Pesquisa mostra que EaD não tem como dar certo

A pandemia do novo coronavírus mostrou que Educação a Distância (EaD) não funciona em lugar nenhum do mundo. Mas, ainda assim, as grandes empresas privadas e o Ministério da Educação, no Brasil, tentam aproveitar a crise sanitária para implantar o modelo excludente, eliminar professores e transformar o sistema de educação em um grande telecurso privatizado, com robôs dando aula.

Que a pandemia mostrou que algo diferente vai dar novo formato à educação, isso é certo. Mas daí eleger a EaD como essa alternativa é outra discussão e não é real. A ausência de método específico e a exclusão digital são um dos muitos fatores importantes que revelaram as profundas limitações da EaD durante as teleaulas por causa da Covid-19. Nos países civilizados, que estavam no fim do ano escolar quando explodiu a pandemia, a EaD foi experimentada com o intuito de terminar o ano. Nesse curto período foram detectadas imensas limitações. A sorte é que era fim de ano e a maior parte do conteúdo curricular já havia sido dada.

A TIC Domicílios 2019, uma pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic), lançada nessa segunda-feira (26), mostra que um quarto da população brasileira, ou seja, aproximadamente 30% dos lares no Brasil, não têm acesso à Internet. A informação foi veiculada pelo G1, da Globo, nessa terça-feira.

O estudo mostra que há uma diferença significativa entre as classes sociais: em famílias com renda de até um salário mínimo, metade não consegue navegar na rede em casa. Na classe A, apenas 1% não tem conexão. Assim, sem Internet, sem merenda e sem lugar para estudar, 47 milhões de famílias brasileiras podem ter seus filhos excluídos da educação básica porque não têm acesso à educação a distância.

Pesquisas do Cetic e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam outras dificuldades quem impedem o uso da EaD como modelo alternativo, mesmo na pandemia, de aulas. Nas classes de baixa renda, as casas não têm espaço para estudar e não contam com saneamento básico; também faltam equipamentos, como computadores, notebooks, celulares e até mesmo televisão; não há conexão com a Internet; sem contar os baixos índices de leitura entre vários outros problemas.

Mostra também que, no magistério, falta de formação de professores para usar tecnologia na educação, há baixos índices de leitura e ausência de um método de ensino adequado à EaD. Na avaliação da diretoria colegiada do Sinpro-DF, “a discussão sobre o aperfeiçoamento profissional dos professores é outro tema que não tem tido o merecido cuidado por parte da Educação porque a preocupação do MEC e do capital é que sejam formados profissionais acríticos e adaptáveis aos seus interesses”.

Outro problema que impede o funcionamento da EaD é o adensamento populacional. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2018 (Pnad), do IBGE, mostra que 15,1% das residências em que há adultos e crianças abrigam seis ou mais pessoas. Em 40%, há mais de três moradores por dormitório. “Temos domicílios com infraestrutura precária de iluminação e de saneamento. E há famílias de sete pessoas em imóveis pequenos, onde os alunos não terão silêncio para estudar”, diz a pesquisa.

Além disso, o equipamento que está mais presente nas residências brasileiras é o televisor (96%). Mesmo entre os mais pobres, das classes D e E, 92% têm o aparelho – mas apenas 9% com canais pagos da TV fechada. “O uso da TV para a educação básica pode ocorrer por meio de videoaulas. Alguns professores são selecionados para gravar o material. A família deve ser informada de que, em determinado horário, vai ser exibida a aula de matemática do sétimo ano, por exemplo”.

O segundo equipamento mais comum é o celular, presente em 100% dos lares de classe A e em 84% nas camadas D e E. No entanto, é preciso fazer uma ressalva: não dá para achar que todos os estudantes têm um celular à disposição deles. Clique aqui e confira a matéria do G1.

O MEC publicou as portarias que autorizaram a substituição das aulas presenciais pela EaD na educação básica e superior são de 17 e 18 de março e atendem aos anseios empresariais. O Estado de S. Paulo revelou, em março, que a medida atendia mais a uma demanda das escolas e faculdades privadas do que como uma solução para a rede pública de ensino. “Também não importa a esses grupos empresariais quantos professores e professoras vão ficar desempregados(as)”, afirma Rosilene Corrêa, diretora do Sinpro-DF.

A EaD é tão problemática, que, no primeiro momento, nem sequer foi mencionada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), no início da pandemia. Em março, o CNE emitiu ofício informando entender que, juridicamente, a reposição dos dias perdidos podia ser feita em 2021, destacando que os 200 dias do ano letivo e as 800 horas anuais precisariam ser cumpridas. Ou seja, usaria o mesmo entendimento de 2009, quando aulas foram suspensas na epidemia de H1N1.

Até Luiz Miguel Garcia, presidente da Undime (uma entidade que reúne secretários municipais de educação ligada ao grande capital), disse que a liberação do ensino a distância para a educação básica não garante a qualidade e nem que todos os estudantes serão atendidos. “Não conhecemos metodologia, ainda mais em caráter emergencial, que garanta um ensino de qualidade para crianças nessa faixa etária que permita a substituição. Estamos falando de uma fase em que os alunos estão sendo alfabetizados.”

Sinpro-DF aponta choque de realidade – Com a pandemia, o Brasil começou a perceber a realidade da educação pública e até privada em relação à EaD. O Sinpro-DF já demonstrou, em várias reportagens, que a EaD não funciona nem no Brasil e nem no resto do mundo. A prova disso são notícias e editoriais de grandes jornais mundiais sobre o tema, como o The Economist, The Wall Street Journal, Le Monde, O Estado de S. Paulo etc.

O Sinpro-DF não torce para que a EaD não dê certo e reconhece a necessidade de garantir a melhoria da escola com introdução das ferramentas de inovação tecnológica e formação dos professores, aliado ao acolhimento emocional, mas mostra que é um fato concreto no planeta: a humanidade não organizou a educação básica para o formato EaD.

Dados da Pnad 2018, do IBGE, por exemplo, mostram que 17,3% das crianças de 0 a 14 anos moram em residências que não têm acesso à rede geral de abastecimento de água e 40,8%, em locais sem conexão com o sistema de esgoto. Nas casas em que não há Internet, as condições de saneamento são ainda piores: 29,3% sem rede de água e 60%, sem a de esgoto.

A diretoria colegiada do Sinpro-DF entende que o mundo vive situação de emergência, no entanto, a EaD não é a solução para este momento porque a educação não foi sistematizada para atuar com EaD e nem com o chamado “ensino híbrido” porque não adaptou o currículo escolar e o método educacional para as novas tecnologias (instrumentos de ensino); não construiu a inclusão digital de forma a oferecer acesso às novas tecnologias (acesso de 100% dos estudantes e trabalhadores da educação a equipamento e Internet) a todos(as); não há formação de docentes para uso dessa mídia para esse formato.

Além disso, por mais grave que seja o momento, a EaD não vai, agora, ajudar a ninguém e a nenhum governo a salvar a todos(as). Por isso o esforço, no momento, é adotar medidas que garantam educação presencial para todos. Os dados da pesquisa apresentada pelo G1 só reforçam que a população de baixa renda é a que tem menor ou nenhum acesso às tecnologias, além de não terem acesso à água potável, saneamento básico e direitos humanos elementares, como o direito à alimentação.

Todos os indicativos e pesquisas feitos em comunidades nas quais os estudantes estão tendo acesso à EaD mostram que eles e elas têm tido dificuldades de acompanhar aulas a distância. Como não foi desenvolvida para ser aplicada na educação básica, a forma como a EaD tem sido executada na pandemia não tem alcançado os objetivos e os estudantes não têm atingido o rendimento normal que teriam com as aulas normais presenciais.

“Daí já se vê que a EaD pode vir a se tornar um problema não só para as comunidades carentes, mas também para as classes média e alta porque, mesmo com poder econômico, algumas questões sobre EaD não foram respondidas nem no Brasil e nem no mundo. Enquanto isso não for resolvido, do ponto de vista metodológico da aplicação da EaD na educação básica, não iremos ter êxito nesse caminho”, afirma Rosilene Corrêa.

O Sinpro-DF está realizando uma pesquisa de opinião com pais, mães e responsáveis por estudantes e outra com professores para verificar as condições de acesso da comunidade escolar do DF, neste momento de pandemia, às novas tecnologias e à possibilidade do uso da EaD como substituto das aulas presenciais, cujo resultado sairá em breve.

Educação é nova commodity – Mas se a EaD mostrou que não funciona em lugar nenhum e nada disso sensibiliza o Estado, por que a pressa em flexibilizar as aulas presenciais? Ora, a educação se tornou commodity há tempos e é por causa disso que os ensinos básico e superior públicos já vêm sendo assediados e minados muito tempo antes da pandemia do novo coronavírus para atender aos interesses de grandes grupos educacionais mercantis com foco empresarial e no lucro.

No Distrito Federal, duas gestões seguidas (Rollemberg (PSB) e Ibaneis (MDB) no Governo do Distrito Federal (GDF) tentam instituir as Organizações Sociais (OS) como gestora das escolas públicas. A luta da categoria tem impedido a implantação desse projeto privatista.

“A pandemia apenas está permitindo e facilitando a realização de experimentos em todo o espectro educacional, do ensino superior ao básico. Com tal ressignificação, a flexibilidade será aplicada crescentemente na estrutura física das unidades escolares, na exploração do trabalho docente e nos currículos, que, em muitos casos, estão defasados e distantes do que é esperado de um profissional para os próximos anos”, afirma José Domingues de Godoi Filho, professor da Faculdade de Geociências da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), no artigo “Por que tanta pressa para “flexibilizar” as aulas presenciais?

O professor da UFMT mostra que o setor privado da educação vê a pandemia como oportunidade de privatização e, na aplicação da EaD, neste momento de crise sanitária, o salto para consolidar a mercantilização do direito à educação. A prova disso é a Coalizão Global da Educação, capitaneada pela Unesco, com “o objetivo de propulsionar, no curto prazo, a utilização de tecnologias de aprendizagem remota e, no longo prazo, consolidar o uso de tecnologias de educação nos sistemas regulares de ensino”, alerta.

Ele mostra que a coalizão envolve, além da Unesco, o Banco Mundial, a OCDE, a ONU, a OMS, o UNICEF, a OIT, grupos empresariais (Microsoft, Google, Facebook, Zoom, Moodle, Huawei, Tony Blair Institute for Global Change, Fundação Telefônica, GSMA, Weidong, KPMG, dentre outros) e organizações filantrópicas, sem fins lucrativos, como Khan Academy, Dubai Cares, Profuturo e Sesame Street.

A OCDE, por sua vez, identificou, em 98 países, o óbvio: que os recursos mais usados durante a pandemia são, entre outros: Google, Google Classroom, Google Suite, Google Hangout, Google Meet, Facebook, Microsoft one note, Microsoft, Google Drive/MicrosoftTeams, Moodle, Zoom, Youtube.

Banco Mundial e a educação a distância – Um relatório intitulado Three ways the coronavirus pandemic could reshape education, sobre os possíveis impactos da pandemia na educação, revela que uma mudança imediata foi constatada durante a crise sanitária da Covid-19, que milhões de pessoas no planeta tiveram acesso à educação graças à brecha digital que trouxe algumas abordagens pedagógicas no uso de novas tecnologias.

Para o Banco, a pandemia forçou uma inovação ao setor. Todavia, embora reconheça que a tecnologia realizou sua entrada definitiva nas salas de aula, o documento alerta para o fato de que todos devem estar atentos para o contexto nacional que aponta para o aumento da gap digital entre estudantes das escolas públicas por causa dos riscos socioeconômicos. E destaca como fundamental a atuação do poder público no combate a essa distorção para “não termos um cenário de aprofundamento das desigualdades entre estudantes das escolas privadas e públicas”.

Não que o Banco Mundial seja a favor da educação pública e gratuita. Nunca foi. Mas até ele alerta para os “riscos de retrocesso, mas há oportunidades de melhorar a qualidade do ensino no Brasil, de vermos a educação de qualidade como um direito de crianças e jovens e sugere o “ensino híbrido”, uma modalidade que integra as melhores práticas educacionais offline e online. Em inglês, é reconhecido pelo termo “blended learning” – em tradução livre: “misturar o processo de aprender”.

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