Brasil mostra que é possível derrotar a extrema direita, avalia Antonio Lisboa

A vitória de Lula no Brasil e a derrota dos republicanos nos Estados Unidos impuseram reveses importantes à extrema direita e fortaleceram a resistência democrática internacional. A avaliação é do secretário de Relações Internacionais da CUT, Antonio Lisboa. Ele afirma ainda que a “experiência brasileira mostrou a força da mobilização popular para enfrentar o autoritarismo nas ruas e nas redes”.
O ‘levante’ do povo brasileiro, de acordo com Lisboa, é um “feito histórico porque uniu os movimentos populares, o movimento sindical, a juventude, os estudantes, as pessoas 70+, as mulheres, a população negra, LGBTQIA+ e todos os segmentos da sociedade, que juntos formam a maioria da população brasileira, em torno de uma só missão – a de eleger Lula e salvar a democracia brasileira”.
Ele destaca que a grande mobilização brasileira ganhou as atenções do mundo todo. “O Brasil se tornou um exemplo para o mundo”, diz, ao descrever a repercussão internacional do resultado brasileiro.
“O resultado brasileiro mostra que é possível enfrentar a extrema direita com mobilização nas ruas e nas redes. Foi uma vitória importante, que animou organizações de outros países”.
“Mas isso não significa que a extrema direita esteja definitivamente derrotada”, avalia. Na leitura do dirigente, o resultado das eleições brasileiras fortalece a capacidade de atuação internacional do Brasil e contraria o projeto de subordinar a América Latina aos interesses dos Estados Unidos.
“A vitória brasileira representa um freio à tentativa de transformar a América Latina em um quintal dos Estados Unidos. Ela fortalece movimentos de esquerda em outros países e amplia as possibilidades de atuação do Brasil nas disputas internacionais”, analisa.
Essa disputa ocorre em meio às guerras, à fragilidade das lideranças europeias, ao poder crescente das grandes empresas de tecnologia e às dificuldades das instituições internacionais para mediar conflitos. Ao tratar da competição tecnológica entre Estados Unidos e China, Lisboa observa: “A China continua avançando absurdamente”.
A análise do dirigente ocorreu durante a o segundo dia da reunião da Direção Nacional da CUT, realizada de 4 a 6 de novembro, em São Paulo.
EUA: custo de vida desgasta Trump
O presidente estadunidense sofreu uma derrota política nas eleições de meio de mandato, com a perda da maioria republicana na Câmara e no Senado para os democratas. O resultado enfraquece seu governo e amplia o poder da oposição para fiscalizar suas decisões e dificultar a aprovação de propostas.
Na avaliação de Antonio Lisboa, o custo de vida, a repressão aos migrantes e o envolvimento em guerra pesaram contra o presidente, enquanto os democratas ganharam espaço ao tratar de emprego, alimentação e renda. Dessa forma, a oposição conseguiu aproximar a disputa eleitoral dos problemas enfrentados pelas famílias, cobrando respostas sobre preços, trabalho e renda.
“A oposição conseguiu levar o debate para a vida concreta das pessoas. O custo de vida, a repressão aos migrantes e a guerra tiveram peso no desgaste de Trump. É preciso discutir emprego, comida, preço dos alimentos e condições de vida”, afirma.
Para o dirigente, a diversidade das candidaturas da oposição, com mulheres negras, indígenas, jovens e representantes de diferentes setores sociais, veio acompanhada dessa preocupação com as necessidades materiais da população.
“A representação da diversidade veio junto com o debate sobre as condições de vida. A oposição reuniu setores diferentes e conseguiu disputar o apoio da população tratando dos problemas que ela enfrenta”, avalia.
Lisboa adverte, porém, que o enfraquecimento eleitoral não retira de Trump a capacidade de agir, sobretudo na política externa. O dirigente também manifesta preocupação com a continuidade do projeto da extrema direita para além da liderança do atual presidente.
“Trump sai enfraquecido, mas continua com poder para agir, especialmente na política externa. Uma derrota eleitoral não encerra os riscos. Também precisamos olhar para as forças que podem dar continuidade a esse projeto”, alerta.
Para o Brasil, sua avaliação reforça a necessidade de manter a mobilização democrática e a defesa da soberania diante das disputas internacionais.
Israel: apoio de partidos árabes fortalece oposição a Netanyahu
Em Israel, após as eleições legislativas de 27 de outubro de 2026, que terminaram sem um vencedor com maioria clara nas urnas, o cenário político aponta para a possibilidade de um novo governo liderado pela oposição a Benjamin Netanyahu. Com o apoio dos partidos árabes Ra’am e Lista Conjunta, Gadi Eisenkot, ex-chefe das Forças Armadas de Israel e líder do partido de oposição Yashar, recebeu 67 indicações dos 120 deputados do Parlamento para tentar formar o governo, contra 46 do atual primeiro-ministro.
Netanyahu também sofreu um revés com a decisão do partido ultraortodoxo Judaísmo Unido da Torá de não indicar nenhum candidato. O presidente Isaac Herzog anunciará no domingo (8) quem receberá a missão de negociar a nova administração.
Apesar da vantagem, Eisenkot ainda precisa construir um acordo para governar. O apoio dos partidos árabes à sua indicação não garante a aprovação do governo, e os vetos entre as legendas seguem como obstáculo à formação de uma maioria
Paraguai: crise política exige acompanhamento
Lisboa também chama atenção para o agravamento da crise política no Paraguai, desencadeada pelo colapso do banco digital Ueno Bank, que culminou no anúncio de renúncia do presidente Santiago Peña e na abertura formal de seu processo de impeachment pelo Congresso.
“A situação do Paraguai precisa ser acompanhada de perto após a renúncia e a abertura do julgamento político contra o presidente Peña. Há uma crise institucional profunda que se desdobra rapidamente. Precisamos observar seus desdobramentos”, afirma.
O dirigente inclui o país entre os pontos de atenção na América do Sul, onde crises de governo e disputas políticas podem alterar as condições de atuação das forças democráticas.
Argentina: divisão do peronismo pode dar fôlego a Milei
Na Argentina, Lisboa avalia que a oposição poderia aproveitar o desgaste do governo Javier Milei se conseguisse superar suas divisões. Ao tratar da oportunidade política, afirma que “o ideal é que a eleição fosse agora”.
O principal entrave, em sua leitura, está nas disputas internas do peronismo. A falta de acordo dificulta a construção de uma alternativa e pode oferecer a Milei tempo para recuperar apoio.
“A oposição tem uma oportunidade, mas precisa se unir. As divisões do peronismo dificultam a construção de uma alternativa e podem abrir espaço para a recuperação de Milei”, avalia.
Fonte: CUT

