Entre medos e conquistas: a vivência de professoras lésbicas no ensino público

Ser uma professora ou orientadora educacional lésbica no ambiente escolar pode ser desafiador e gerar incertezas sobre as relações com colegas de trabalho, estudantes e suas famílias. Ao mesmo tempo, se apresentar de forma inteira é uma oportunidade de ressignificação, que abre caminhos para transformar as escolas em espaços seguros de acolhimento, identificação e pertencimento para toda a comunidade.

As professoras da rede pública de ensino do Distrito Federal Fainy Mendes e Grazielle Reis vivem a sexualidade de forma plena. Elas estão juntas há nove anos, casadas há cinco, e se conheceram na Secretaria de Educação do DF. A partir de experiências e vivências, elas falam sobre a importância do Dia da Visibilidade Lésbica — celebrado em 29 de agosto — e sobre a urgência de romper preconceitos para tratar a diversidade nas escolas.

 

Fainy Mendes e Grazielle Reis falam sobre importância da visibilidade lésbica nas escolas

 

Embora atualmente se sinta livre, Fainy lembra que quando entrou na SEEDF, há 15 anos, sentiu medo de se colocar como uma mulher lésbica. Isso porque muitas unidades escolares apresentavam — e ainda apresentam — resistência para tratar a diversidade conforme a orientação do Currículo em Movimento. Foram necessários anos de coragem e persistência para que, de fato, pudesse se colocar sem amarras.

“Hoje consigo habitar todos os espaços dentro da SEEDF, tomando posse do que é meu, conseguindo ser eu de forma inteira e leve. Consigo me posicionar, falar, debater, conversar com as crianças, as famílias e me colocar de forma cuidadosa, respeitosa e legítima”, disse a professora, que leciona na Escola Classe 24 de Ceilândia.

O mesmo receio foi sentido pela professora Grazielle, que atua na Escola Classe 25 de Ceilândia. Para ela, além da insegurança de se abrir aos colegas, o maior desafio foi a curiosidade dos estudantes sobre sua vida pessoal e configuração familiar.

“Esse foi um processo de aprendizagem, porque precisei encontrar formas de responder de maneira tranquila e respeitosa, mostrando que existem diferentes formas de família. Com o tempo, aprendi a enxergar essas perguntas como oportunidades de educação, e não como algo que deveria me constranger”, disse.

 

Para a professora Grazielle Reis, é urgente romper preconceitos para tratar a diversidade nas escolas

 

Preconceito como barreira

Se para as professoras Fainy e Grazielle o processo trouxe amadurecimento e autoconfiança, a realidade de muitas pessoas LGBTQIAPN+ na escola ainda é marcada por barreiras. Mesmo com os avanços nas políticas educacionais e na legislação sobre a LGBTQIAPN+fobia, professores(as) e orientadores educacionais(as), estudantes e demais integrantes da comunidade escolar seguem enfrentando preconceitos e silenciamentos.

As professoras Fainy e Grazielle não sofreram nenhum tipo de preconceito explícito nas escolas por serem mulheres lésbicas. Entretanto, elas reconhecem que o privilégio não reflete a realidade de outros colegas e da população LGBTQIAPN+ no Brasil. Segundo o Atlas da Violência, as agressões contra o segmento no país cresceram mais de 1.000% na última década.

Uma pesquisa da Associação Nova Escola, em parceria com a ONG Todxs, trouxe um panorama desse tipo de violência nas escolas. O levantamento de 2023 entrevistou 4.035 educadores(as) em todo o Brasil e apontou que metade dos profissionais que se declaram LGBTQIAPN+ relataram já ter presenciado episódios de LGBTfobia no ambiente escolar.

 

Hoje, após 15 anos na SEEDF, a professora Fainy Mendes consegue viver de forma inteira e leve

 

“Têm colegas que sofrem preconceitos, que não são respeitados na sua totalidade. É importante a gente reconhecer que esse preconceito existe e aparece em muitos locais de forma muito aberta e violenta e de várias formas”, disse a professora Fainy.

Já Grazielle destaca que, no seu caso, o apoio da gestão escolar foi decisivo para que pudesse viver sua identidade de forma tranquila. “A postura da diretora Adriana Miranda, de sempre me incluir e normalizar minha presença com minha esposa nos momentos coletivos foi um sinal claro para toda a comunidade de que o respeito deveria prevalecer. Talvez, justamente por esse apoio institucional, eu tenha conseguido viver minha identidade com mais tranquilidade, sem me tornar alvo de situações de discriminação direta”, disse a educadora.

Bem-estar e leveza

Esse respaldo não apenas protege, mas também fortalece. Segundo a psicóloga e professora Rosana Quintanilha, ambientes escolares hostis ou silenciosos sobre a diversidade sexual impactam não apenas os(as) profissionais, mas também estudantes LGBTQIAPN+.

“Para meninas lésbicas, esse espaço pode ser tanto de acolhimento quanto de sofrimento. Se o ambiente escolar for aberto e inclusivo, prezar pelo respeito à diversidade sexual e atuar com projetos pedagógicos que contemplem a pluralidade e relações saudáveis, a estudante pode desenvolver maior autoestima, segurança e liberdade para reconhecer e expressar sua identidade”, explicou.

A liberdade de expressar a própria identidade no trabalho também promoveu bem-estar e resultados positivos para as professoras Fainy e Grazielle — tanto na vida profissional quanto pessoal.

“Estar em todos os locais e se sentir inteira, podendo ser você na sua totalidade, traz o fôlego da vida. Na vida pessoal, foi libertador eu poder compartilhar a minha vida, essa liberdade fortaleceu os laços que permeiam a minha vida pessoal e profissional”, disse Fainy.

Para além disso, a vivência em plenitude teve reflexos práticos na sala de aula. “Percebo que me tornei uma professora mais acolhedora, porque entendi, na prática, a importância de respeitar as diferentes formas de ser e de viver. Isso me ajuda a valorizar ainda mais a diversidade entre as crianças, criando um ambiente em que elas também se sentem livres para serem quem são”, disse Grazielle.

O respeito às diversas formas de existir também gera benefícios aos estudantes. Segundo a psicóloga Rosana Quintanilha, a presença de professoras lésbicas em sala de aula consolida-se como “um espelho positivo e um ato de resistência simbólica”.

Ela explica que, a partir desse cenário de diversidade, estudantes passam a ter a percepção de que mulheres lésbicas podem ocupar posições de respeito e autoridade, o que ajuda a legitimar a própria identidade. Mais que isso, a experiência gera identificação e fortalecimento emocional, favorecendo a construção de resiliência e o enfrentamento a estigmas sociais.

“A escola é o lugar ideal — ou pelo menos deveria ser — para que se possa desenvolver não apenas competências acadêmicas, mas também aspectos fundamentais da identidade. Para meninas lésbicas, em especial, o ambiente escolar tem um peso significativo, pois é nele que as primeiras experiências de socialização, reconhecimento e pertencimento se intensificam. Quando a instituição se mostra aberta a discutir questões sobre diversidade sexual, possibilita que essas estudantes construam uma relação mais saudável consigo mesmas”, disse Rosana.

Caminhos para avançar

Na avaliação da professora Fainy, para se alcançar escolas que sejam de fato inclusivas, é necessário que a diversidade seja tratada como parte essencial da educação e não mais como um tema rodeado de tabus.
“Precisamos tornar a escola um espaço para que todos se sintam seguros e acolhidos. A gente precisa incluir a diversidade de forma prática e verdadeira nas nossas ações, nas formações de professores e trazendo discussões. Quando a gente valida a diversidade, a gente trata melhor nossos alunos”, disse.

Já Grazielle acredita que também é preciso avançar na desconstrução de estereótipos. “Falar de diversidade não é influenciar, mas sim educar para a convivência democrática. Quanto mais cedo as crianças aprenderem que existem diferentes formas de família, de amar e de viver, mais natural será para elas lidarem com isso ao longo da vida”, afirmou.

 

Fainy e Grazielle estão juntas há nove anos e casadas há cinco

 

Sinpro na luta

Pensando em tornar o ambiente escolar mais seguro e acolhedor para estudantes e professores(as) LGBTQIAPN+, o Sinpro — por meio da Secretaria de Raça e Sexualidade — tem realizado diversas ações voltadas à defesa e ao apoio de professores(as) e orientadores(as) educacionais LGBTQIAPN+ em todas as escolas do públicas do DF.

Como resultado desse trabalho, foi criado o Coletivo LGBTQIAPN+, um espaço de encontros, escutas, trocas e proposições. A Secretaria também realiza formações nos locais de trabalho, com cursos e debates que contribuem para o enfrentamento a todas as formas de opressão e discriminação.

“A LGBTQIAPN+fobia pode ser entendida como fator de precarização da vida e do trabalho. Por isso, toda luta que queira enfrentar de maneira concreta as dificuldades, as discriminações e a mobilização efetiva por direitos sociais deve, necessariamente, se interseccionalizar. Nesse sentido, o Sinpro seguirá em luta por uma educação emancipadora e livre de preconceitos, pois entendemos que somente em uma sociedade que respeite a diversidade será possível garantir dignidade, igualdade e justiça para todas as pessoas”, disse o diretor do Sinpro João Macedo.

Edição Vanessa Galassi