento do pertencimento ao espaço físico escolar, bem como a construções pedagógicas, didáticas e humanitárias”, diz Regina Célia.
Ela enfatiza que esse tipo de trabalho fortalece o sentido e a importância da existência de disciplinas que têm sido ameaçadas por ideias retrógradas, como o Programa Escola sem Partido, e pela Reforma do Ensino Médio. Para Regina Célia, trabalhos como o da professora Érica Guedes “fortalecem as artes não só por ser um projeto de criação artística, mas por ser uma criação da figura do professor, do estudante, da comunidade escolar com liberdade de cátedra de poder propor esse tipo de questionamento visual ao estudante, que o leva a pensar com criticidade a respeito de várias questões”, diz.
Érica, por sua vez, conta que os(as) estudantes transformaram cada objeto através do olhar artístico. “Em termos pedagógicos, esse trabalho colabora com a formação dos(as) estudantes porque estimula neles(as) o exercício da leitura de imagem, da leitura de mundo. Com objetos do cotidiano, eles(as) têm uma nova visão, uma nova observação, uma nova percepção desses objetos. É a leitura de imagens que é cobrada no nosso dia a dia, como a leitura de uma placa de trânsito, uma embalagem de um produto, sem ter a escrita, apenas com as imagens. É olhar para um desenho e tentar decifrar, tentar entender aquele desenho, aquela imagem, aquela logomarca sem ter nenhuma escrita. Isso é leitura de imagem. Quando ele chega num museu e entende uma obra de arte que não precisa de escrita. A escrita já é a própria imagem. E sobre a própria imagem eles já fazem toda a interpretação do que a ela quer passar para ele”, explica a professora.
ESTUDANTE: SUJEITO DE TRANSFORMAÇÃO
Ela diz ainda que, ao despertar nos(as) estudantes esse novo olhar, observou que a primeira coisa que modificou foi a percepção deles(as) dos objetos que compõem o cotidiano da escola. “A partir do momento em que direcionam uma câmera ou uma lente, eles(as) transformam o objeto e, ao transformá-lo, tornam-se, eles mesmos, em um artista por fotografar objetos do cotidiano de uma outra forma. Queria que eles(as) se tornassem os próprios artistas”, afirma. Ela conta que é a primeira vez que conseguiu realizar uma exposição no CED 02, mas não é a primeira vez que faz esse tipo de trabalho.
“Esse projeto integra a minha pós-graduação, cuja base é transformar estudantes em artistas por meio da fotografia porque sou fotógrafa. Em todas as fotos eles e elas foram orientados(as) a buscar outra luz, um ângulo novo e outras orientações. As fotos expostas não foram as primeiras que eles tiraram. Teve estudante que tirou 15, 20 fotos para chegar naquele resultado que está exposto”, diz. A pesquisa de pós-graduação de Érica aborda a leitura de imagem e a busca da transformação dos(as) estudantes e do ambiente escolar num campo em que ele (o estudante) possa retirar a própria imagem e transformá-la em objeto artístico. É transformar o ambiente escolar através do(a) estudante.
A exposição foi elaborada durante um mês. A mentora de tudo foi a mãe de Érica que, ao ver as fotografias, sugeriu a realização de um vernissage e uma exposição em turno diferente do turno em que os(as) estudantes estão na escola. Daí o vernissage ter ocorrido no noturno. Servidora pública da Secretaria de Estado da Educação (SEEDF) aposentada, a mãe de Érica trabalhou para a escola realizar a exposição, mas não teve o prazer de apreciar o trabalho. Ela faleceu poucos dias antes. E Érica deu continuidade ao trabalho para homenagear também a própria mãe.
“Outro motivo pelo qual mantive a data e realizei a exposição à noite é porque queria que os(as) estudantes tivessem um momento com abertura de exposição porque muitos(as) deles(as) nunca participaram desse tipo de momento e como toda exposição tem uma abertura, um vernissage, então, quis fazer isso no turno da noite, num turno contrário ao que eles(as) estudam, e a direção da escola superapoiou,”, finaliza.
Confira algumas imagens:
Crédito das imagens: Arquivo do Sinpro-DF/Deva Garcia

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