Sinpro debate proposta de militarização com comunidade escolar do Gisno

Mais seis escolas públicas do Distrito Federal estão na mira do projeto de militarização proposto pelo governador Ibaneis Rocha (MDB) e a expectativa segundo o GDF é de que a presença da Polícia Militar na educação do DF seja expandida cada vez mais.

Diante da necessidade do amplo debate sobre o tema, o Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF) está realizando uma verdadeira peregrinação nas unidades cotadas para aderirem a proposta para alertar sobre os riscos que a iniciativa representa. Nesta segunda-feira (29), foi a vez da comunidade escolar do Centro Educacional (CED) Gisno, na Asa Norte.

Durante o encontro que contou com participação de professores(as), orientadores(as), gestores(as) e estudantes representantes de turma, grande parte dos segmentos demonstraram preocupação em relação à militarização. Segundo relatos, a notícia foi anunciada sem o mínimo de antecedência.

A estudante L.M.,  1° ano, afirma que tomou ciência da mudança pelas redes sociais, durante o período de férias. Para ela, a militarização repentina pareceu uma ideia premeditada. “Fiquei assustada e revoltada com a forma que nos informaram que a nossa escola seria militarizada. Não respeitaram nossa opinião. As notícias sobre as escolas que já estão neste modelo não são boas. Ouvi sobre casos de agressão e assédio e tenho medo que o mesmo aconteça aqui”, explica.

A estudante que exibe cachos e possui um estilo próprio com roupas e acessórios personalizados, acredita que a militarização é opressora e tira a identidade de cada indivíduo. “Eu adoro a diversidade do Gisno e obrigar os alunos que são diferentes a entrarem em um padrão é muito ruim. Nós sabemos a nossa realidade e, para mim, isso não interfere em nada no nosso aprendizado. Temos um espaço muito grande e o ideal era investir em projetos criativos como de teatro, música, diversidade e inclusão”, afirma.

Alguns professores também se posicionaram.  A professora Joelma Nascimento leciona acerca de quatro anos no Gisno. Paralelo à essência totalmente excludente do projeto de Ibaneis, Joelma relembra que apesar dos desafios impostos, o Gisno tem colhido bons frutos. “Eu não acredito que a militarização vai resolver os problemas da escola. Nós temos dificuldades em vários setores e a saída para resolve-los está no investimento em recursos humanos e materiais. Como essas crianças serão no futuro se elas não puderem brincar, pensar nem ao menos questionar? Nós recebemos uma diversidade muito grande de alunos que já são excluídos de outras escolas, da sociedade, da família, até mesmo menores que cumprem medidas socioeducativas. Entretanto, nenhum professor ou professora olhará para esse estudante com preconceito, mas sim, com olhar humano e acolhedor.  O papel da escola pública é incluir a todos sem distinção”, ressalta.

Já a professora Sheila Abreu criticou o fato de o projeto ter sido anunciado arbitrariamente, sem diálogo e durante o período de recesso. Para ela, o modelo de escola militarizada tem vários erros. Um deles, é que, equivocadamente, a comunidade leiga costuma confundir escola militarizada com escola militar. A professora esclarece que o público da escola militar é muito diferente, o investimento por aluno é maior e as famílias desses estudantes são bem mais estruturadas e presentes na vida dos discentes. “Muitos pais se iludem achando que a escola militarizada será igual a escola militar e que resolverá todos os problemas, mas isso não é verdade. A militarização nada mais é que uma maneira de maquiar os reais problemas da educação e podar os alunos em um modelo estático e padronizado que proíbe o pensamento crítico. A escola pública está aqui de portas abertas para todos e nós estamos aqui para tentar solucionar todos desafios juntos”, afirma.

Para que os colégios, de fato, sofram as alterações, é necessário que haja a aprovação das comunidades escolares. Caso a comunidade não aceite a intervenção, a SEEDF escolherá unidades substitutas.

O primeiro indício da militarização do ensino público no DF surgiu no começo do ano letivo de 2019, sob a desculpa de combate à violência. Na ocasião, quatro escolas aderiram ao modelo. Os centros de ensino “militarizados” contam com o apoio de 20 a 25 policiais militares da reserva, que cuidam das decisões disciplinares e administrativas e ministram disciplinas ligadas à “cultura cívico-militar”, como ética e cidadania, ordem unida e outras.

Porém, professores(as) que já estão inseridos no modelo afirmam que não houve nenhum avanço desde a instauração do projeto. Pelo contrário, existem inúmeras denúncias de que há a repressão de pensamento e má distribuição de recursos.

Durante a reunião, os(as) diretores(as) do Sinpro explicaram que a militarização dialoga com o projeto do Governo Federal de iniciativa do presidente Bolsonaro  e que ao invés de formar cidadãos críticos e conscientes, cria robôs que não questionam, apenas seguem ordens. O Sinpro discorda radicalmente de que a melhora do ensino público passe pela militarização. Para nós, o que se faz necessário é o amplo investimento na categoria e em uma educação pública, laica, socialmente referenciada e de qualidade para todos. Além dos investimentos em segurança pública de modo geral.

O Sinpro seguirá acompanhando de perto a construção desse diálogo e, democraticamente, decidir em conjunto a melhor alternativa para o ensino público do DF.  Ainda hoje, diretores(as) do Sinpro visitarão a o CED 1 do Paranoá e, amanhã, terça (30) a visita é ao CEF 1 do Núcleo Bandeirante.

 

 

 

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