Por administrador em 16/abr/2011

Dia 13 de abril de 2011: um fato curioso




“Um dia você aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel” – William Shakespeare

Shakespeare é inspirador e provocante, na melhor acepção da palavra “provocação”. Inspira à descoberta de que a vida é um eterno aprendizado no e com o mundo. Ter o direito de estar com raiva sem ser cruel tem a mesma proporção de exigir espaço de poder sem agredir o outro física, moral e psicologicamente. Posto essa consideração preliminar, pode-se perguntar: qual fato curioso ocorreu no dia 13 de abril de 2011?

Silêncio! Um minuto de silêncio em memória das vítimas do massacre do Realengo-RJ! No final da Assembleia, um paradoxo, releia-se como puder…

Não havia polícia montada, nem cassetetes, nem bomba de gás de efeito moral, nem escudo, mas os militares que estão dentro de nós saíram dos esconderijos…

Trata-se do desdobramento final da assembleia dos professores (as) nesse mesmo dia. Nada de inusitado, nem de inesperado, mas questionável e que requer uma reflexão sobre alguns pontos. Reflexão da ação não é apenas uma percepção marxista, mas essencialmente necessária e urgente dentro das relações humanas. Neste sentido, quem age apenas enquanto relação animal-animal acaba vivenciando o que Thomas Hobbes chama de homem “lobo do próprio homem”. A dimensão do lobo, em sua ferocidade, atinge dimensões sem fronteiras e ultrapassa o nível de gênero, etnia/raça, classe social e escolhas de qualquer ordem. Torna-se lobo na experiência histórica: convivências, produção da cultura, no seguimento fanático a este ou aquele partido político, religião ou ideia. O sectarismo tem feito muitas vítimas no mundo, não obedecendo a uma temporalidade específica. Passa-se o tempo e as mazelas desse modo de ver o mundo continua impregnado na vida de muitas pessoas, ora consciente, ora inconscientemente.

Gostaria de compartilhar três pontos que considero importantes diante do ocorrido no dia 13 de abril de 2011: 1. O SINPRO-DF. 2. A Organização Sindical. 3 A disputa de espaço no poder.

No que se refere ao primeiro aspecto, vejo o Sindicato dos Professores (as) como imprescindível aliado dos educadores (as)  na mediação/intervenção a respeito de processos pedagógicos e administrativos no ambiente escolar e em ações coletivas que visem a melhoria da qualidade social, pedagógica, política, econômica e cultural não apenas da comunidade escolar, mas de toda a sociedade. Nesta mesma direção, penso que ser diretor (a) sindical não se confunde com “cabide de emprego”, fato que exprime bem essa percepção é que os diretores (as) sindicais são eleitos (as) e não “entrados pela janela”. Não se traduz também em “espaço para fugir da sala de aula”, mesmo porque os diretores (as) sindicais continuam em sala de aula e ao mesmo tempo dirigem o Sindicato.

A história do sindicalismo no Brasil tem revelado que um sindicato autêntico deve ser combativo, ponderado, reflexivo e estar ao lado da categoria. Já vivi em momentos de grandes tensões e até agressões verbais e físicas entre as décadas de 80 e 90 em Goiás, quando ainda se acreditava que o movimento social e os partidos políticos podiam ocupar espaço no poder por meio da força física.

Hoje, ao contrário,  tudo leva a crer que o fenômeno do “militonto” e do “porra loca” não tem mais lugar em um tempo em que as mudanças  na terra  ocorrem em um piscar de olho. Ou alguns movimentos sociais mudam o discurso ou tornam-se obsoletos e com a casca de avançados.

Sob a perspectiva integral do ser humano, tão propalada por pessoas que fazem uma crítica significativa à fragmentação, o Sindicato dos professores (as) é também partidário e mais do que isso, político. Ser diretor (a) sindical não invalida a sua atuação em um determinado partido político, nem uma adesão explícita a uma religiosidade, nem tão pouco,  a uma a vida comum: ir a uma festa, beber um vinho, dançar, ir ao cinema, jogar um futebol, viajar, enfim, tem uma condição de vida que permita agir com saúde e entusiasmo na defesa da categoria. O que tudo isso tem a ver com a assembléia do dia 13 de abril? Muito.  Falar sobre o sindicato: importância, significado e indispensabilidade requer que se pense nele com suas implicações organizacionais, éticas e políticas.

Em primeiro lugar, não é fácil dirigir a categoria dos professores (as). É desafio constante, por se tratar de um segmento que pensa, questiona e propõe. Não que outras categorias profissionais não pensem, mas pelo fato de que, nas palavras de Antônio Gramsci, ao evidenciar uma ideologia dominante, o educador (a) também faz crítica dessa ideologia e propõe uma contra-ideologia. É verdade também que o discurso contra-hegemônico se dá em outros espaços, inclusive dentro do sindicato. Dito de outro modo, não é apenas prerrogativa do professor (a) e do sindicato a reflexão crítica e autocrítica do que foi e continua sendo estabelecido como a única verdade capaz de revolucionar ou estagnar as coisas, as ideias e as pessoas.

Organização sindical objetiva-se, no meu entendimento, a construção de laços entre a direção sindical, os movimentos sociais, a comunidade escolar, as lideranças políticas e a sociedade em geral para encontrar soluções diante dos grandes problemas. Ao quebrar uma das relações, desequilibra todo o conjunto. Daí porque não haver um divórcio entre sindicato e os diversos segmentos que interagem, educam e buscam emancipação de acordo com suas demandas.  O que pode fazer a diferença? Penso ser o processo de construção coletiva da emancipação, o que depende de uma ecologia humana pensada sob a lógica da sensibilidade, da escuta sensível, da reflexão da prática e do encontro não apenas como animal. A espécie humana estabelece uma relação animal-animal, instintiva, mas carece de outra relação que faça a diferença: a pessoa – pessoa – cuidado – respeito.

Parece-me oportuno dizer que nenhuma organização sindical, seja em sua estrutura, seja em seu estado de mobilização da categoria consegue levar a cabo uma solução para problemas da categoria sem o esforço coletivo que compreende o respeito da direção sindical como representante legítimo, escolhido por meio do voto, “co-construção” do projeto de emancipação e participação efetiva da categoria nas decisões. Respeito sim, subserviência, não.

A organização sindical do ponto de vista da mobilização tem maior êxito na medida em que há respeitabilidade de todos os sujeitos, o que implica em dois aspectos importantes: oratória e escutatória.  A primeira é uma contribuição da Grécia antiga, mas não é propriedade exclusiva de nenhuma cultura, nação e país. A segunda é utilizada por Rubem Alves em uma crônica com o mesmo título. Ambos ajudam no entendimento de que escutar assim como falar são inerentes à humanidade. No entanto, em sociedades contemporâneas, fala-se mais do que se escuta. Gilles Deleuze em seu Abecedário chega a dizer “que não gosta dos intelectuais que falam demais”. O ser humano gosta de falar, faz parte do mundo simbólico, cuja linguagem é das mais diversificadas.  Este desejo tão presente no ser humano de falar coloca uma questão fundamental: o que, como e onde se quer atingir com o que se fala? Vejo duas dimensões inseparáveis na oratória: o rigor técnico (forma) e amor-respeito (política).

Rigorosidade técnica, associada a uma visão política são aspectos que ajudam na luta organizada, mas sem o respeito mútuo e “amorosidade” na perspectiva de Paulo Freire, a técnica e a visão desabam, uma vez que o amor/respeito é alicerce das relações. Se não apostar nesta base, qualquer discurso se torna vazio e passa a  se crer que os ideais estão acima da humanidade e, paradoxalmente, busca-se a humanidade por meio do discurso. A violência, neste contexto, torna-se uma prática “normal” e “natural”, justificada por ideologias explícitas ou latentes.  Adoto aqui a ideologia do ponto de vista de Karl Marx “ideologia como instrumento de dominação de uma classe sobre a outra”, mas acredito também em uma ideologia explicitada e criticada, em uma contra-ideologia capaz de desarticular a dominação na perspectiva de Gramsci.

Organização sindical com todo o seu dinamismo tem uma implicação amplamente Política. A palavra Política, entretanto, tem desgastado o seu sentido devido à politicalha. As experiências de corrupção nas relações de poder transformaram a política em politicalha. Não confundamos essas duas palavras. Elas dizem muito, mas quando bem percebidas dentro de um contexto muito específico. Pode-se dizer também que Política tem a ver com o Poder, melhor dizer Relação de Poder.

Compreender o sindicato, especificamente o dos Professores (as) do Distrito Federal com sua feição política e politizada, remete ao que considero disputa de espaço no poder. Pisamos em uma areia movediça. Não há consenso no que diz respeito ao poder. Penso que toda pessoa almeja o poder e busca atingi-lo de diferentes maneiras. Um pouco mais de sentido: as pessoas não apenas desejam o poder, mas chegam a agredir, caluniar, excluir, discriminar e  matar em função do poder. O poder é um grande monstro estarrecedor e ao mesmo tempo fascinante.

Vejo que o sindicato dos professores (as) é campo de disputa do poder, resta saber qual o objetivo de quem  entra no jogo, ou melhor, qual jogo pretende jogar e quais interesses pretendem defender. Uns perdem, mas quem ganha recebe de presente a disputa contínua, pois o jogo não acaba quando se ganha. Costumo  pensar que uma eleição nunca é um dado do presente, porque quem vence hoje, já pensa no amanhã e da mesma forma, quem perde entra no jogo antes da futura eleição.

Considero que ao fazer o discurso negando quem assume o poder, deseja-se estar no lugar do outro, ou pelo menos, ao seu lado. Por isso, ao dizer “Fora diretores sindicais” subjaz um  “quero estar em seu lugar” ainda que não seja hoje, mas quem sabe, em outro momento. Não há ingenuidade na relação de poder, nem nos discursos, pois quem fala, fala de algum lugar e com algum desejo. Isso é bom, porque revela o sujeito falante, mas quem escuta carece de abrir os olhos, na melhor das hipóteses, considerar o desafio da esfinge “Decifra-me, ou devoro-te”.

Fato curioso que ocorre em muitas situações de embate de partidos políticos e sindicatos: ambos pensam no que e como disputar o agora e o depois, mas é preciso estar atentos: de fato não se ganha uma eleição no grito, nem com ausência de projetos, mas com historicidade: formação, engajamento, compromisso e defesa dos interesses da categoria e da nação em geral. É fato também que o olhar de uma direção sindical é mais aguçado, mas é também perceptível a necessidade de se escutar a base, pois esta tem suas contribuições imensuráveis.

Dizia no início dessa reflexão que escutar não é algo fácil. Mas de alguma maneira falamos, seja com protesto, seja com um olhar ou mesmo com uma raiva, mas Shakespeare identificou muito bem que temos o direito de ter raiva, mas isso não dá o direito de ser cruel.  Atacar, portanto, um diretor sindical, em uma assembleia, da maneira como se deu no dia 13 de abril de 2011, no Mané Garrincha, revelou, em sua sutileza, uma disputa pelo poder, aquele que está no presente em sua subjetividade, mas que se desponta no porvir como condição real, possível, em que se inverte a ordem do discurso, mas não se sabe ao certo qual será a prática. Neste sentido, o poder é também mágico, um feitiço, porque encanta, amarra, faz ser dominado e ser dominador. O poder é campo de batalha e sendo a pessoa humana um ser da práxis, almeja e batalha, muitas vezes em um campo minado, cheio de bifurcações, mas apesar disso, todas as pessoas almejam o poder.

Desejar é parte integrante do ser humano. Pode-se desejar tudo, até a morte. Deseja-se a vida eterna, entrar no céu e encontrar com Deus, mas teme-se a morte. Muita gente não deseja morrer e faz tudo para que isso não ocorra, mas com o poder que tem nas mãos, mata a fala, a escuta, a criatividade, o amor e a si mesmo, porque incapaz de instrumentalizar o poder em benefício da humanidade e da humanização.

Falei também que o sectarismo é prejudicial, por sinal à saúde integral do ser humano, mas gostaria de deixar o entendimento de que os pensadores aqui tratados não são sacralizados, nem seguidos. Eles trazem contribuições para pensarmos, não para paralisarmos. Lembro-me da fala de uma mulher queimada pelo marido e com o corpo deformado, quando dava um depoimento no documentário “Lei Maria da Penha”. Ela dizia: “quando se está no fundo do poço, não há mais para onde descer. Agora é só subir”. Veja a densidade dessa fala e de onde parte. Qual lição se pode tirar da situação e da fala dessa mulher.

Descer ao abismo dentro do abismo parece improvável, e a realidade do Sindicato dos Professores (as) do Distrito Federal é prova cabal dessa realidade: nos últimos oito anos de governo (Roriz e Arruda) a política perdeu o lugar para a politicalha e o SINPRO-DF não perdeu a sua atuação e enfrentamento. No atual contexto do Governo do Distrito Federal não houve polícia na Assembleia dos Professores (as), como foi de praxe nos governos acima citados, mas é preciso discutir com seriedade quem são nossos verdadeiros companheiros (as), a fim de não cairmos na vala comum do desespero e da arrogância, a tal ponto de agredir e desrespeitar quem está na luta em favor da categoria dos professores (as). Diga-se de passagem, que a extrema direita raivosa e segmentos da esquerda nunca se contentaram com o PT no espaço de poder, o que me interpela a dizer que certa coligação acaba sendo a morte do sujeito crítico, emancipado e livre.

Gostaria de concluir parafraseando a senhora queimada pelo marido, que quem estava no fundo do poço nos governos Arruda e Roriz não tinham mais para onde descer, mas com o voto de confiança em Agnelo e Dilma, algo de novo ainda pode acontecer. Parafraseando também Shakespeare, todo professor (a) tem o direito de não gostar e nem apostar na atual Direção do SINPRO-DF, mas não tem o direto de agredir física e moralmente. Cabe também uma autocrítica da categoria e da Direção Sindical.

Cristino C. Rocha – Delegado Sindical do CEF Myriam Ervilha – Samambaia – DF. 14 de abril de 2011.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Imprimir