CUT 42 anos | “Ensinar sobre lutas sindicais é subversivo”
Nesta quinta-feira (28/8), a classe trabalhadora brasileira comemora os 42 anos da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Fundada em 1983, durante o 1º Congresso Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), em São Bernardo (SP), a CUT surgiu como resposta à ditadura militar – período marcado pela ausência de democracia, supressão dos direitos constitucionais, perseguição política, repressão, censura e tortura.
Como força mobilizadora, a Central reorganizou o movimento sindical brasileiro e se consolidou como a maior central sindical da América Latina e a quinta maior do mundo, tornando-se símbolo de resistência e luta pelos direitos da classe trabalhadora brasileira e pela justiça social. Atualmente, são quase 8 milhões de trabalhadores e trabalhadoras associados(as), segundo dados da própria CUT.

A importância histórica da Central Única dos Trabalhadores é inquestionável, tanto para conhecer (e reconhecer) o passado como para projetar o futuro. Entretanto, o debate sobre a trajetória e a importância da CUT e do movimento sindical de forma geral não é comum nos currículos das escolas públicas, de onde sairão os futuros trabalhadores e trabalhadoras do Brasil.
Na rede pública de ensino do Distrito Federal, o Currículo em Movimento condensa a política pública curricular da Secretaria de Estado da Educação (SEEDF). Progressista e referência no Brasil, o documento tem base nas teorias da pedagogia histórico-crítica e psicologia histórico-cultural. E embora traga temas caros à construção de uma sociedade plural, diversa e crítica, não aponta em suas orientações a necessidade da discussão do movimento sindical em sala de aula.
“Oficialmente, o Currículo em Movimento propõe a ampliação do acesso da classe trabalhadora ao conhecimento científico, artístico, filosófico e cultural acumulado pela humanidade. Nas justificativas, há menção ao reconhecimento de que vivemos em sociedade de classes e que a escola deve atuar a partir dessa realidade social diferenciada”, afirma Leilane Costa, diretora do Sinpro e vice-presidenta da CUT-DF.
Ela destaca, entretanto, que o Currículo em Movimento da rede de ensino do DF não aborda a história e a condição dessa classe trabalhadora. Segundo Leilane Costa, um dos principais papéis da escola deve ser fazer com que “a classe trabalhadora se identifique como classe trabalhadora e entenda porque está nessa classe”.
“Os filhos e filhas da classe trabalhadora serão a própria classe trabalhadora no futuro. É urgente, portanto, que esses estudantes entendam que há uma estrutura social dominante, onde quem vende sua força de trabalho em troca de salários está subordinado quem detém os meios de produção e controla o capital; e que é essa estrutura que gera desigualdades materiais, de poder e de acesso a direitos.”
O Observatório da Educação Básica da Universidade de Brasília (ObsebfeUnb) aponta uma tensão entre o ideal emancipador da educação e as pressões por padronização e tecnicismo. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e orientações externas, como Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Banco Mundial e outras instituições multilaterais, tendem a priorizar competências utilitárias sobre uma visão crítica e contextualizada.

No artigo científico “Currículo em Movimento do Distrito Federal à luz da pedagogia histórico-crítica: análise da disciplina Ciências da Natureza do ensino fundamental”, de Lizandra Costa Pereira Brandt, em várias disciplinas, como ciências da natureza, por exemplo, resquícios do construtivismo ou pedagogia tecnicista se sobrepõem à base histórico crítica do Currículo em Movimento.
Atraso estratégico
A explicação para este cenário, segundo o presidente da CUT-DF, Rodrigo Rodrigues, perpassa o interesse de setores que se beneficiam com a manutenção das estruturas de poder e desigualdade vigentes. “A educação e o currículo escolar são instrumentos profundamente políticos que não apenas transmitem conhecimentos, mas também reproduzem e naturalizam estruturas sociais, relações de classe e hierarquias existentes”, afirma. Para o sindicalista, que é professor de história da rede pública de ensino do DF, “ensinar sobre lutas sindicais expõe conflitos de classe, exploração e resistência, o que pode questionar estruturas de poder estabelecidas”.
“Gerações crescem sem conhecer conquistas da classe trabalhadora, os direitos trabalhistas, a previdência social, o reajuste anual do salário mínimo e tantos outros avanços resultantes da luta da CUT e sindicatos de trabalhadores. A falta de consciência de classe leva à aceitação passiva da exploração e precarização”, afirma Rodrigo Rodrigues. Para ele, “ensinar sobre lutas sindicais é subversivo porque expõe as contradições do sistema e fortalece a capacidade de transformação da classe trabalhadora”. “A educação que omite isso serve ao projeto das elites”, diz.
Para a professora Edileuza Fernandes Silva, levar o movimento sindical e a história da classe trabalhadora às escolas passa também pela formação dos(as) professores. “O Currículo em Movimento tem potencial para tornar visíveis a história dos trabalhadores e das trabalhadoras, bem como o pensamento crítico sobre trabalho e sindicalismo. Contudo, isso depende da formação do professor e das professoras, da autonomia pedagógica e da resistência coletiva à padronização e à mercantilização da educação”, afirma no artigo “Defender o Currículo em Movimento – Resistir à BNCC”.

Educação para preparar a classe trabalhadora
Embora os números referentes ao mundo do trabalho tenham inclinado para saldos positivos nos últimos três anos, a terceirização, a desconfiguração dos direitos trabalhistas, a informalidade e o desemprego elevado são realidade no Brasil.
De acordo com a professora Ana Cristina, secretária de Combate ao Racismo da CUT-DF, “esses fenômenos ampliam o afastamento dos estudantes e da juventude de uma compreensão de sua condição enquanto classe e do papel transformador da organização coletiva”. Para ela, “a escola é um dos principais espaços onde pode-se contrapor a este cenário”. “É preciso adotar ferramentas estratégicas para fortalecer a educação emancipadora e localizar a juventude no contexto do sindicalismo. Para isso, é preciso assegurar a visibilidade histórica do papel da CUT, integrando a trajetória de lutas e conquistas nos conteúdos de história, sociologia, educação para a cidadania e projeto de vida”, avalia.
Em seus 42 anos, a CUT representa mais do que uma central sindical: é parte da história e da luta por democracia, justiça social e direitos. A educação pública do DF – e do Brasil – tem uma janela de oportunidades para tornar essa história presente na formação dos estudantes. Isso exige escolha ativa: de currículo, de política educacional, de formação docente.
É sobretudo por essa via que será possível formar trabalhadores e trabalhadoras conscientes, preparados para compreender sua condição, defensores de seus direitos e reconhecedores do valor da organização coletiva e sindical.
Edição: Vanessa Galassi