Teto de escola no Paranoá desaba e escancara crise estrutural na rede pública do DF
Na última terça-feira (20), parte do teto da Escola Classe 06 do Paranoá desabou sobre uma sala de aula enquanto alunos e uma monitora estavam no local. O incidente, que por pouco não terminou em tragédia, é mais um capítulo visível de um problema que atravessa os corredores da rede pública do Distrito Federal: a falta de investimento e o descaso do governo Celina Leão com a infraestrutura escolar.
Imagens divulgadas após o ocorrido mostram pedaços do forro e da estrutura espalhados sobre mesas e carteiras. O desabamento ocorreu por volta das 15h, durante o intervalo. Uma monitora foi atingida por parte do material e foi levada ao hospital por uma equipe do SAMU, mas sem ferimentos graves. A área foi isolada e as aulas na unidade foram suspensas para avaliação técnica.
Uma servidora da escola que não quis se identificar comentou que no dia do acidente a regional de ensino compareceu à unidade escola, quatro salas de aula foram isoladas e as famílias comunicadas para que pudessem buscar as crianças. “A unidade escolar encontra-se em um espaço provisório há 10 anos, espaço esse que era uma fábrica de PVC. O telhado é o mesmo desde então, não possui laje e tem forro de PVC. A parte elétrica é bem comprometida e nesse período de calor não suporta todos os ventiladores ligados, e estou falando de ventiladores e não de ar-condicionado. A equipe gestora tem inúmeros processos encaminhados à CRE com solicitação de troca de toda parte elétrica e telhado. Além disso, vivemos uma total insegurança, pois o portão do estacionamento vive danificado e os muros são extremamente baixos”, lamenta a servidora.
O diretor da EC 6, Joel Teles, comenta que o descaso da SEEDF continuou após o desabamento. “Depois do ocorrido com o telhado, comunicamos a todos que não teríamos aula nos dois dias seguintes e até agora nada foi resolvido. Com isso os estudantes vão ficando sem aula”, ressalta.
A diretora do Sinpro Márcia Abreu explica que desde 2016 a escola funciona em um prédio improvisado, sem solução definitiva. O episódio evidencia a negligência do poder público e exige respostas imediatas. “Cobramos do GDF e da Secretaria de Educação vistoria estrutural em toda a unidade, garantia de segurança para estudantes e profissionais, esclarecimento das causas do desabamento e um cronograma de solução definitiva. Educação pública exige investimento, responsabilidade e prioridade política. Não podemos esperar uma tragédia para agir. Escola segura é direito, não favor”.
O episódio, embora tratado como um susto sem vítimas fatais, expõe uma realidade que o Sinpro já vem alertando há anos. Dados do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), obtidos em inspeções realizadas em 17 escolas públicas que atendem mais de 11 mil estudantes, revelaram que 47% dessas unidades não tinham água potável disponível no momento da fiscalização. Em uma delas, a água era oficialmente imprópria para consumo; em outra, a caixa d’água não recebia limpeza havia mais de seis meses.
A situação de precariedade não é isolada. Na Escola Classe Cooperbras, em Planaltina, funcionários relataram que alunos frequentemente passam mal após ingerir a água da unidade. O monitoramento do TCDF constatou que apenas 32,6% das irregularidades detectadas anteriormente foram corrigidas; 67,4% seguem sem solução.
Ato denuncia caos na rede pública
Nesta quarta-feira (21), o Sinpro realizou uma paralisação geral da categoria. Entre as pautas estavam a falta de diálogo com o Executivo, a perda de autonomia pedagógica, as condições de trabalho e a falta de estrutura de muitas unidades escolares.
A diretora do Sinpro, Márcia Gilda, relata que o sindicato teve apenas uma reunião com o atual secretário de Educação e que, desde então, diversos ofícios enviados não obtiveram resposta. A pauta inclui ainda reivindicações históricas por infraestrutura adequada, salas sem superlotação e melhorias na Educação Especial e na EJA.
A insatisfação tem raízes documentadas. Em julho deste ano, o Sinpro denunciou cortes no Programa de Descentralização Administrativa e Financeira (PDAF), que reduziam o repasse por estudante de R$ 84 para R$ 65, com perdas que poderiam chegar a R$ 40 mil por escola. Para a entidade, a medida é mais uma prova de que “a educação está longe de ser uma prioridade deste governo”.
Enquanto isso, na Escola Classe 06, alunos e servidores retornarão a um prédio que, literalmente, caiu sobre eles. A luta do Sinpro e dos trabalhadores da educação é por condições dignas de trabalho, onde o ensino possa acontecer com dignidade.
