Ano letivo começa com 5 escolas fechadas e mais de 4 mil estudantes no prejuízo

Pelo menos quatro mil estudantes da rede pública de ensino iniciam o ano letivo de 2020 no prejuízo. O Governo do Distrito Federal (GDF) mantém fechadas cinco escolas de Educação Infantil e Ensinos Fundamental e Médio. Além dessas, mais de uma centena de escolas precisam de grandes reformas ou até mesmo de reconstrução.

“O governo tem divulgado pela grande mídia que já reformou 580 escolas. Isso não é verdade. Ele está contando troca de cano de caixa d’água, de lâmpada queimada, entre outros pequenos reparos, como reforma. Nós, diretores do Sinpro-DF, visitamos escolas todos os dias. Conhecemos a realidade e afirmamos que boa parte dos prédios das unidades escolares carece de grandes reformas e, outra, de reconstrução. Essa propaganda não condiz com a verdade”, asseguram as lideranças sindicais.

A diretoria garante que os problemas são maiores do que os números que o GDF apresenta na mídia para aparecer bem perante a opinião pública e considera um absurdo o GDF dizer que reformou 580 escolas. “Isso representa 85% das unidades do DF. Isso não é verdade. Aliás, muitos dos pequenos reparos que estão entrando nas estatísticas como reforma foram feitos com dinheiro do PDAF ou as direções usaram a criatividade, uma vez que o GDF é ausente”.

PDAF – Importante informar que o dinheiro do Programa de Descentralização Financeira e Orçamentária (PDAF) não é destinado para obras de infraestrutura. Os valores são baixos e nem sequer são suficientes para a sua finalidade. “No ano passado não foram o bastante nem para os pequenos reparos e a compra de materiais pedagógicos básicos”, denuncia.

A diretoria informa também que a poucos dias de começarem as aulas de 2020, quase 200 escolas ainda não receberam a segunda parcela do PDAF 2019 e nenhuma escola recebeu nenhum centavo do PDAF de 2020. “O problema é sério. As reformas estruturais e a reconstrução de unidades escolas precisam ser feitas pelo GDF e não é com o dinheiro do PDAF”, afirma.

CEF 1, Candangolândia
A mais nova escola esvaziada para reconstrução é o Centro de Ensino Fundamental (CEF) 01, da Candangolândia, que abriga 700 estudantes. O GDF não informa nada. Os(as) professores(as) descobriram, na passada, que o governo vai alugar o prédio da Jac Motors, na região, para abrigar os estudantes, porém, a menos de 5 dias do início das aulas começarem não há nem vestígio de reforma no prédio.

“A equipe soube, por meio de boatos e na véspera do início do ano letivo, que o prédio da Jac Motors seria adaptado e que parte da Regional também seria transferida para o mesmo local. Ainda no início das férias de janeiro, professores(as) descobriram que a escola havia sido contemplada com o integral novamente. Mas não se sabe que tipo de integral será adotado”, informa Gilza Camilo, diretora do Sinpro-DF.

CAIC Carlos Castello Branco, Gama
O Caic do Gama foi condenado em 2018 por causa do risco de desabamento, eletrocussão, vazamentos etc., mas só foi esvaziado no dia 4/7/2019 com a promessa de reconstrução em 90 dias. Já se passaram 8 meses e as obras nem sequer foram iniciadas. A comunidade escolar espera até hoje, também, a promessa do GDF de alocação de outro espaço privado e mais adequado para substituir a escola enquanto as obras acontecem.

“Antes de ser interditado e quando era integral, o CAIC chegou a atender quase mil estudantes. Hoje, o atendimento caiu para cerca de 300. E esse número reduzido de estudantes das séries iniciais do Ensino Fundamental e da Educação Infantil que ainda está matriculado na escola continua amontoado em um galpão na Escola Classe (EC) 29. A creche, que estava no Jardim de Infância 6, foi fechada em 2019, e, por causa disso, a comunidade perdeu a possibilidade de ter mais vagas na creche”, informa Letícia Montandon, diretora do Sinpro-DF.

Escola Classe (EC) 59, Ceilândia
A escola atende a estudantes da Educação Infantil e do Ensino Fundamental 1. Fechada em janeiro de 2018, com a promessa de ser reconstruída em 90 dias, inicia 2020 sem previsão de obras. Os estudantes estão há 2 anos amontoados no antigo Polo da Universidade de Brasília (UnB) da Ceilândia, na Estação de Metrô da Guariroba.

“A comunidade escolar teve de intervir para o GDF acelerar a reconstrução e devolvê-la apta para uso. Mas, mesmo a mobilização da comunidade não impediu o governo de tratar o caso com desleixo. Quase 600 estudantes estão vivendo uma situação provisória e desgastante. Muitos pais não matricularam seus filhos nesse espaço provisório. Preferiram matriculá-los em outras escolas perto de suas residências, o que superlota outras unidades da região e prejudica o aspecto pedagógico da aprendizagem”, afirma Samuel Fernandes, diretor do Sinpro-DF.

O diretor informa que estudos comprovam que o fechamento de uma única escola impacta profundamente nas outras escolas da circunvizinhança da que foi fechada e afeta negativamente a aprendizagem. “Imagine o impacto de cinco escolas fechadas e sem previsão de reabertura”, pondera.

Escola Classe (EC) 52, de Taguatinga
Fechada desde julho de 2019 para reconstrução, atende a cerca de 500 estudantes da Educação Infantil (4, 5 anos) e do Ensino Fundamental I, do 1º ao 5º Ano. Foi esvaziada com a promessa do GDF de que a reconstrução seria imediata. Inicia 2020 sem previsão de obras.

No ano passado, a escola se dividiu em dois locais porque o GDF não alocou espaço específico para acomodá-la até que o prédio original seja reconstruído. Uma parte foi para a EC 45, de Taguatinga, e, a outra, para o CED 07, também em Taguatinga.

O CED 07 é uma escola de Ensino Médio, com estudantes na faixa etária de 17, 18 anos, que, hoje, convive estudantes da EC 52, de 8, 9 anos. Isso gera um imenso problema pedagógico. A menos de uma semana das aulas de 2020 se iniciarem, o GDF informou que ela será transferida para o prédio da Faculdade Jesus Maria José (Fajesus).

“Não é um local tão longe da residência do público da escola. Mas os estudantes vão precisar de transporte escolar”, informa Samuel Fernandes, diretor do sindicato.

CEM 10, de Ceilândia
“É o exemplo de que o descuido com a educação pública deixou de ser “desleixo” para ser má-fé dos sucessivos governantes com a educação pública.  É a prova do sucateamento em regiões de população de baixa renda, que precisa do Estado para promoção da inclusão educacional e social”, analisa Júlio Barros, diretor do Sinpro-DF.

Ele conta que o CEM 10 foi uma escola referência na Ceilândia e que hoje, por causa das ações do governo, vive uma saga e agoniza. Fechado para reforma desde 2016, a escola está há 5 anos se definhando, perdendo estudantes e sem previsão de seu restabelecimento. Desde então está alocada, “provisoriamente”, no CEF 29, uma escola que nunca chegou a ser inaugurada porque passou a funcionar como prédio de “depósito” de estudantes das escolas em reforma ou em reconstrução. Abrigou o CED 07 e, agora, o CEM 10.

O CEF 29 está a 10 km do público-alvo do CEM 10. Os(as) estudantes têm de se deslocar em ônibus fornecido pela SEEDF e chegam à aula já cansados. “No CEM 10, o GDF extrapola o direito de tratar com descaso o serviço público e avança sobre as raias da perversidade. Além da falta de segurança, os(as) estudantes sofrem com sucessivos os atrasos, uma vez que os veículos trafegam justamente nas horas de pique”, avalia o diretor.

Ele diz que o CEF 29 também não oferece estrutura física e nem material didático-pedagógico para receber uma escola de Ensino Médio. Não tem laboratórios. A biblioteca é pequena: apenas uma sala para abrigar livros para empréstimos. O refeitório é improvisado e misto de pátio e espaço de convivência. Não há quadra coberta e as aulas de educação física se tornam mais exaustivas, sobretudo no tempo seco, e, nas chuvas, ocupam outro espaço improvisado. A turbulência fica por conta do barulho e da competição entre as falas dos professores em sala e dos estudantes na prática desportiva dentro da escola.

Em 2016, os estudantes sofreram com a ausência do transporte. Sem pagamento, a empresa contratada suspendeu o serviço. Os(as) estudantes ficaram 15 dias sem aula justamente na véspera do Enem. Eles(as) ocuparam a Regional de Ensino de Ceilândia e exigiram a resolução do problema. Dessa ação surgiu uma comissão para acompanhar o andamento da reforma. Em março de 2017, a equipe de engenharia do GDF mostrou à comissão o projeto principal e informou que faltavam os projetos complementares.

Em 2018, houve mais uma reunião no GDF para falar sobre os projetos complementares e, de lá para cá, a comunidade escolar do CEM 10 tem vivido de promessas não cumpridas. Até movimentos sociais comunitários já se organizam para exigir do governo a reforma e o retorno do prédio original do CEM 10. Recentemente, os(as) professores(as) escreveram uma carta aos deputados distritais relatando a saga da escola e pedindo o apoio deles.

Outras escolas com problemas
Outras escolas estão funcionando de forma precária, colocando a vida de estudantes em risco e adoecendo os trabalhadores da educação. São unidades que já deveriam ter sido reformadas ou desocupadas e reconstruídas, como é o caso das Escolas Classes 425, 303, 315 de Samambaia, que enfrentam sérios problemas estruturais, elétricos, hidráulicos e não suportam mais maquiagem nem pequenas reformas. Essas escolas precisam ser demolidas e reconstruídas.

“O GDF precisa se organizar e planejar outros espaços para abrigar centenas de estudantes que, em breve, terão de abandonar essas unidades originárias quando elas forem interditadas. Também terá de reconstruir de forma imediata escolas com sérios problemas estruturais e não deixar correr, como vem acontecendo com o CEM 10 de Ceilândia”, afirma a diretoria do Sinpro-DF.

“O CAIC Bernardo Sayão, na Ceilândia, por exemplo, (FOTOS) é o retrato da deterioração das unidades da rede pública de ensino, da política do abandono e sucateamento e da priorização dos interesses privados sobre o público em curso no Palácio do Buriti”, denuncia Samuel Fernandes. Ele afirma que essa escola está em vias de interdição.

“Tem uma estrutura antiga, improvisada e diversos problemas. “O correto seria reconstruir o prédio, mas, para iniciar 2020, pelo menos um paliativo deveria ser feito: uma pintura, retirar os vários vazamentos do telhado, consertar toda a parte hidráulica, reformar os banheiros que são uma vergonha, ao redor da escola precisa de aparar o mato e sanear a região, retirando a água parada. O ginásio de esportes precisa ser limpo, retirar entulho, materiais velhos, quebrados, que se acumularam por lá, muito lixo e, no meio disso, um relógio de energia elétrica com fiação exposta”, relata o diretor.

Confira as imagens do CAIC Bernardo Sayão, de Ceilândia

Skip to content