Céu do faminto é cozinha do Palácio da Alvorada

    Em levantamento divulgado no ano passado, a FAO, órgão das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, contabilizou 5,2 milhões de brasileiros em estado de subalimentação. Em português claro: passam fome. O IBGE também mapeou a fome. Mas Jair Bolsonaro não parece incomodado com os patrícios que carregam um espaço baldio entre o esôfago e o duodeno.” Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”, declarou o presidente nesta sexta-feira, dirigindo-se a jornalistas estrangeiros.

    Bolsonaro discorreu a respeito da inexistência da fome debruçado sobre uma mesa de café da manhã. Anfitrião e convidados serviam-se de café com leite. De prontidão, os garçons da Presidência cuidavam da reposição de pães, bolos e sucos. “Passa-se mal, não come bem, aí eu concordo. Agora, passar fome, não”, insistiu o capitão, em resposta a uma jornalista que mencionara a preocupação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, com o aumento da miséria no Brasil.

    Horas depois, em conversa com jornalistas brasileiros, Bolsonaro tentou se reposicionar em cena: “Olha, o brasileiro come mal. Alguns passam fome. Agora, é inaceitável um país tão rico como o nosso, com terras agricultáveis, água em abundância, até o semi-árido nordestino tem uma precipitação pluviométrica maior do que Israel.”

    Um repórter quis saber se o presidente estava reconsiderando a declaração que fizera mais cedo. Bolsonaro subiu nas tamancas: “Ah, pelo amor de Deus, se for pra entrar em detalhe, em filigrana, eu vou embora. Eu não tô vendo nenhum magro aqui, tá certo? Temos problemas alimentares no Brasil? Temos, não é culpa minha, vem de trás, estamos tentando resolver.”

    À sua maneira, o presidente como que endossou a tese de Rodrigo Maia segundo a qual o governo não dispõe de uma agenda para os brasileiros que não têm um salário para encher a geladeira. Se pudessem se expressar, os estômagos baldios talvez redigissem uma carta aberta ao presidente. Algo na seguinte linha:

    “Sei que o senhor não me conhece, presidente. Pois permita que me apresente. Moro onde olho nenhum me alcança, no ermo das entranhas. Sou ferida exposta que não se vê. Trago das origens uma certa vocação para a tragédia. Não deve ser por outra razão que venho do grego: ‘stómachos’. Se pudesse dar entrevista aos correspondentes estrangeiros, resumiria assim o oco de minha existência: ‘É dura a vida de víscera.’ Às vezes, presidente, invejo o coração que, quando sofre, é de amor. Eu jamais tive tempo para sentimentos abstratos. Perdoe-me o pragmatismo estomacal. Mas só tenho apreço pelo concreto: o feijão, o arroz, a carne… Meu projeto de vida sempre foi arranjar comida. Meu mundo no intervalo entre uma refeição e outra. Meu relógio, caprichoso, só tem tempo para certas horas: a hora do café, a hora do almoço, a hora do jantar… Sem comida, senhor presidente, meu relógio ficou louco. Passou a anunciar a chegada de cada novo segundo aos gritos. Ardem-me as paredes, bombardeadas por jatos de suco gástrico. Mas já não sofro, presidente. Entrego-me aos delírios. Neles, troco frequentemente o inferno pelo paraíso. Temente a Deus, rogo para que Ele coloque no meu céu uma cozinha como a do Alvorada, tão farta que me propicie uma fome de presidente, dessas que a gente resolve simplesmente abrindo uma geladeira abastecida com todas as guloseimas que o déficit público pode pagar. Dispenso o garçom. Recomende-me à dona Michelle. Cordialmente, Vísceras.”

    Com informações do Blog do Josias