Restrição no acesso à água em regiões do DF dificulta o combate à covid-19, aponta projeto

Medidas como lavar as mãos com água e sabão têm sido uma das principais orientações para evitar a disseminação do vírus Sars-Cov-2. Apesar da ênfase em ações de higiene pessoal, nem toda a população vive em um contexto que permita essa fazê-lo com a frequência adequada. A falta de acesso à água por parte da população em vulnerabilidade socioeconômica do Distrito Federal (DF) chamou a atenção de professores da UnB para desenvolver o projeto Vida e Água para ARIS (Área de Regularização de Interesse Social). O objetivo é fortalecer redes de movimentos populares do DF e Entorno engajados em campanhas de acesso à água potável. 

O projeto é uma das iniciativas de combate à covid-19 que foram aprovadas pelo Comitê de Pesquisa, Inovação e Extensão de combate à Covid-19 (Copei). Inicialmente chamado de Enfrentando o Covid-19 e suas relações socioambientais: empoderamento de Redes Locais para acesso à água como direito nas ARIS do DF, ficou conhecido como Vida e Água para ARIS após a intensificação dos diálogos com as redes de movimentos sociais.

O grupo tem trabalhado com o conceito de sindemia, que evidencia como problemas de saúde se agravam em populações de acordo com seu contexto social e econômico, e como esse mesmo contexto agrava os problemas de saúde. Assim, o enfrentamento à covid-19, nesse projeto, se dá sob a perspectiva de diferentes áreas das ciências humanas, que se articulam entre pesquisa, inovação e extensão fazendo uso das novas tecnologias de informação e comunicação. Dessa forma, movimentos sociais e a Universidade unem-se para tornar mais visíveis as demandas e contradições acerca da crise de abastecimento de água potável nas ARIS (Área de Regularização de Interesse Social).

“Foi o despertar de um sujeito coletivo em torno da questão social relacionada ao impacto da covid-19 no DF”, destaca Perci Coelho, professor do Departamento de Serviço Social (SER/UnB) e coordenador do projeto. Ele explica que a situação que ensejou a mobilização foi revelada por uma pesquisa aproximativa vinculada ao projeto de extensão O Grito Social das Águas.

 Na pesquisa, o engenheiro sanitarista formado pela UnB Adauto Santos revelou que moradores de 39 ARIS do DF não tinham acesso à água potável. Foi possível identificar mais de 200 mil pessoas fora do sistema de abastecimento direto da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). Áreas passíveis de regularização fundiária desde 2009, até hoje essas localidades não possuem um sistema que possibilite o atendimento pela rede da Caesb.

Mapa disponibilizado pela Agência de Fiscalização do DF (Agefis) mostra a ARIS Primavera, localizada na Região Administrativa III, Taguatinga. Imagem: Agência Brasília

 

MOBILIZAÇÃO – Desde abril de 2020, o projeto vem realizando reuniões, encontros remotos e lives, que contam com a participação de entidades representativas da sociedade civil organizada do DF e Entorno. Os vídeos podem ser encontrados em canais de diversos parceiros do grupo, como o da UnBTV, o do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam/UnB), e do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF) na plataforma YouTube.

A iniciativa protocolou um abaixo-assinado junto à Casa Civil do DF em defesa das famílias sem acesso à água potável da Caesb. Para 2021, está prevista a primeira audiência pública em defesa do direito à água das ARIS na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).

Outro desdobramento dessas ações foi a inauguração da Casa Vida e Água para ARIS, na Cidade Estrutural. Na ocasião, mais de 150 cestas de alimento foram doadas pelo Sinpro-DF às ARIS do Sol Nascente e Pôr do Sol. Para o futuro, há ainda a intenção de produzir um mapa multitemático, que pode ajudar a aumentar a visibilidade da situação socioambiental desses locais.

“A maior riqueza não está visível nas ações, mas no processo de articulação de forças e empoderamento de cada sujeito, individual e coletivo”, opina Perci. Para ele, o critério de eficácia e eficiência da pesquisa-ação conduzida pelo grupo é diferente de pesquisas tradicionais. “Não é mensurado só do ponto de vista do mérito acadêmico em stricto sensu, mas na avaliação de resultados de dimensões que vão além do padrão quantitativo”, completa.

  

 Saiba mais sobre o lançamento da primeira Casa Vida e Água para ARIS no vídeo da UnBTV:

 

 

 

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