Por administrador em 06/ago/2012

Educação – Transtornos afastam docentes das salas de aula



Excesso de trabalho, falta de condições e decepção com o desinteresse dos alunos impactam na saúde de professores, segundo especialistas. Apenas no Distrito Federal, cerca de 2% dos profissionais não atuam devido a doenças emocionais.


Os sintomas tomaram conta da cabeça e do corpo lentamente, em um processo silencioso. Cansaço sem fim, irritação, choros compulsivos e desinteresse. As horas dentro de sala de aula passavam arrastadas, o amor pela profissão já não era o mesmo e acordar para ir trabalhar era cada vez mais difícil. Mesmo assim, a professora Geusilene Bonfim, 44 anos, custou a acreditar que estava doente. Aconselhada pela direção do Centro Educacional Caseb, onde trabalha até hoje, ela procurou um médico e foi diagnosticada com depressão. Geusilene ficou 11 meses afastada. Depois de mais de dois anos em tratamento, ela voltou à escola e trabalha atualmente no apoio à coordenação. Apesar da expressão quase sempre alegre, os olhos da professora ainda reservam uma certa tristeza. “Eu não tenho vontade de voltar a dar aula. Me sinto melhor agora, tem menos pressão”, considera.

O desgaste físico e emocional que Geusilene experimentou são sintomas da doença associada ao esgotamento profissional. Após tratamentos com psicólogos e psiquiatras, ela admitiu que a depressão foi desencadeada, especialmente, pelo desinteresse dos estudantes dentro de sala, pelas péssimas condições de trabalho e pela sobrecarga de serviço. A docente, que lecionava geometria e ciências para o ensino médio, chegou a dar aula para 14 turmas, com 57 alunos cada uma. “A depressão é um conjunto de fatores, mas o ambiente de trabalho influencia uns 90%. É desgastante demais e os professores ainda levam coisas para concluir em casa. A gente quer dar conta de tudo, mas isso vira uma bola de neve, que uma hora estoura”, justifica. A docente também garante que falta apoio da Secretaria de Educação. “Isso é um descaso. Meu tratamento foi todo particular e os medicamentos são caros”, relata. Os profissionais da educação atualmente no DF não têm plano de saúde, mas ganham R$ 200 mensais de auxílio-saúde.

Histórias como a de Geusilene se repetem em escolas de todo o país. No Distrito Federal, do quadro de servidores públicos, cerca de 2% estão afastados por transtornos emocionais. No Rio de Janeiro, 7 mil dos 64 mil professores ativos não dão aula atualmente pelo mesmo diagnóstico (veja quadro). Os transtornos emocionais também podem ser chamados de comportamentais, de humor ou mentais. São doenças como estresse agudo, depressão, síndrome do pânico, síndrome de burnout — quando o profissional, motivado pela estafa, desenvolve relação apática com o ofício —, estresse pós-traumático, transtornos de ansiedade, entre outros. O problema, porém, não é mensurável. Não existem números nacionais do Ministério da Educação (MEC). Os dados são resultado de pesquisas realizadas em algumas secretarias de Educação do país ou universidades. Muitos professores, inclusive, não aceitam que a doença pode estar associada ao trabalho.

Doutora no assunto, a psicóloga e professora da Universidade de São Paulo (USP) Renata Paparelli explica que o cenário atual é o grande responsável pelos problemas dos docentes. Segundo Renata, a escola hoje representa uma desestruturação de tudo o que o professor acredita. “A desvalorização do professor e do lugar de conhecimento, bem como as condições adversas, os baixos salários e uma jornada infinita de trabalho contribuem com as doenças”, analisa. As políticas públicas falhas da educação também corroboram para o desencantamento. “Hoje, os professores vivem um quadro de sucateamento da esperança”, condena a psicóloga. O professor de psicologia da educação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Antônio César Frasseto concorda. Segundo ele, durante a formação, o professor passa por muitas ilusões. “Quando ele chega à ponta, a situação é complexa. É preciso que haja interesse das secretarias em saber dessas doenças.”

Idealismo
Foi o que aconteceu com Norma*, 60 anos. A rotina pesada a que os professores brasileiros são submetidos se choca com o idealismo construído em torno da função de educador. Esse foi o motivo principal da depressão da docente de história, geografia e ensino religioso, no fim dos anos 1990. Depois de 15 anos lecionando, Norma tirou seu primeiro atestado médico. “Eu me entreguei à missão da educação, então eu não admitia que podia estar doente”, relembra, hoje, a bibliotecária.

A diretora do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF) Neliane Cunha é categórica em afirmar que a ausência de condições decentes de trabalho leva à doença. “Quando o professor entra, pedem vários exames e ele não pode apresentar nenhuma doença grave. Ou seja, ninguém entra com transtornos mentais. O exercício do magistério adoece”, avalia. Para ela, os governos precisam desenvolver políticas públicas que contemplem a saúde do trabalhador. “Não fazemos greve à toa. As condições de trabalho são miseráveis e nem plano de saúde os professores têm”, argumenta.

A subsecretária de Gestão dos profissionais da educação da Secretaria de Educação do DF, Patrícia Jane Lacerda, garante que o governo tem feito um esforço para oferecer tratamento e qualidade de vida aos docentes. “A partir de 2013, teremos polos com ações preventivas para garantir saúde ao trabalhador”, explica. Segundo ela, a secretaria está debruçada sobre o tema e pretende entender o que afeta a saúde dos professores em sala de aula.

Violência contribui

Outro problema grave que contribui para os altos números de professores com transtornos psicológicos é a violência dentro das escolas. A Unesco, organização das Nações Unidas para a educação, ciência e cultura, aponta que 30% dos afastamentos em escolas da rede pública no Brasil são motivados pela violência. Matéria publicada no Correio em 22 de abril denunciou o aumento das agressões contra docentes em sala de aula. No Distrito Federal, um terço dos profissionais já foi agredido. Em Brasília, a média chega a seis casos por semana. Em São Paulo, os relatos de agressão cresceram 40% nos últimos três anos. Em Minas Gerais, uma ocorrência de violência é registrada a cada três dias nas escolas privadas e públicas.

Rede particular também é afetada

Os transtornos psicológicos também têm chamado a atenção na rede privada de ensino. Dados do Ministério da Previdência Social apontam que, em 2010, 2.711 funcionários do setor estavam afastados por problemas de depressão, estresse, ansiedade, síndrome do pânico, entre outros. No ano seguinte, houve um aumento de 112 casos. A pasta só contabiliza afastamentos médicos superiores a 15 dias. Nos dois anos, o maior número de doentes estava nas redes privadas de ensino superior — quase 50%. Os funcionários da educação infantil e fundamental representam o segundo maior grupo, com 700 benefícios concedidos em 2010 e 745 em 2011.

Na avaliação do vice-presidente do Sindicato das Escolas Particulares do DF, Álvaro Moreira Domingues Júnior, o quadro não é recente, no entanto, se agravou nos últimos anos. Segundo ele, a profissão é muito exigida e o comportamento dos alunos tem se modificado bastante. “A escola tem que exercer o trabalho da família. As crianças têm excessiva permissividade e os limites precisam ser impostos pelos professores. Mesmo na rede privada, os salários também são motivo de desgaste. “Muitas vezes, o docente precisa trabalhar em mais de um colégio para manter um padrão de vida”, analisa. (PF)

Relação complexa
Estudo recente do Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicou que pelo menos 19 tipos de tumores malignos, como os de pulmão, pele, fígado, laringe, bexiga e leucemias, podem estar relacionados ao trabalho. No documento, a entidade fez um alerta para a reavaliação das políticas públicas dos ambientes de trabalho insalubres. De acordo com a responsável pela área de Vigilância do Câncer Relacionado ao Trabalho e ao Ambiente do INCA, Ubirani Otero, a determinação da causalidade do câncer com o ambiente profissional é subdimensionada pela dificuldade de se estabelecer uma relação entre os dois na consulta médica.

Fonte: Correio Braziliense

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