Quando ser mãe, professora e cuidadora exige que alguém escute

Por Sandra Reis

Há filmes que terminam quando a tela escurece. Outros continuam conosco porque nos obrigam a olhar para uma realidade que, muitas vezes, preferimos não enxergar. O curta-metragem “Até que Alguém Escute”, disponível no canal @arteequimica, pertence a esse segundo grupo.

Na história, Júlia é mãe de Manoel, uma criança de 11 anos com sensibilidade sensorial. Depois de meses procurando respostas, acumulando protocolos, laudos, requerimentos e reuniões, ela chega ao limite diante de uma escola que também enfrenta suas próprias dificuldades, mas que não consegue oferecer ao menino o apoio de que necessita. Em determinado momento, Júlia resume uma realidade conhecida por muitas famílias: quando a criança chora, entra em crise ou reage de maneira diferente, aquilo que deveria ser compreendido como uma necessidade passa a ser visto como um problema.

É ficção, mas a angústia representada na tela está muito próxima da vida de milhares de mulheres.

As chamadas mães atípicas conhecem profundamente o significado da palavra luta. São mulheres que, muitas vezes, precisam aprender uma nova linguagem depois da maternidade: laudo, diagnóstico, terapia, adaptação, inclusão, acessibilidade, medicação, acompanhamento, direitos, requerimentos, perícias e relatórios. Precisam compreender sistemas de saúde, educação e assistência ao mesmo tempo em que continuam cuidando da casa, da família, da vida profissional e, principalmente, de seus filhos.

Não se trata apenas de levar uma criança a uma consulta. Existe toda uma organização invisível por trás desse cuidado. Há horários de terapias, avaliações, reuniões escolares, mudanças de rotina, crises inesperadas, noites mal dormidas e decisões que não podem simplesmente ser adiadas. Há também uma batalha emocional constante contra o preconceito e contra aquela pergunta silenciosa que tantas mães sentem no olhar das pessoas: “Será que ela não está exagerando?”.

Não. Muitas vezes ela não está exagerando. Ela está cansada.

No curta, Júlia chega a dizer que pediu de todas as formas possíveis: pediu com educação, por mensagem, em reunião, com documentos e até chorando. Essa passagem toca em algo essencial: antes de uma mãe levantar a voz, normalmente existe uma longa história em que ela tentou ser ouvida falando baixo.

Essa sobrecarga ganha outra dimensão quando a mãe atípica também é professora. Durante o dia, ela entra em sala para ensinar, acolher, orientar e perceber as necessidades dos filhos de outras famílias. Participa de reuniões, prepara aulas, corrige atividades e acompanha estudantes. Ao mesmo tempo, pode estar esperando uma ligação sobre o próprio filho, tentando remarcar uma terapia ou calculando como chegar a uma consulta sem comprometer sua jornada de trabalho.

É uma situação pouco visível para quem olha de fora. A professora precisa cumprir sua responsabilidade profissional, mas continua sendo a principal referência de cuidado de uma criança que, muitas vezes, depende de acompanhamento intenso. Ela pode passar o dia defendendo a importância da inclusão dentro da escola e, ao sair dali, precisar lutar para que o próprio filho também seja incluído.

Por isso, falar das mães atípicas que trabalham na educação não é falar de privilégio. É reconhecer uma realidade que envolve direitos, condições de trabalho, saúde e acolhimento e que precisa ser considerada pelas instituições e pelas políticas públicas.

O próprio curta mostra essa questão sem transformar a escola em inimiga. Também aparecem as limitações da rede pública: falta de profissionais, estrutura insuficiente, turmas cheias e servidores sobrecarregados. A luta pela inclusão não deve colocar família e trabalhadores da educação em lados opostos. Quando o poder público não oferece as condições necessárias, todos sofrem: a criança, a família e quem trabalha na escola.

É nesse espaço que a organização sindical se torna fundamental. O SINPRO-DF acompanha a categoria em questões relacionadas à saúde, às condições de trabalho e aos direitos funcionais, oferecendo orientação e apoio quando necessário. Para as mães atípicas professoras, saber que existe um sindicato atento a essa realidade significa não precisar enfrentar sozinhas problemas que também são coletivos.

Nossa luta passa por dar visibilidade a essas histórias. A mãe que precisa acompanhar o filho, enfrentar burocracias e, ainda assim, entrar em sala de aula e exercer seu trabalho com responsabilidade precisa encontrar respaldo, informação e respeito.

No final de “Até que Alguém Escute”, Maria olha para a câmera e diz uma frase simples: “Inclusão não é favor. É direito.”

O SINPRO-DF seguirá ao lado dessas professoras, defendendo condições dignas de trabalho, acolhimento e respeito aos seus direitos. Escutar essas mães e lutar com elas também é defender a educação pública.

Assista ao curta-metragem “Até que Alguém Escute”