Dia do Campo: escolas do DF transformam educação em luta, memória e resistência
O Dia do Campo consolidou-se na rede pública de ensino do Distrito Federal como uma iniciativa que une educação do campo a saberes ancestrais e transformação social. Comemorado no dia 17 de abril, a data rememora o Massacre de Eldorado dos Carajás e reforça o fundamento de que a luta por justiça social passa pela reforma agrária.
Em 2026, o Dia do Campo reafirmou que a atividade materializa um Projeto Político-Pedagógico (PPP) comprometido com a transformação social em que as ações nas escolas dedicadas à educação do campo traduzem resistência, organização coletiva e defesa do direito à terra, à educação pública e gratuita de qualidade e à dignidade.
Este ano, o projeto mostrou que o papel da escola do campo vai muito além do currículo formal. Trata-se de um espaço de disputa de narrativas, de construção de consciência crítica e de fortalecimento das lutas históricas da classe trabalhadora. Um dos principais exemplos dessa perspectiva é a 12ª Semana Camponesa, realizada, anualmente, no Centro Educacional PAD-DF (CED PAD-DF).
“O Dia do Campo é uma atividade que remete a um valioso debate para a sociedade porque a reforma agrária já foi realizada na maioria dos países desenvolvidos, mas, no Brasil, é tratada como tabu e algo ilegal por causa da influência dos latifundiários”, observa Fernando Augusto, coordenador da Secretaria para Assuntos Sociais do Sinpro.
Ele ressalta que “comemorar o Dia do Campo em 17 de abril é relembrar o Massacre de Eldorado dos Carajás e manter viva a luta por uma distribuição justa da terra e fortalecer esse debate não só na comunidade camponesa, mas também na escola e na educação”.
A presença do Sinpro nas atividades reforçou o papel das escolas como espaços concretos de resistência. Na Escola Classe Guariroba de Samambaia (EC Guariroba), o diretor do sindicato Carlos Maciel enfatizou a trajetória de enfrentamento da comunidade escolar, que, recentemente, foi ameaçada de remoção em razão da instalação de uma usina termelétrica.
“Mas a mobilização da comunidade garantiu sua permanência no território, o que reforçou o significado político dessa experiência. Hoje a gente está num dia muito especial, lembrando que é uma semana de debate sobre a educação do campo e um projeto muito importante que a escola desenvolve. Esta escola é sinônimo de resistência desde sua criação e dialoga com a pauta ambiental e do campo”, observou Maciel.
Esse conjunto de experiências resume o que se constrói nas escolas do DF: espaços que, para além de ensinar, organizam, mobilizam e defendem seus territórios diante de interesses econômicos privados que, historicamente, avançam sobre as populações do campo. Essa concepção é reforçada pela própria política pedagógica da educação do campo.
O professor Sérgio Luiz Teixeira, da Gerência de Atenção à Educação do Campo (Gecam), ressalta a importância dos conceitos que estruturam essa modalidade de ensino. “A gente evita usar o termo ‘escola rural’. São escolas do campo, situadas em territórios educativos camponeses. Porque não é só a escola que educa, mas também o território — a luta pela terra, o trabalho, a cultura. Tudo isso faz parte do processo educativo”.
Ele contextualiza a dimensão articulada das ações realizadas no DF. “O Dia do Campo distrital envolve diferentes escolas e Coordenações Regionais de Ensino (CRE). Tivemos atividades na EC Guariroba, CED Irmã Regina e em várias outras. São experiências que fortalecem a educação do campo e o vínculo com o território”, assegura.
EC Guariroba de Samambaia
Única escola de educação do campo em Samambaia, a EC Guariroba aposta na educação ambiental, com hortas, viveiro e participação comunitária. A proposta fortalece a resistência no território e a consciência sobre a crise climática. As crianças são o centro da transformação, juntamente com a comunidade escolar e conta com o apoio do Sinpro.
Localizada na DF-180, a unidade realiza a Semana do Campo coletivamente desde 2024. Este ano, culminou com um Dia do Campo marcado atividades que envolveram 350 estudantes e toda a comunidade escolar. Houve uma feira campesina, apresentações estudantis e debate político sobre o território. O tema deste ano, “Escola e família: raízes que nos fortalecem”, dialogou com a luta recente da comunidade contra a instalação de uma usina termoelétrica, que colocava em risco a permanência e a existência da escola.
Além da presença da Gecam e da Eape, com a roda de conversa sobre a luta da comunidade contra a retirada da escola do local em que ela é para colocar no lugar uma termelétrica, a novidade do Dia do Campo 2026 foi o plantio da palmeira guariroba, uma planta nativa e símbolo do Cerrado e da identidade local. A professora de Atividades e diretora da escola, Nathália Raissa Pahceco de Oliveira Lopes, reforçou o caráter estratégico da educação ambiental durante a atividade.
“Mais que um gesto simbólico, o plantio da guariroba representou a afirmação de que o território não está à venda e que a escola pertence à comunidade. Além disso, as crianças são a semente da mudança e da transformação. Por isso, a gente está junto nessa luta com as famílias e com a comunidade”.
EC Córrego das Corujas de Ceilândia
A dimensão coletiva e popular da educação do campo se expressa também na Escola Classe Córrego das Corujas de Ceilândia (EC Córrego das Corujas), que, nesta edição do Dia do Campo, reuniu estudantes, famílias e trabalhadores(as) de oficinas, feiras agroecológicas e atividades culturais. Ex-diretora do Sinpro e uma das coordenadoras da escola, Iolanda Rocha, afirma que a realidade do campo escancara desigualdades estruturais. “O campo do DF existe e precisa ser respeitado. Muitas vezes, essa comunidade não tem o mínimo para sobreviver com dignidade e a escola se torna o único espaço do Estado presente”.
A diretora da escola, Gicélia Santos, reforçou o compromisso com a qualidade da educação e disse que o Dia do Campo é muito importante e significativo. “Nossa luta diária é por uma educação pública de qualidade, que assegure tanto o aprendizado dos estudantes quanto a formação continuada dos docentes, como no Programa Escola da Terra. A Educação do Campo é um direito e precisa ser garantida pelo Estado”. A qualificação dos profissionais da educação é uma das prioridades de sua gestão.
12ª Semana Camponesa do CED PAD-DF
A 12ª Semana Camponesa do Centro Educacional do Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal (CED PAD-DF) do Paranoá, localizada na rodovia DF-130/BR-251, reafirmou a educação do campo como prática pedagógica ligada à luta social. A atividade deste ano teve como eixo os 30 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás e buscou conectar memória, formação crítica e organização coletiva.
A Semana Camponesa faz parte do PPP da escola e mobilizou estudantes do Ensino Médio, Anos Finais do Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos (EJA) em atividades de pesquisas, produção de documentários e ações articuladas com o Instituto Federal de Brasília (IFB) e a Universidade de Brasília (UnB).
O diretor da escola, Gildney Ferreira de Souza, destacou o sentido político da iniciativa. “A proposta reafirma o território como espaço educativo e valoriza os saberes populares ao interligar teoria e prática em uma formação interdisciplinar”. Ele reforça que não se trata de um evento isolado, mas de um processo contínuo de formação. “A 12ª Semana Camponesa é uma práxis educativa emancipadora, que integra saberes populares, escolares e acadêmicos e fortalece o vínculo entre escola, território e comunidade”.
A centralidade dos estudantes foi um dos marcos da 12ª Semana Camponesa. O professor de geografia e coordenador pedagógico da escola, Vanilson Lourenço, destacou o protagonismo juvenil na construção das atividades. “Eles foram os protagonistas na definição dos temas, na organização das atividades e na produção dos conteúdos, o que fortalece o compromisso com uma aprendizagem significativa e com a formação crítica”. Ele informou que o caráter coletivo do projeto é um dos seus principais diferenciais e envolve professores(as), estudantes e famílias e tem se consolidado, cada vez mais, como referência na rede pública de ensino do DF.
A oficina “Educação do Campo – O que eu estudante tenho a ver com isso?” também integrou a programação da 12ª Semana Camponesa. Coordenada pelo Grêmio Estudantil da escola, a atividade reuniu estudantes dos 1º e 2º Anos do Ensino Médio em uma roda de conversa sobre identidade, ancestralidade, valorização dos saberes do campo e os desafios enfrentados pela educação rural. A presidente do grêmio, Marianny Castro da Silva, do 3º ano, coordenou a atividade ao lado dos estudantes e também integrantes do grêmio, Everton Kerllon Evangelista de Souza, Liedson Rodrigues e Emanoel Luiz da Silva, com participação de toda a diretoria estudantil na organização da atividade.
Durante o encontro, os estudantes debateram temas como evasão escolar, falta de adaptação curricular, dificuldades de acesso à universidade e o sucateamento da educação do campo. Também foi discutida a precariedade do transporte público que liga o PAD-DF ao Plano Piloto, apontada pelos estudantes como um obstáculo para o acesso a cursos, vestibulares e universidades.
“O ponto de partida dessa atividade é a identidade e o reconhecimento dos estudantes como sujeitos do campo”, destacou Marianny. Ela informa que a oficina buscou promover reflexão, pertencimento e valorização das raízes culturais e dos saberes transmitidos entre gerações.
CED Irmã Regina
No Centro Educacional Irmã Maria Regina Velanes Regis de Brazlândia (CED Irmã Regina), o Dia do Campo 2026 foi vivido como um mergulho na própria identidade da escola e do território. A iniciativa reafirmou princípios estruturantes da educação do campo e sua relação direta com o PPP da escola. A equipe gestora afirma que o sentido da atividade vai além do calendário escolar.
“O Dia do Campo não é um projeto isolado, mas uma expressão concreta do nosso PPP, fundamentado nos princípios da educação do campo, que reconhece e valoriza os sujeitos, seus territórios e suas formas de vida”, afirma Naira Martins Vieira, professora de história e psicologia e vice-diretora da escola.
Ela conta que, este ano, o tema “Inventariando o CED Irmã Regina” mobilizou cerca de mil estudantes em torno do chamado Inventário das Realidades — instrumento pedagógico que orienta a investigação sobre o território, as vivências e os saberes da comunidade. Ela destaca o caráter coletivo e formativo da experiência, que envolve estudantes, professores e comunidade escolar.
“A proposta fortalece a articulação entre teoria e prática no cotidiano escolar e o que se constrói nesse dia é a materialização desses princípios, quando alinhamos teoria e prática, o que fortalece vínculos e reafirma pertencimentos. Mais do que uma atividade, o Dia do Campo se configura como um gesto coletivo de pertencimento e de compromisso com uma educação que nasce da terra, dialoga com a vida e projeta futuros possíveis”, afirma.
Política pública, território e disputa de projeto educativo
Thailisa Katiele Batista de Oliveira, coordenadora intermediária das escolas do campo da Secretaria de Estado de Educação do DF (SEEDF) informa que as ações do Dia do Campo se inserem em uma política mais ampla da Secretaria de Estado de Educação (SEEDF), que instituiu o 17 de abril como data oficial no calendário escolar, em referência ao Massacre de Eldorado dos Carajás — símbolo da violência histórica contra trabalhadores rurais e da luta pela reforma agrária.
Ela relata que as atividades ocorrem em abril, como o Mutirão EAPECOLÓGICA e o ato simbólico realizado na EC Guariroba articularam formação de educadores, práticas agroecológicas e debates sobre políticas públicas. Mais do que cumprir calendário, o que se viu foi a reafirmação de um projeto de educação que disputa sentidos: de um lado, a lógica do mercado e da exploração dos territórios; de outro, a construção de uma educação enraizada na terra, na cultura e na luta dos povos do campo como dimensão estruturante do Dia do Campo. “Essa ação se consolidou como uma iniciativa político-pedagógica realizada nas 85 escolas do campo do DF, com articulação distrital e execução descentralizada para fortalecer a integração entre os territórios”, explica.
Ela detalha, ainda, que a iniciativa vai além de um evento. “Integrado ao PPP, é um processo contínuo de formação, vinculado à realidade, à cultura e às lutas dos sujeitos do campo. A diversidade das experiências também se expressa nos territórios, com a participação de centenas de estudantes em diferentes unidades, como a Escola Classe Lajes da Jibóia (170 estudantes), a Escola Classe Córrego das Corujas (166), o CEF Boa Esperança (270) e o CED Incra 09 (452)”, informa.
Thailisa Katiele reafirma o caráter estratégico da atividade e assegura que o Dia do Campo se consolida como política pública que fortalece a educação do campo, promove o pertencimento, a valorização cultural e a formação crítica. “Nesse contexto, a iniciativa reafirma a escola pública como espaço de articulação com a comunidade — não apenas um lugar de ensino, mas de resistência, organização coletiva e transformação social”, finaliza.
