Por Tomaz Campos em 14/ago/2018

Qual o papel da mediocridade no fascismo que emerge no Brasil?



Michel Temer é um medíocre irremediável. Ao mesmo tempo, sua figura medíocre reforça a mediocridade da organização criminosa que assaltou o poder em 2016. “Nada nele é especial, fascinante ou criativo”, escreve Tales Ab’Sáber, em Michel Temer e o Fascismo Comum, que está chegando às livrarias.

“Nada nele nunca surpreende, brilha ou dá esperança. Seu mundo é o dos gabinetes e dos acordos de bastidores. Não há nada a sonhar e nada a esperar a seu respeito. Seu universo de corpo e espírito, se podemos falar assim a seu respeito, é o mundo da infraestrutura da política, onde as decisões indizíveis são tomadas e os acordos das facções da política são feitos, entre os interesses que podem e os que não podem vir à luz do dia.” Nem mesmo a quadrilha da qual ele participa é especial.

Ainda assim, o psicanalista Tales Ab’Sáber, muito a contragosto, vê-se obrigado a deitar o impostor no divã. Michel Temer não é um tema interessante para ninguém, a não ser pelas circunstâncias que o levaram à usurpação do mandato alheio. O psicanalista vai atrás dessas circunstâncias, no bojo do delírio coletivo que acometeu o País após a reeleição de Dilma Rousseff, em 2014.

Circunstâncias não necessariamente gratuitas, encadeadas, na verdade, em roteiro de conspiração, com a confluência ativa da mídia canalha e da Justiça a serviço da injustiça. A classe média tola, ignorante e rancorosa prestou-se alegremente a ser massa de manobra. Quanto mais o engodo se revela, hoje, mais ela, incapaz de qualquer autocrítica, reage com tolices, ignorância e rancor.

Do imbróglio-bufo emerge o “líder vazio”, em busca de uma legitimidade impossível, ainda que sua, hum…, expertise consista em operar as barganhas miúdas de criaturas tão medíocres como ele. “Neste mundo são as mais tradicionais oligarquias políticas brasileiras, tradicionalmente fisiológicas, patrimonialistas e antissociais, meio modernizadas, que ele representa”, resume o psicanalista.

É o mordomo do poder, como retratam os cartunistas, “que servilmente entrega o combinado, sempre tirando a própria parte. Vindo do fundo da estrutura do poder orgânico e organizado do capitalismo e da política brasileira, ele mal deixa entrever sua vida imaginativa, sua proposta de país, seu desejo de civilização, quando aparece no espaço público compartilhado”.

body language reitera o personagem mixo. “Sua voz melíflua, seu pernosticismo e suas mãos que giram sobre si mesmas, representando longos cálculos e negociações de velhos espertos, de fato não falam nada. Uma flor nascida no pântano da riqueza brasileira, nos porões dos negócios e interesses, que mal sabe ver e suportar a luz do dia do espaço turbulento dos interesses populares e sociais. Um vampiro, vai dizer sobre ele a imaginação popular, tentando dar figurabilidade para a complexidade ctônica dessa flor dos porões da política e do poder, da estufa sem o sol da esperança social, que, não se sabe bem como isso se tornou possível, chegou ao poder nacional ao seu próprio modo.”

O sanatório geral não se resume a Michel Temer e o novo livro de Tales Ab’Sáber tampouco se resume a Michel Temer. Num conjunto de artigos, entrevistas e uma espécie de diário clínico desse ambulatório psiquiátrico denominado Brasil (Estilhaços do Brasil, batizou ele), o psicanalista tenta reunir as peças de um quebra-cabeça de alucinação coletiva, onde se embaralham o já mencionado Zé-Ninguém do Jaburu, sua corte de gente fuleira, um capitão do Exército igualmente rastaquera, mas violento e intimidador, um empresariado infenso aos valores da democracia, uma classe média paranoica e radicalizada, políticos que, com ideias velhíssimas, se apresentam como novos e partidos que atuam como amebas sem princípios e sem ideologia.

Um dos desafios do presente, ao qual o autor se aventura com coragem, talento e sutileza, é o de decifrar o fascismo emergente que ameaça contagiar o País na companhia de outras patologias arcaicas, tais como o sarampo e a tuberculose. “O fascismo comum”, chama-o Tales Ab’Saber. Ao fenômeno dedica a maior parte da obra. Se bem que igualmente violenta e intolerante, até nossa versão de fascismo é, sim, vulgar, ordinária, não alcança a grandeza imperial do fascismo italiano, embandeirado e sonoro, ou do nazismo alemão, espetaculoso em sua pulsão de morte.

O fascismo à brasileira, vagabundo, estava submerso nos porões da tradição autoritária do status quo, a qual a redemocratização pós-ditadura não extirpou, apenas acomodou sob o tapete de um conchavo covarde de conveniências. “A extrema-direita ditatorial brasileira”, afirma Tales Ab’Saber, “foi protegida, destacada do processo de julgamento real e simbólico e premiada no processo de democratização.”

Só mesmo a omissão dos artífices da transição acochambrada, entalados por uma lei de anistia destinada a proteger os torturadores e assassinos, é que autoriza hoje que um candidato à Presidência da República faça apologia da covardia dos porões e saia por aí elogiando um facínora como o coronel Brilhante Ustra. Fazendo eco aos trogloditas do passado, e os do presente, setores imersos no ódio doentio pregam nas ruas, sem constrangimento, a volta a um regime militar cuja primeira providência seria lhes cassar a palavra.   

Tales Ab’Saber relê 2013 nesse contexto. Levantes originalmente críticos, mas à esquerda, tiveram sua legitimidade política e simbólica apropriada pelos “antipetistas indignados com a corrupção do outro” e os “anticomunistas do nada”. Os grandes conglomerados de mídia se deleitaram. “Na rua, era mesmo necessária a energia total do movimento popular da direita, que desse ares de amplo consenso para a violência política e institucional que de fato se buscava produzir. Dos desejosos de impeachment aos de intervenção militar ou de retorno da monarquia, todos eram muito bem-vindos.”

melting pot do atraso irradiava sua vocação para compartilhar o que o psicanalista denomina “democracia de extermínio”. “Deste modo”, observa ele, “a socialite cosmopolita de havaianas brasileira tida por moderna deveria ir de mãos dadas, e de olhos bem fechados, com o ex-torturador autoritário que se sentira lesado pela política reparatória mínima dos governos de esquerda – de populismo de mercado interno de Lula e de desenvolvimentismo de Dilma.

Invertia-se o valor amoroso, o conteúdo da promessa social, da imagem clássica de união e solidariedade do poema moderno de Drummond. E realizava-se a aproximação da direita mais dura por velhos peessedebistas, preconizada alguns anos antes por Fernando Henrique Cardoso.” 

A necropolítica prevalece no caldo de cultura da violência sádica contra pobres e negros, descrita com tinta de terror pelo blockbuster Tropa de Elite e traduzida pelos 60 mil assassinatos por ano no País, “dos quais as polícias participam com cerca de 10 mil, contra a ordem da lei”. A mentira é outra de suas qualidades inerentes.

Mais uma vez, a hipercultura da violência, que acorda os fantasmas sombrios e impenitentes da escravatura, encontra aval no homem “que já declarou com ênfase, em espaço de poder democrático, o seu machismo misógino, o seu racismo e sua homofobia”, figura grotesca e autoevidente, é verdade, piada de mau gosto, mas cuja ação política de violência direta que arrebata certos círculos constitui um projeto estranho ao jogo do capitalismo contemporâneo. Ou seja, Jair Bolsonaro é uma aberração monstruosa, mas bem familiar. É o caso de indagar: não será este Brasil que está aí, ele próprio, uma tenebrosa aberração?

(da Carta Capital)

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