A alfabetização bolsonarista

O Ministério da Educação, desde a posse do atual governo, transformou-se num dos mais importantes bunkers da ala ideológica do bolsonarismo.  Atuando diretamente na contramão das lutas históricas pela democratização da educação pública, as ações do governo federal, no campo educacional, demonstram não apenas o mau-caratismo como princípio, mas também a desonestidade intelectual como visão de mundo por parte dos ministros, e das pessoas que assumiram diretorias e secretarias como visão de mundo.

Há pouco mais de um mês, o MEC, em parceria com a CAPES e universidades portuguesas, lançou o curso ABC – Alfabetização Baseada na Ciência, um nome até controverso dentro deste governo, uma vez que a própria ciência e as instituições que a produzem, fazem parte dos inimigos dos apoiadores de Bolsonaro. O curso ABC tem o objetivo de promover a formação de 140.000 professoras e professores de anos iniciais, principalmente das turmas de alfabetização, apresentando como modelo o método fônico em contraposição ao método silábico e a literacia em lugar do conceito de letramento.

É sabido que não há consenso sobre qual a melhor metodologia para ensinar as crianças a ler e a escrever e há muito essa guerra de metodologias já foi superada. Por ser um processo altamente complexo, distintas áreas da Pedagogia, da Psicologia, da Neurologia e da Linguística, com análises e focos diferentes, fazem da alfabetização um campo aberto para inúmeras especulações, experimentações e formulações teóricas e práticas. As particularidades e interações entre as diversas áreas, resultam na intensa produção acadêmica da área da alfabetização o que impacta diretamente nos programas de formação docente que constam no Programa Nacional de Alfabetização. Entretanto, a escolha por tal metodologia não foi resultado de uma escolha de caráter científico e pedagógico como o MEC faz parecer.

O Secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim, que está no MEC desde o início do governo Bolsonaro, faz parte da ala ideológica, sendo um dos discípulos de Olavo de Carvalho que assumiram praticamente todas as diretorias e secretarias no Ministério. É também defensor da escolarização domiciliar, das escolas cívico-militares e crítico feroz de Paulo Freire e Magda Soares. E como não poderia ser diferente, o Secretário de Alfabetização não tem nenhuma publicação na área, não tem produção científica e não participa de nenhum fórum de pesquisa. Sua experiência em educação decorre do fato de ter sido coordenador pedagógico de uma escola particular, fundada por sua mãe, em Londrina, onde diz ter desenvolvido um método de alfabetização baseado no método fônico.

Desde 2013, Nadalin oferece o curso online “Como educar seus filhos”, destinado às famílias e às professoras e professores de alfabetização, criticando o método silábico e o conceito de letramento, próprios do construtivismo de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, predominante nas escolas públicas brasileiras.

As diferenças entre o método fônico e o método silábico não residem apenas na maneira de se compreender o processo de aquisição da escrita e da leitura. A principal cisão entre as duas metodologias atua diretamente na forma de interpretarmos a realidade. Enquanto a corrente construtivista parte da ideia de que utilizamos as práticas de linguagem nos mais diversos contextos, aqueles que defendem o método fônico argumentam que as crianças primeiramente devem explorar os sons das vogais e das consoantes para que depois, possam dominar as relações entre fonemas e letras para aí sim, entrarem em contato com a cultura escrita. E isso faz toda a diferença.

Enquanto a noção de letramento parte da ideia de que as crianças já estão em contato com a cultura letrada desde antes da alfabetização e que elas são capazes de construir hipóteses sobre o valor simbólico das palavras, para o método fônico a criança deve aprender primeiramente a codificar e decodificar a língua. O que ocorre então é que pelo método fônico, a interpretação do que se lê acontece a posteriori enquanto no método silábico e no letramento, a interpretação do que se lê faz parte do processo.  Ou seja, parte-se da premissa que a alfabetização, por ser um direito de todas as pessoas a escola, além de ensinar os fundamentos para a aquisição da leitura e escrita, também precisa promover uma série de conhecimentos aos indivíduos e aos respectivos grupos que os possibilitem utilizar a escrita como prática social, nos mais diversos contextos. Nesse sentido, ser uma pessoa alfabetizada não é apenas entender o funcionamento do sistema alfabético, é ser também capaz de fazer uso disso no cotidiano.

 E como já é de praxe do ministério, não houve debate sobre as diretrizes do curso e muito menos sobre seus objetivos e se já não bastassem todas as fragilidades do Programa, o MEC, ao estabelecer uma parceria com instituições portuguesas, com o objetivo de formar professoras e professores do Brasil, mais uma vez desqualifica o que já vem sendo produzido no país, no campo da alfabetização, e erra também por desconhecer as substanciais e profundas diferenças entre a língua portuguesa falada em Portugal e no Brasil.  Os processos de alfabetização são diferentes também porque as línguas são diferentes. Não faz sentido algum adotar o programa português para realidade brasileira.  Além disso, Rui Castro, professor da Faculdade de Psicologia e de Ciência da Educação da Universidade do Porto, um dos responsáveis pelo curso, é um entusiasta do governo Bolsonaro, recebendo, pela “parceria”, mais de seis milhões de reais.

Em mais um retrocesso, fica evidente que teremos muitos anos para reverter as consequências nefastas do bolsonarismo na educação brasileira.  Ao privilegiar uma metodologia (o método fônico) e uma única abordagem (a neurolinguística), o MEC mais uma vez, impõe a política de pensamento único. E a história já nos mostrou o que essa opção política é capaz de fazer. Reduzir a alfabetização a uma questão metodológica é fazer uso de um viés ideológico que vai prejudicar toda uma geração.

(*) Cristiano Lucas Ferreira – Professor de Atividades na rede pública de ensino do Distrito Federal e doutorando em Educação (FE/UnB).

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