Artigo | CEF 14 de Ceilândia Sul Ensina que Política Começa no Café da Manhã
Em artigo, a professora do CEF 14 de Ceilândia Sul, Núbia Rodrigues, mostra que falar sobre o futuro com os(as) alunos(as) pode ser um momento leve e divertido. Com o projeto Eleitor do Futuro, promovido pelo Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF), a unidade escolar ensina que cidadania começa com escuta, afeto e protagonismo, transformando o debate em uma experiência que une formação cidadã, elegância simbólica e esperança coletiva.
Confira abaixo o artigo na íntegra:
Na periferia de Brasília, onde cada gesto carrega resistência, o CEF 14 de Ceilândia Sul transforma taças de cristal em símbolos de dignidade e sonhos dos estudantes em prática política. Com o projeto Eleitor do Futuro, a escola ensina que cidadania começa com escuta, afeto e protagonismo.
Foto: William Resende, orientador do CEF 14
Encontro formativo no CEF 14: estudantes aprendem sobre postura, ideologia e representação política. Em 27/08/2025.
Em tempos de descrédito político e ataques à educação pública, uma escola da periferia de Brasília decidiu ensinar que política não é só voto — é vivência, escuta e transformação. No CEF 14 de Ceilândia Sul, a pedagogia é ferramenta de resistência, e o projeto Eleitor do Futuro, promovido pelo Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF), virou palco para uma experiência que uniu formação cidadã, elegância simbólica e esperança coletiva.
A inscrição da escola no projeto foi realizada pela professora Núbia Rodrigues, que lidera a iniciativa e coordenou todas as etapas de desenvolvimento com o apoio da equipe gestora. Participaram ativamente a diretora Klelie e o vice-diretor Thallyson; a supervisora pedagógica Judith; os coordenadores Euclides, Márcio e Júnior; a pedagoga Noélia; o orientador William Resende; além de professores, monitores, educadores e os servidores responsáveis pela conservação e limpeza da escola.
Mais do que cumprir o protocolo, a escola organizou pedagogicamente cada fase, adaptando os conteúdos à realidade dos estudantes e criando um ambiente de respeito e protagonismo.
A reunião com os candidatos, por exemplo, foi realizada com placas de identificação nas mesas, taças de cristal e um “coffee break” requintado — um gesto simbólico que dizia: “Vocês merecem estar aqui. Vocês são o futuro da política brasileira.” Em Ceilândia, onde tantas vezes falta o básico, oferecer dignidade é um ato político.
Encontro de formação política com o orientador William Resende ao centro, rodeado pelos candidatos estudantis. À esquerda, a professora Núbia Rodrigues, responsável pelo desenvolvimento do projeto Eleitor do Futuro no CEF 14.
Ceilândia: Onde a Luta por Direitos Começa na Escola.
Fundada nos anos 1970 para abrigar famílias removidas do Plano Piloto, Ceilândia cresceu com força, cultura e resistência. É a maior região administrativa do Distrito Federal, mas ainda enfrenta desafios profundos: falta de infraestrutura, escassez de equipamentos públicos e ausência de políticas efetivas para juventude. O CEF 14, localizado em Ceilândia Sul, é reflexo dessa realidade — e também da potência que emerge dela.
A escola busca apoio constante de parlamentares e instituições para garantir o básico: computadores, segurança, acesso à cultura. Mas enquanto os recursos não chegam, os professores seguem criando caminhos. E um dos mais eficazes é formar os estudantes para que eles próprios se tornem agentes políticos, capazes de transformar suas comunidades com consciência e coragem.
Educar para a Política: Uma Jornada em Dez Atos.
Antes de chegar às urnas eletrônicas e aos debates acalorados nos corredores, o projeto Eleitor do Futuro passou por uma cuidadosa construção pedagógica dentro do CEF 14 de Ceilândia Sul. A escola não apenas aderiu à proposta do TRE/DF — ela a estruturou com método, escuta e intencionalidade. Cada etapa foi pensada para que os estudantes compreendessem o funcionamento da política de forma prática e crítica, respeitando o tempo de amadurecimento de ideias e o protagonismo juvenil. A seguir, conheça as dez fases que deram corpo e alma a essa experiência democrática. Conheça as etapas que construíram a consciência.
Após a inscrição da escola no projeto Eleitor do Futuro, promovido pelo TRE/DF, e minha participação na reunião de orientação realizada por videoconferência, estruturamos o trabalho em dez fases:
Fase 01 – Apresentação aos Professores
Compartilhamos com a equipe docente os objetivos do projeto, sua metodologia e o potencial transformador da proposta.
Fase 02 – Escolha das Ideologias Partidárias e Inscrição dos Estudantes nos Partidos
A construção das bandeiras ideológicas dos cinco partidos escolares teve início com uma enquete realizada entre os professores, que contribuíram para definir os temas centrais de cada grupo. As ideologias foram escolhidas com base em questões que atravessam o cotidiano e as vivências dos estudantes, como saúde emocional, respeito às diferenças, segurança, educação e lazer.
Após a definição das bandeiras, foram abertas as inscrições para que os discentes escolhessem livremente o partido com o qual mais se identificavam, garantindo representatividade e engajamento desde o início do processo.
🟩Partido 60 – Vida e Saúde (Autocuidado e saúde emocional)
🟦Partido 61 – Liberdade, Respeito e Dignidade (Combate ao racismo e à intolerância religiosa)
🟨Partido 62 – Esporte, Lazer e Integração Escolar (Ocupação do tempo livre com projetos extracurriculares)
🟥Partido 63 – Segurança Pública e Combate à Violência (Prevenção à violência entre adolescentes e na comunidade)
🟫Partido 64 – Educação, Profissionalização e Cultura (Educação ambiental como ferramenta de transformação)
Fase 03 – Definição da Quantidade de Candidatos por Partido
Estabelecemos que cada partido teria 8 candidatos, sendo 2 estudantes de cada série (do 6º ao 9º ano), garantindo representatividade e equilíbrio.
Fase 04 – Criação de Cronograma e Materiais
Organizamos o calendário de atividades e elaboramos materiais de apoio, como folders, cartazes e orientações pedagógicas.
Fase 05 – Explicação do Projeto para os estudantes e Inscrição dos Candidatos
A inscrição foi feita de forma livre e espontânea pelos estudantes. Tivemos casos de alunos que não conseguiram participar devido ao limite de vagas, o que gerou frustrações, mas também reforçou a importância da gestão democrática e da escuta ativa.
📊 Total de estudantes inscritos como candidatos: 40
👦 Homens: 24
👧 Mulheres: 16
Fase 06 – Formação dos Candidatos
Realizamos encontros formativos abordando temas como:
- O que é política e ideologia
- Os poderes que governam o país
- Democracia e participação
- Postura corporal, oratória e conduta ética
- Tempo de fala e estratégias de debate
Fase 07 – Organização das Campanhas pelos Estudantes
Após a definição dos partidos e candidatos, os próprios estudantes assumiram a liderança das campanhas políticas. Cada partido escolheu seus líderes e organizou estratégias de mobilização, criando cartazes, jingles, músicas, apresentações e debates. A criatividade tomou conta dos corredores, e a escola se transformou em um espaço de diálogo, escuta e disputa saudável por ideias. O objetivo era claro: conquistar o voto dos colegas com propostas coerentes e respeito às diferenças.
Fase 08 – Inscrição dos estudantes para atuação como mesários.
No dia 09/09, estudantes que não são candidatos participarão de uma atividade especial junto ao Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE/DF). O TRE irá buscar a responsável pelo desenvolvimento do projeto na escola, professora Núbia Rodrigues, acompanhada de dois estudantes selecionados para o treinamento de mesário. Após a formação, esses alunos irão replicar os conhecimentos para os demais mesários da escola.
Nesta fase, também está prevista a organização das duas seções eleitorais que funcionarão na instituição, além da entrega simbólica dos títulos de eleitor fictícios aos participantes, reforçando o caráter pedagógico e cívico da iniciativa.
Fase 09 – Dia da Eleição
No dia 11 de setembro de 2025, os estudantes participarão da votação oficial, simulando o processo eleitoral com urnas eletrônicas cedidas pelo TRE/DF. A escola viverá um dia histórico, marcado pela responsabilidade, entusiasmo e consciência democrática. Cada voto será um gesto de cidadania, e cada estudante, um protagonista da política que queremos construir.
Fase 10 – Diplomação Simbólica
Encerrando o ciclo formativo, os candidatos eleitos receberão uma diplomação simbólica realizada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal. A cerimônia, prevista para meados de outubro, será solene e emocionante, reconhecendo o esforço, a ética e o compromisso dos estudantes com o projeto. O momento será solene e emocionante, reconhecendo o esforço, a ética e o compromisso dos estudantes com o projeto. Mais do que um certificado, a diplomação representará o início de uma nova consciência política — viva, crítica e transformadora.
Política com Afeto e Elegância.
A reunião com os candidatos foi um dos momentos mais marcantes de todo o projeto. Em uma sala cuidadosamente preparada, cada detalhe foi pensado para comunicar respeito, pertencimento e valorização. Os estudantes encontraram seus nomes e partidos estampados em placas sobre a mesa — um gesto simples, mas carregado de significado. As taças de cristal e o lanche elegante não eram luxo: eram reconhecimento.
Em Ceilândia, onde tantas vezes falta o básico, oferecer dignidade é um ato político. E naquele espaço, os jovens foram tratados como sujeitos históricos, capazes de pensar, propor e transformar. A estética do encontro não foi apenas simbólica — foi pedagógica. Ela ensinou que política também se faz com afeto, escuta e cuidado. Que o ambiente influencia a postura, e que o respeito começa pela forma como recebemos o outro.
Mais do que uma reunião, foi uma aula viva de cidadania, onde cada estudante pôde se ver como parte legítima do futuro político do país.
Retrato dos candidatos dos turnos matutino e vespertino: juventude em formação política no CEF 14.
Plataforma Educativa e Legado
Além da simulação eleitoral, a escola criou a série Política na Escola, com jogos e artigos sobre democracia, poderes da República e cidadania. Disponíveis online, estes materiais funcionam como uma ponte entre teoria e prática, ampliando o debate político e inspirando outras escolas e comunidades a se envolverem desde cedo.
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Educar é Fazer Política Todos os Dias
O CEF 14 de Ceilândia Sul mostra que ensinar política é, acima de tudo, ensinar a viver em sociedade. É formar cidadãos que compreendem seus direitos, respeitam as diferenças e reconhecem o valor do diálogo. A escola entende que a política não começa nas urnas, mas nas relações cotidianas — na escuta ativa, no respeito mútuo e no afeto que constrói vínculos e fortalece comunidades.
Em uma cidade que ainda espera por investimentos e reconhecimento, o CEF 14 transforma cada sala de aula em um espaço de resistência e esperança. Ali, educar é um ato político diário, que desafia desigualdades e planta sementes de transformação. Cada estudante que aprende a argumentar, a propor, a cuidar do coletivo, carrega consigo o potencial de mudar o mundo — começando pelo seu próprio bairro.
No CEF 14, cada aula é também um ato de coragem. Ensinar política é ensinar a existir com dignidade, mesmo quando o mundo insiste em negar direitos. É dizer aos estudantes que suas vozes importam, que seus sonhos são legítimos e que suas ideias podem — e devem — ocupar espaços de decisão.
A educação pública, nesse contexto, não é apenas uma política de Estado: é uma escolha ética, um compromisso com o futuro e uma declaração de que nenhum território está à margem quando há professores que acreditam, estudantes que sonham e comunidades que lutam. Quando uma escola da periferia decide ensinar política com taças de cristal e escuta ativa, ela está dizendo ao país inteiro que o futuro começa aqui — com respeito, com beleza e com esperança.
Por Núbia Rodrigues – Professora do CEF 14 de Ceilândia Sul.