Notas abaixo da média nacional no Ideb escancaram abandono do GDF na educação pública
Os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025, divulgados nesta quarta-feira (5/8) pelo Ministério da Educação (MEC), escancaram um descaso que marcou o governo Ibaneis/Celina. O Distrito Federal não apenas ficou abaixo da média nacional, como também deixou de cumprir suas próprias metas da rede pública. Esse desempenho contrário à tendência nacional evidencia, de forma gritante, o total abandono e a negligência do Governo do Distrito Federal (GDF) com a educação pública local.
Este descaso enfrentado por professores e professoras e orientadores e orientadoras educacionais da rede pública do Distrito Federal se manifesta em múltiplas dimensões que, em conjunto, revelam uma realidade muito distante da construção de um projeto consistente de valorização da educação. Em vez de investimento e reconhecimento, a categoria do magistério público tem convivido com um cenário marcado pelo abandono institucional e pelo sofrimento cotidiano.
Para quem atua diariamente nas escolas públicas do DF, essa realidade não é apenas visível — é sentida na pele, com marcas profundas e cotidianas. Os cortes no Programa de Descentralização Administrativa e Financeira (PDAF), que deveriam garantir a manutenção mínima das unidades escolares, deixam prateleiras vazias e estruturas abandonadas. As salas de aula, abarrotadas de alunos, tornam inviável qualquer tentativa de ensino de qualidade. As condições de trabalho se degradam a cada dia, dificultando a ação de professoras e professores que, mesmo assim, insistem em fazer a diferença. Faltam equipamentos e materiais básicos para a rotina educacional, e o cenário se agrava com um alarmante dado: 2/3 dos(as) docentes em sala de aula estão em regime de contratação temporária — números que escancaram a precarização funcional e a ausência de vínculos trabalhistas estáveis.
A essa crise estrutural, soma-se a desvalorização sistemática da carreira docente, a insuficiência de monitores e a falta de suporte adequado para crianças que demandam atendimento especializado. Esses elementos não são isolados: alimentam um ambiente escolar cada vez mais tenso, refletindo-se no crescimento dos casos de violência contra os profissionais. Nas escolas especializadas, como os centros de ensino especiais, o aumento do número de alunos por turma, sem a devida infraestrutura está levando ao adoecimento docente e não promove a inclusão.
Esses fatores — e tantos outros que a rotina escolar escancara — não podem ser tratados como meros percalços administrativos. São indicadores concretos do baixo desempenho do DF no Ideb e, acima de tudo, sinais inequívocos do descaso estrutural com a educação. Revelam a urgência de uma mudança radical de rumo nas políticas educacionais e expõem a necessidade de que o atual governo do DF coloque a educação, de fato, no centro de suas prioridades.
Resultados abaixo do esperado
Nos anos iniciais do ensino fundamental, a meta para a rede pública do DF era de 6,5, mas o índice alcançado foi de 6,0 — ante uma média nacional de 6,1. Nos anos finais, o Distrito Federal registrou nota 4,7, contra a meta de 5,3 e a média brasileira de 5,0. O cenário mais crítico, porém, está no ensino médio: o índice do DF foi de 4,1, abaixo da média nacional de 4,5 e distante da meta de 5,4.
Na comparação com a edição anterior do Ideb, de 2023, o DF é a única rede estadual do país que registrou queda no ensino médio, passando de 4,2 para 4,1. No ensino fundamental, o índice permaneceu estável em 6,4 nos anos iniciais e teve leve alta de 5 para 5,1 nos anos finais.
Falta de investimento
Para Márcia Gilda, diretora do Sinpro, a melhoria dos indicadores educacionais passa necessariamente pelo investimento consistente na rede pública e pela valorização dos profissionais da educação. “Os números do Ideb 2025 escancaram uma realidade que o Sinpro denuncia há anos: o GDF não trata a educação pública como prioridade. Enquanto o Distrito Federal amarga a condição de ser a única rede estadual a registrar queda no Ideb do ensino médio e fica abaixo da média nacional em todas as etapas da educação básica, assistimos a um governo que não investe, nem reconhece quem está na sala de aula.”
A diretora acrescenta que o resultado é consequência direta da desvalorização continuada dos educadores. “Enquanto não houver reestruturação de carreira com recomposição real de salários — como prevê a meta 17 do PDE —, enquanto professores temporários seguirem sendo maioria em sala de aula, com alta rotatividade, trabalhando em condições precarizadas, e enquanto o governo não investir, a qualidade da educação pública continuará estagnada.”
O que mostram os números
Nota técnica de maio de 2026, que analisa as fontes de financiamento da educação pública no Distrito Federal (FCDF), revela uma redução real nos investimentos:
- A parcela do FCDF destinada à educação caiu de 26% (2023) para 17,98% (2026), representando um corte de R 5,1 bilhões.
- O percentual mínimo constitucional de 25% foi aplicado no menor patamar da série histórica (25,32% em 2025), com indícios de manobras contábeis questionáveis.
- Os investimentos totais na educação do DF recuaram 27,9% em 2026, somando apenas R$ 1,9 bilhão — o equivalente a 2,67% do orçamento.
A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2027 é mais um termômetro da falta de prioridade do GDF com a educação pública. De acordo com o documento em tramitação na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), a proposta orçamentária para o próximo ano mantém estabilidade nominal nas metas educacionais, mas reduz drasticamente as autorizações para novas contratações de professores(as) — queda de 76% — e para carreiras do magistério (até -71%). Embora o FCDF para a educação tenha crescimento nominal de 6,38%, a alocação efetiva recua 8,13% em termos reais, evidenciando subinvestimento na área, ao mesmo tempo em que crescem despesas com pessoal e obrigações continuadas. A Capacidade de Pagamento do Distrito Federal (CAPAG) foi rebaixada em razão da deterioração fiscal, e o Executivo projeta restrições severas de contratação, comprometendo a ampliação dos serviços educacionais.
O PLDO/2027 também prevê queda real dos investimentos: a fatia do FCDF para a educação cai de 21,7% para 18,8% (menor nível histórico), e as nomeações de professores despencam 76% (de 7.517 para 1.800 vagas). Em contrapartida, o orçamento amplia recursos para a segurança pública e prevê 3,8 vezes mais área construída para presídios do que para escolas — evidenciando uma clara inversão de prioridades em detrimento do magistério. “Há uma tendência inequívoca de desfinanciamento da educação, com priorização orçamentária para isenções fiscais, o que compromete a qualidade do ensino e a valorização dos profissionais”, alerta o diretor do Sinpro Cléber Soares.
Com base nos dados e na realidade exposta, fica evidente que os resultados do Ideb 2025 não são fruto do acaso, mas sim da somatória de anos de desinvestimento, precarização e desvalorização da carreira docente no Distrito Federal. É preciso construir um projeto estruturante para a educação pública, com reestruturação de carreira, recomposição salarial, recomposição do quadro de efetivos e financiamento adequado das escolas. A valorização do magistério é o caminho indispensável para reverter a queda do Ideb, garantir qualidade socialmente referenciada e assegurar que a educação deixe de ser tratada como gasto para ser assumida como prioridade efetiva do GDF. O Sinpro seguirá firme na defesa da escola pública, porque educar não é despesa: é investimento no futuro do Distrito Federal e de toda a sua população.
