Coronavírus – Reabertura de escolas após pandemia terá obstáculos como salas lotadas, falta de água e professores sobrecarregados

A suspensão de aulas presenciais, por causa da pandemia do novo Coronavírus (Sars-CoV-2), traz consequências mais graves para os alunos pobres: segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), ficar longe da escola os expõe a riscos maiores de violência física e psicológica, exploração sexual e abandono dos estudos.

No entanto, o estágio em que o Brasil está, com curva ascendente no número de casos de Covid-19, impossibilita a volta às aulas em um curto prazo. E, mesmo quando os colégios puderem reabrir, surgirá outro problema: as recomendações sanitárias para que o processo ocorra de forma segura são incompatíveis com a realidade de parte das escolas públicas.

Em países nos quais o número de casos da doença já retrocedeu, a retomada das atividades escolares ocorre gradualmente, seguindo protocolos rígidos de higiene.

Mas, no Brasil, diante de salas de aula lotadas, como manter uma distância segura entre os alunos? Sem água ou esgoto encanado, como reforçar a lavagem de mãos? Com professores dando aula em mais de um colégio, para complementar a renda, como instituir reforços escolares no contraturno?

Neste texto é possível ver as medidas necessárias para que a reabertura das escolas ocorra e a dificuldade em implementá-las no Brasil. A defasagem de conteúdos é extensa, os danos emocionais deixados pela pandemia são significativos e a infraestrutura precária dificulta os cuidados de prevenção.

 

COMO DEVE SER A RETOMADA?

O número de casos de coronavírus no Brasil ainda está aumentando – o país já ultrapassou a Alemanha e a França no total de infectados. Mesmo ainda distante de um quadro de melhora, é preciso planejar como será a retomada das aulas presenciais.

Segundo relatório da ONG Todos Pela Educação, os órgãos públicos e os colégios já devem mapear quais serão as possibilidades de reposição de conteúdo, levando em conta a carga horária de trabalho dos professores, o espaço físico disponível e o acesso ao saneamento básico.

 

Cuidados necessários para a reabertura das escolas, segundo especialistas:

 

1- Reforço na higiene

O Unicef afirma que devemos “aumentar a proporção de escolas com água potável”, além de implementar estações de lavagem de mãos, de ampliar o número de banheiros e de disponibilizar materiais de limpeza, como álcool gel. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a higienização das mãos é uma das principais formas de se prevenir da Covid-19.

 

No entanto, dados do Censo Escolar 2018, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostram que 20% das escolas de ensino fundamental da rede pública não contam com banheiro dentro do prédio e 40% não têm acesso à rede pública de abastecimento de água (usam poços ou cisternas; em 5%, não há água).

Dos colégios de educação infantil, cerca de 70% não têm ligação com o sistema público de esgoto.

 

2- Espaçamento de carteiras e aulas ao ar livre

Para manter a segurança das crianças e dos adolescentes, o ideal seria estabelecer um distanciamento maior entre as carteiras. Para isso, pode ser necessário diminuir o número de alunos por sala. Segundo o Censo Escolar 2018, há, em média, 30 estudantes por turma no ensino médio, nas escolas públicas e privadas.

Seria uma alternativa para solucionar a falta de espaço para abrigar mais turmas. Outra ideia, mencionada por Franzim, é aproveitar as áreas ao ar livre, como quadras e parques. “As crianças podem se beneficiar dos espaços abertos, já em situações normais. Agora, como vivemos uma emergência sanitária, eles adquirem um sentido educativo ainda maior”, afirma.

No entanto, nem todas as instituições de ensino conseguiriam adotar a estratégia. Os parques infantis, por exemplo, estão em boa parte das escolas federais (91,3%) e privadas (81,5%). Na rede municipal, por outro lado, apenas 31,6% têm parquinho e 27%, área verde.

O Unicef e o Todos Pela Educação recomendam também que sejam evitadas atividades que gerem aglomerações, como determinadas brincadeiras; e que haja um escalonamento nos horários de intervalo (como o recreio) e de entrada/saída da escola. Nos refeitórios, deve haver uma marcação onde cada criança pode se sentar, reservando um distanciamento seguro entre elas.

Não será fácil implementar tais regras para as turmas iniciais, diz Grisa.

3- Reforço aos sábados e no contraturno

Ainda não é possível saber por quantos meses as escolas ficarão fechadas. Mas já é necessário planejar programas de reforço, “com foco na alfabetização e na matemática”, segundo o Unicef.

Grisa afirma que o retrocesso na aprendizagem é inevitável. “As habilidades já adquiridas pelo contato diário com os professores e colegas vão ser perdidas em maior escala pelos que já têm dificuldades de aprendizagem”, diz. “Vamos precisar fazer um mutirão, um planejamento intensivo de reforço escolar e pedagógico.”

Segundo o professor, os alunos voltarão com níveis diferentes de conhecimento – há os que conseguirão ter acompanhado o ensino remoto e aqueles que, sem acesso à internet, não terão tido qualquer contato com as atividades escolares. “Precisamos fazer uma avaliação diagnóstica para saber em que estágios estão os alunos”, explica.

Após mapear as maiores lacunas no aprendizado, os professores precisarão fazer escolhas. Não será possível ensinar tudo o que era previsto para o ano letivo de 2020. “Um aluno de 13 anos, por exemplo, que estuda mais de dez disciplinas, pode ter defasagem em todas. Vamos ter de eleger conteúdos e habilidades prioritárias para planejar o reforço intensivo”, diz o docente do IFRS.

O calendário escolar deverá ser adaptado, também de forma a diminuir os danos causados pela suspensão das aulas.

“A partir das dificuldades detectadas, precisamos pensar o que ainda é possível fazer neste ano. Nunca o mero cumprimento de conteúdos pode estar à frente da preocupação com a aprendizagem”, complementa.

 

Uma possibilidade citada pelos especialistas é unir 2020 a 2021, e contá-los como um só ano letivo. Os alunos que estiverem no terceiro ano do fundamental I, por exemplo, não passariam para o quarto.

 

Outras opções mais concretizáveis são os reforços aos sábados e nos contraturnos escolares (quem tem aula de manhã passa a ficar também à tarde na escola). Esbarram-se, então, em mais dois obstáculos:

 

disponibilidade de espaço;

viabilidade da agenda dos professores, já que muitos trabalham em mais de uma escola e têm o dia inteiro ocupado. Segundo o Censo Escolar, 47,3% dos docentes de ensino médio já dão aula em dois turnos. Eles não conseguiriam, portanto, participar do reforço.

Gregório menciona uma alternativa: montar projetos interdisciplinares. Em uma mesma atividade, seriam trabalhados conceitos de matemática, de português e de história, por exemplo.

“O que for possível de ser recuperado em atividades coletivas, com mais de uma matéria, deve ser feito. É uma proposta que não exige a presença dos professores de cada disciplina”, diz o especialista.

 

4- Acolhimento emocional

“Não é uma volta das férias”, afirma Franzim. A frase da especialista não se refere somente à defasagem de conteúdos, mas também ao estado emocional de professores e alunos.

“Temos dois tipos de diagnóstico a fazer: além do pedagógico, o psicológico, para saber como está a vida de cada aluno, quais foram as sequelas do período de afastamento”, diz. “As escolas vão precisar ritualizar as perdas e os lutos. Não é só no primeiro dia – precisa ser por mais de um mês. Todos devem falar sobre o que viveram no período.”

Segundo o Todos Pela Educação, os impactos estão associados “à longa duração do isolamento, ao medo da infecção pelo coronavírus, às incertezas quanto aos recursos financeiros (…) e ao convívio prolongado em um ambiente tóxico, de violência e abuso”.

O Unicef recomenda que as escolas fiquem atentas:

 

– ao impacto da falta de interação entre as crianças, durante o período de isolamento;

às consequências da falta de acesso ao ensino remoto;

– às crianças mais expostas a riscos de violência e de assédio;

– aos pontos de transição: início do ensino fundamental I, transição para o fundamental II e para o médio, fim do ensino médio/preparo para o vestibular;

– ao impacto na alimentação e nos serviços psicológicos eventualmente prestados pela escola, que foram interrompidos durante a quarentena.

 

Por todos os motivos listados acima, é importante que haja um espaço de acolhimento e de escuta. Os professores também precisam ser atendidos – podem montar grupos e trocar experiências e relatos pessoais. Além disso, devem receber apoio psicológico e formação adequada para lidar com as mudanças nas atividades pedagógicas. Eles não podem ficar ainda mais sobrecarregados no retorno.

E um adendo: aqueles que pertencerem aos grupos de risco devem ser alvo de maior preocupação. Segundo o Inep, mais de 80 mil docentes têm mais de 60 anos e quase 500 mil, mais de 50 anos.

 

5- Combate à evasão escolar

Outro ponto importante a ser pensado na retomada é o risco de evasão escolar. Franzim explica que, em famílias vulneráveis, o desemprego pode fazer com que o aluno passe a trabalhar para ajudar os pais e abandone os estudos.

Além disso, segundo o Unicef, após desastres naturais, como ciclones e terremotos, há redução de até 20% nas taxas de matrícula. Em situações de isolamento social, aumentam também as incidências de gravidez na adolescência e de violência doméstica, associadas à evasão escolar.

Diante do risco, há três principais formas de evitar que os jovens abandonem a escola, segundo os especialistas:

 

– a busca ativa pelos alunos que não voltaram às aulas,

– o contato frequente com as famílias

– e a articulação de diferentes órgãos públicos (de assistência social, saúde, educação).

 

Pode não ser uma reabertura definitiva

As escolas e o governo precisam continuar investindo em formas de ensino remoto – seja pelo uso de tecnologia ou pela distribuição de materiais impressos – e na formação de professores. É possível que, após a reabertura das escolas, o número de casos de Covid-19 volte a subir e seja necessário fechá-las novamente. “Os índices de contaminação precisam continuar sendo monitorados”, afirma o Unicef.

 

O que diz o MEC

O G1 entrou em contato com o Ministério da Educação (MEC) e o questionou sobre as dificuldades a serem enfrentadas na volta às aulas.

A pasta afirma que “cada estado está fazendo seus planos de retomada de forma independente e de acordo com as diretrizes do Ministério da Saúde”. Também diz que, em parceria com o Conselho Nacional de Educação (CNE), está orientando o modo como o ensino remoto deve ocorrer.

Até a última atualização desta reportagem, o MEC não se pronunciou sobre os problemas de infraestrutura das escolas e não mencionou quais estratégias estão sendo analisadas para a retomada de atividades.

Para o Sinpro, uma das maiores dificuldades que a educação pública irá enfrentar na reabertura das escolas, quando for possível isto acontecer, será o histórico de baixos recursos, salas de aulas superlotadas, sobrecarga para os(as) professores(as), dentre outros motivos. Isto vai impactar com que medidas adequadas sejam de fato tomadas.

Com informações do G1

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