Centenário | Em evento do IEAL/CNTE, professores mostram vídeo da inauguração de escultura de Paulo Freire na Argentina

A delegação argentina apresentou, na segunda-feira (19),durante o VI Encontro Regional Movimento Pedagógico Latino-Americano, evento que fez parte da Celebração do Centenário de Paulo Freire, um vídeo com o registro da inauguração da escultura do perfil do educador Paulo Freire no Ministério da Educação do país vizinho.

O encerramento da Celebração do Centenário de Paulo Freire começou na sexta-feira (17), em Recife, Pernambuco, e termina nesta segunda-feira (20).A atividade é realizada pela Internacional da Educação para a América Latina (IEAL) e a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação do Brasil (CNTE), juntamente com a Rede Latino-Americana de Estudos sobre o Trabalho Docente (Red ESTRADO), a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e outras entidades do movimento docente.

A comemoração do centenário de Paulo Freire começou em 19 de setembro de 2021, data em que se completou 100 anos de seu nascimento. No entanto, a pandemia da covid-19 impediu sua realização presencial no ano passado.Na ocasião, as atividadesforam realizadas virtualmente e transmitidas ao vivo para todo o mundo. No ano passado, foi realizado um evento político, cultural e pedagógico, e uma Plenária Popular Mundial da Educação.

Inauguração da escultura de Paulo Freire e a unidade latino-americana

A inauguração da escultura de Paulo Freire, por sua vez, foi uma homenagem que o governo Alberto Fernándezprestou, em 2021, por ocasião da passagem do centenário de nascimento do educador, filósofo e pedagogo brasileiro. A obra de arte, elaborada pelos artistas Oscar de Bueno e Javier Vazquez, com assessoria técnica de Sebastian Terrazas, foi instalada no saguão de acesso ao Salão Branco do Palácio Sarmiento, prédio em que funciona o Ministério da Educação.

No vídeo, o ministro da Educação, Nicolás Trotta, reconheceu o pedagogo brasileiro como o “educador da América Latina”, numa alusão ao conceito de “unidade latino-americana”, defendida por Simón Bolívar, líder político, herói, visionário, revolucionário, libertador e segundo presidente da Venezuela no século XIX, que lutou, juntamente como José de San Martín, pela descolonização da América Latina.

Dentre outras mensagens, Trottadestacou que a inauguração da escultura “veste a história [do seu país] com o compromisso de Freire”. Ele chama o Brasil de “país-irmão” – mais uma vez remetendoao conceito de unidade latino-americana defendido por Bolívar, Martín, Fidel Castro, Che Guevara e Luiz Inácio Lula da Silva, dentre muitos outros líderes políticos.

O ministro da Educação argentino também menciona, no vídeo, as dificuldades que o Brasil tem vivido com o atual governo neoliberal, neocolonialista, autoritário e que atua, desde janeiro de 2019, para o desmonte da educação pública, gratuita, democrática, inclusiva, libertadora e socialmente referenciada. Trottaressaltou que, com a homenagem a Paulo Freire, o governo argentino coloca o Brasil no lugar que ele deve ocupar no olhar da pedagogia. Confira o vídeo.

O Ministério da Educação argentino é mais um órgão público estrangeiro que homenageia Paulo Freire. Paulo Freire é muito mais celebrado lá fora do que no próprio país de origem: ele é terceiro  autor mais citado no mundo na área de ciências humanas, superando Karl Marx e Michel Foucault.

O livro A Pedagogia do Oprimido (1968) tem 75 mil citações no Google Scholar e é a única obra brasileira que está entre as cem mais lidas nas disciplinas de países de língua inglesa. Um levantamento do jornal Brasil de Fato mostra que “na Oceania, na Europa e nas Américas, o pensador brasileiro Paulo Freire é reconhecido e estudado. Pesquisadores estrangeiros ouvidos pelo jornal reconhecem que o filósofo nascido em Recife em setembro de 1921 é autor de uma obra essencial nas ciências humanas”. 

 

Leis para frear o vandalismo contra Paulo Freire

 

Durante a apresentação do vídeo da inauguração da placa na Argentina, representantes daConfederación de Trabajadores de laEducación de la República Argentina (CTERA) informaram que, na ocasião da inauguração da escultura do perfil de Freire no Ministério da Educação, o governo argentino incluiu a escultura e a placa na Lei de Proteção ao Patrimônio Cultural do país, promulgada durante do governo Cristina Kirchner, que proíbe qualquer governo de plantão de retirar a homenagem do órgão público.

“A escultura foi instalada no Ministério da Educação da Nação com uma placa que diz ‘Aniversário do Centenário Natalício de Paulo Freire’ e são protegidas pela Lei de Patrimônio Cultural, promulgada no governo de Cristina Kirchner, que visa à proteção do patrimônio artístico e cultural. Essa lei diz que qualquer quadro, escultura ou feito cultural que esteja em um organismo público, neste caso, o Ministério da Educação, não pode ser retirado e, no caso de ser retirado, o funcionário público poderá ser sancionado”, afirma Sonia Alesso, secretária geral do CTERA e membro da executiva mundial da Internacional da Educação.

No Brasil, no ano passado, foi necessária uma intervenção judicial para proteger a imagem de Paulo Freire e seu título de Patrono da Educação Brasileira – instituído pela Lei nº 12.612, de 13 de abril de 2012 –, ambos ameaçados pelo próprio presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), e seus seguidores.A Justiça Federal do Rio proibiu o governo federal de tomar qualquer atitude que atente contra a dignidade de Paulo Freire – um dos principais educadores do mundo.

O Patrono da Educação Brasileira, morto em 1997, tem sido alvo de ataques constantes de Jair Bolsonaro e de seus seguidores. Na liminar, editada em caráter de urgência, a juíza Geraldine Vital escreveu: “Qualquer ato institucional atentatório à dignidade do professor Paulo Freire, na condição de Patrono da Educação Brasileira”, por parte do governo federal, estará descumprindo a lei. A decisão liminar atendeu ao pedido do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH).