“Não é todo mundo que tem condição de comprar coisa boa pra casa”

Trinta e três-vírgula-um milhões, segurança, alimentar. São as palavras-chave para você entender esse texto. São palavras frias, neutras, assépticas e distantes. O número 33,1 milhões escrito por extenso diz respeito à quantidade de brasileiros que sofrem com a neutra e insípida expressão “insegurança alimentar”. Ou, simplesmente, passam fome. O dado está disponível no Segundo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar, que foi publicado nesta quarta-feira (8/6). O número foi escrito por extenso para mostrar a frieza e a distância de um dado que, com o devido raciocínio, demonstra a tragédia brasileira.

O desabafo que dá o título a este texto foi dito por Nayane, moradora de Chácara Santa Luzia, na Estrutural. Nayane é tão brasileira quanto eu ou você, mas ela não consegue alimentar adequadamente nem a si nem a seus filhos, que estudam (e se alimentam) em escolas públicas do Guará.

A frase de Nayane, completa, é ainda mais aterradora, e dá dimensão monstruosa aos dados frios e distantes do levantamento realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), com execução em campo do Instituto Vox Populi: “Não é todo mundo que tem condição de comprar coisa boa pra casa, teve aumento de tudo, o óleo está a dez reais, o gás teve aumento grande”. Nayane não está se queixando por não conseguir comprar carne ou iogurte. Ela se queixa do preço de um item mais que básico da cesta, o óleo de soja. Para Nayane, o óleo de soja deixou de ser item da cesta básica e se tornou “coisa boa pra casa”.

Segundo o levantamento, ao qual o site do Sinpro teve acesso, dois anos depois do início da pandemia levaram o Brasil de volta ao mapa da fome em seu pior nível. Os dados foram obtidos entre novembro do ano passado e abril deste ano, período em que começou a ser pago o Auxílio Brasil, que substituiu o Bolsa Família. As entrevistas foram realizadas em 12.745 lares de 577 municípios, em áreas urbanas e rurais. O nível de insegurança alimentar foi medido pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, metodologia empregada pelo IBGE.

Nesta terrível realidade para milhões de brasileiros, de crise econômica exacerbada por uma pandemia sem precedentes na história da humanidade, graças à vacinação foi possível o retorno às aulas presenciais, e se não fossem essas aulas presenciais, muitas crianças do Distrito Federal não teriam nenhuma refeição. É o caso dos dois filhos de Nayane: “Tivemos muita dificuldade por conta da pandemia. Quando ela começou, as crianças estavam sem aulas, meus filhos estudando em casa, e não tinha alimentação adequada [para eles].”

Outra mãe ouvida por nossa reportagem, Luiza, que tem 5 filhos, sintetiza a importância da escola para essas famílias em situação de extrema pobreza: “Meus filhos, eu faço questão de eles ir (sic) pra escola, se eles não for (sic), eles perde (sic) uma refeição. Tem vezes que a gente vai dormir sem jantar”. Os filhos de Aleandre só contam com a alimentação da escola: “Meus filhos saem de manhã sem ter o que comer. Eles não passam necessidade porque merendam na escola, é onde eles se alimentam. “

A pesquisa publicada nesta quarta-feira revela outro lado das famílias que passam fome: 15,9 milhões de pessoas, ou 8,2% dos entrevistados, sentem vergonha, tristeza ou constrangimento pelo uso de meios que ferem a dignidade para conseguir colocar comida na mesa. Somos seis em cada dez brasileiros em situação de fome, e seis em cada dez domicílios sem acesso pleno à alimentação. Os brasileiros com algum grau de insegurança alimentar são 125,2 milhões (para se ter uma ideia, o IBGE estima que a população brasileira em 2022 seja de 216,5 milhões). Insegurança alimentar é um conceito que abarca desde os indivíduos que têm risco de passar fome em um futuro próximo, até quem não tem alimento na mesa, passando por aqueles que restringem a quantidade/qualidade de comida na mesa.

 

A culpa é do Bolsonaro

As mães que deram seu depoimento para esta reportagem foram unânimes em reconhecer o atual governo como problema. Todas apontaram a carestia como um dos fatores que as levaram à fome: “Tudo aumentou, tudo ficou mais caro, você vai pro comércio não compra mais nada”, diz Aleandre, que completa: “ficou ainda mais difícil pra gente, como mãe, sustentar a casa. A gente que é classe baixa, a gente passa muita necessidade, e não temos comida direito, não temos água, luz. É uma dificuldade a cada dia que a gente tem que vencer.”

Maria da Cruz corrobora: “Depois que esse presidente entrou, eu não sei o que é comer carne. A maioria da comida (sic) que entra na minha casa é doação. Antes a gente podia comer um quilinho de carne com osso de vez em quando. Agora, nem isso.” Carmélia desenha o que todos os brasileiros que frequentam supermercado já identificaram – mas que, no caso dela, se traduz em falta de comida: “Antes, com 100 reais, enchíamos o carrinho de compras. Agora, voltamos com 5 quilos de arroz, uma lata de óleo, 3 quilos de feijão, uma mortadela pequena e olhe lá. A maioria das crianças da nossa comunidade se alimenta na escola”.

Luiza, que é mãe de cinco filhos, explica a privação, consequência da carestia: “Antigamente, a gente fazia três refeições, hoje a gente faz duas, e tem vezes que é só uma refeição no dia. Tem vezes que a gente deixa de comprar outras coisas, porque só pensamos em alimentação, não sobra dinheiro pra mais nada”

 

Negros, mulheres e mães solteiras sofrem mais

Segundo a pesquisa, a fome é maior em lares chefiados por mulheres com crianças com menos de 10 anos, pretos, pardos e pessoas com menor escolaridade. E, mais uma vez, as palavras frias e neutras tomam força no depoimento de Renata: “Quem mais sofre são as mães solteiras, que não têm renda e não podem trabalhar porque não têm com quem deixar os filhos, uma babá é caro, tudo se tornou caro, como elas fazem pra sobreviver com essas crianças se elas não podem trabalhar?”

O salário mínimo em 2022 é insuficiente para garantir segurança alimentar. Segundo o levantamento, em 2020, os brasileiros que moravam em lares com renda maior que um salário mínimo não conviviam com a fome. Agora, 3% dos lares com esse perfil têm os moradores em situação de fome, outros 6% lidam com algum grau de restrição de alimentos e 24% (quase um quarto dos entrevistados) não conseguem manter qualidade adequada da alimentação.

 

Fome, grilagem e milicianos

Some à neutra “insegurança alimentar” o drama de várias famílias que sofrem com a exploração de milicianos e grileiros nas áreas de extrema vulnerabilidade social: “Até sexta, tenho que juntar o dinheiro pra pagar à mulher do lote, senão eu perco tudo. Então, eu pego o dinheiro da minha passagem e compro um pão pras crianças tomarem café. Se atrasar [o pagamento das parcelas do lote], a moça já vem reclamar, porque não quer receber “descontado”. A gente tem que pedir a ajuda do Senhor e ir vencendo.” O depoimento não será identificado por motivos óbvios.

A diretoria colegiada do Sinpro lembra que o único sucesso que esses números e essas realidades demonstram é o sucesso das políticas neoliberais e genocidas, de extermínio do Estado de bem estar social e dos brasileiros socialmente vulneráveis, resultado da ação dos governos, distrital e federal, que levaram o país a esta situação.

“Não é verdade que está tudo bem. E é sobre isso”, diz Letícia Montandon, diretora do Sinpro.

 

Texto feito com a colaboração da diretora Presilina Spindola