13º Concut: sindicalismo e educação na quarta revolução industrial

    Delegação de vários sindicatos do Distrito Federal no 13º Concut

     

    A nova organização da classe trabalhadora e de seus sindicatos foi uma das grandes discussões do 13º Congresso, que ocorre em Praia Grande, São Paulo, desde o dia 7 de outubro e vai até sexta-feira (10). O congresso pôs em discussão “o sindicalismo do futuro frente aos avanços das novas tecnologias”.

    Trata-se de uma novidade no mundo do trabalho que já está em curso, modificando as relações de trabalho e que tem mexido profundamente com a formação e a profissionalização das pessoas, com as relações trabalhistas entre patrão e empregado e com a execução do trabalho em todos os setores da sociedade e da economia.

    Análises mostram que a mão de obra se tornou commodity e, juntamente com uma mudança climática profunda, com a digitalização, os robôs, a inteligência artificial, a classe trabalhadora parece estar enfrentando o fim do trabalho: “o dia do julgamento final”.

    Há previsões negativas e indicativas de que a mão de obra, num futuro bem próximo, será substituída por computadores e isso vai se tornar a base material para a vida de todos. O fato é que a automação já é realidade e o futuro começou. Os “contratos” por meio de Aplicativos já é realidade. A uberização do trabalho é real. Como toda mudança, tudo isso gera precarização, medo e incertezas.

    Se o medo é mal conselheiro, a incerteza, ao contrário, impulsiona a fazer alguma coisa para modificar a realidade. O debate no 13º Concut aponta não só para o futuro do trabalho, mas também para o trabalho do futuro.  “A questão, no entanto, não é somente saber se a automação ensejará de fato o fim do trabalho. A questão é saber como os humanos que criam máquinas inteligentes e algoritmos irá redistribuímos o aumento da produtividade entre todos no planeta?”, indagava um representante da delegação da África do Sul.

    O fato é que a transformação digital tem impacto significativo no trabalho e nas condições de trabalho, a qual é chamada hoje de “Trabalho 4.0”. Antes, as cadeias produtivas eram lineares. Hoje, com a transformação digital, as cadeias estão se tornando linhas abertas interconectadas, com serviços personalizados, com economia de plataforma, com uma mudança na criação do valor e com a reorganização do processo do trabalho.

    Educação na indústria 4.0
    “A indústria 4.0, quarta revolução industrial, que, em outras palavras, é uma quarta etapa da revolução industrial acontecida na segunda metade do século XVIII significa um conjunto de mudanças tecnológicas que enfrentamos hoje. Ela passa pela automação das fábricas, pela química fina, ou seja, que é produzir a partir da engenharia genética, da inteligência artificial e da digitalização. Esse conjunto de automação, inteligência artificial, digitalização e ainda o uso de novos componentes químicos de produção genética é o que se chama de quarta revolução industrial”, esclarece Antônio Lisboa Amâncio Vale, secretário de Relações Internacionais da CUT Brasil, membro representante dos trabalhadores no Conselho de Administração da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e professor da Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal.

    Ele explica que esse conjunto forma o processo de mudanças profundas que ocorre hoje no modelo produtivo. “Mas não só. Talvez, o mais assustador, seja a velocidade com que as mudanças acontecem. E isso atinge a educação de diversas formas. Por exemplo, hoje se tem, pelas redes sociais, diversas formas de cursos de línguas. Existem hoje mais estudantes em curso de língua estrangeira por meio de Aplicativos do que nas escolas quer seja nas normais, de língua estrangeira, quer seja nas convencionais na educação regular”, exemplifica o sindicalista que é ex-dirigente sindical do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF).

    Outro impacto dos efeitos da indústria 4.0 na educação é verificado com muita clareza nos cursinhos para concurso. “Embora não sejam da educação pública, os cursinhos são do setor da educação, são trabalhadores da educação que estão. Existem muitos professores que montam um pequeno estúdio em casa e conseguem vender suas videoaulas”, afirma.

    Lisboa explica que “a própria velocidade da informação impacta. Há 30 anos, a informação do professor era basicamente pelo livro didático ou pela informação que o professor trazia. Hoje, o professor chega em sala de aula e, muitas vezes, o estudante tem informações que o professor ainda não tem porque ele tem em tempo real. A homeschool e os aplicativos, ou seja, a educação por plataforma já atinge diretamente o setor da educação, quer seja a privada quer seja a pública”, diz.

    Esse tipo de situação implica em fechamento de postos de trabalho. “Isso já existe hoje, especialmente na educação privada. Muitos cursos para concurso foram fechados e funcionam online. Muitas escolas de língua estrangeira estão fechando porque as pessoas acessam o curso por aplicativos. Isso vai acabar sendo feito em qualquer área do conhecimento e, além de fechar postos de trabalho, irá gerar precarização, seja por meio de cooperativização seja pela terceirização e até pela contratação de professores por aplicativo, como acontece hoje com motoristas de táxi que são contratados pelo Uber”, afirma.

    Para Rosilene Corrêa, diretora do Sinpro-DF, da CNTE e da CUT Brasil, o cenário impõe um grande desafio para a classe trabalhadora que é o de enfrentar a nova realidade, uma vez que a indústria e o emprego têm mudado drasticamente. “Temos de mudar a nossa mentalidade. Se mudarmos, seremos capazes de gerenciar essa mudança. Temos de mudar nossa maneira de pensar e nos tornamos sujeitos dessa mudança e não a vítima”, afirma.

    A diretora do Sinpro-DF diz também que “uma das maiores ameaças que a educação está sofrendo é, além de tudo isso, a mercantilização, que vê a educação a distância como alternativa. E uma educação como forma de economizar na contratação de mão de obra. A gente sabe que a educação a distância tem ser usada para facilitar o acesso e não de substituir as escolas presenciais. Mas, na lógica atual do Ministério da Educação, que usa as tecnologias para beneficiar grupos econômicos privados, ela é uma forma de economizar em mão de obra e oferecer uma educação sem qualidade”.

    Ela explica que, “atualmente já não é suficiente concluir a educação num ponto de nossa vida e será cada vez mais raro ter um único emprego durante uma carreira profissional. Para isso os trabalhadores precisam de uma estrutura correta para superar as incertezas que sempre vem quando há mudanças”, afirma.

    Para Rosilene, “esse cenário pode não ser uma ameaça se nós, a classe trabalhadora, nos anteciparmos a ele, criando estratégias e transformando-o em uma oportunidade de melhorar as condições de trabalho e avançar a indústria. Essa transformação não irá ocorrer automaticamente. É preciso a criação de um arcabouço político e de uma estratégia clara”, afirma Rosilene.

    Na Alemanha, estudos revelaram que as transformações vão levar à perda de mais de 2,5 milhões de empregos até 2030. Mas, ao mesmo tempo, 2,7 milhões de novos postos de trabalho serão criados. A automação mostra que o futuro já começou.

    Confira aqui o link para o vídeo sobre o trabalho do futuro e o futuro do trabalho do 13º Concut

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    Confira as fotos da comitiva do Distrito Federal: