CUT comemora 35 anos em sessão solene na Câmara dos Deputados

Os 35 anos da Central Única dos Trabalhadores (CUT) foram comemorados, em Brasília, com uma sessão solene, na Câmara dos Deputados, realizada na manhã desta segunda-feira (27). A Central foi fundada em 28 de agosto de 1983, em São Bernardo do Campo, São Paulo, durante o I Congresso Nacional da Classe Trabalhadora (I Conclat).

35 anos da CUT: Sessão solene na Câmara dos Deputados Foto: Karina Zambrana

Todas as cadeiras do Plenário foram preenchidas por lideranças sindicais atualmente atuantes e fundadoras da maior central sindical do país, e quinta do mundo. A presidência e a sessão foram conduzidas de forma compartilhada pelo ex-presidente da CUT Nacional e atual deputado federal, Vicentinho (PT-SP), e pela ex-presidenta do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal e atual deputada federal, Érika Kokay (PT-DF).
A sessão comemorou também o 39º ano da Lei da Anistia, sancionada em 22 de agosto de 1979. Mais do que um momento solene de comemoração, a sessão serviu para denunciar uma série de retrocessos em curso no Brasil. Após a exibição de um pequeno filme com o resumo da história da criação da CUT, que só foi possível após o Congresso Nacional aprovar e o último presidente militar da República, João Figueiredo, ter sancionado a Lei da Anistia.
Além dos deputados Vicentinho e Érika Kokay, compuseram a Mesa, Carmen Helena Ferreira, vice-presidenta da CUT Nacional; Clelia Hunke da Silva, vice-presidenta da Associação Brasileira de Anistiados Políticos (Abap); Manoel Bahia, Plenária Paulista Anistia e Reparação; Rosa Simiano dos Santos, representante da Associação dos Aposentados, Pensionistas, Anistiados da Petrobras e Subsidiárias do Estado do Rio de Janeiro (Astap); Rodrigo Rodrigues, presidente interino da CUT Brasília.
Ataque à Comissão de Anistia
Rosa Simiano denunciou uma série de ataque que os anistiandos e anistiados da ditadura militar estão sofrendo na Comissão de Anistia, no Ministério da Justiça. “Quero avisar aos anistiados e anistiandos que estamos sofrendo um ataque muito grande na Comissão de Anistia do tenente-coronel do Exército Gilson Libório. Ele está torturando com a caneta. A nossa situação é gravíssima. Ele está como secretário executivo e assina as portarias. E quando vai para o ministro interino assinar, ele é quem indefere. E, agora, está acontecendo assim: não vai nem para julgamento mais. Eles estão indeferindo até o que já está deferido. E pode ser preso e torturado, como foi o caso de uma anistiando chamado Edson, que foi preso e torturado, com tudo comprovado, foi anistiado com nove votos a dois, e chegou lá na comissão o Gilson Libório indeferiu”, denunciou.
Clélia endossou a denúncia e pediu às lideranças sindicais mais foco na luta e disciplina para lutar contra esse tipo de ingerência. “Não podemos ser dispersos. Temos de ter foco e disciplina e nos unirmos contra isso porque nunca foi fácil e no momento que vivemos no país, dentro do Ministério da Justiça e dentro da Comissão de Anistia teremos de ter essa conduta de união, organização e de foco naquilo que queremos”, disse.
Rodrigues, presidente interino da CUT Brasília. Foto CUT Brasília

Anfitrião denuncia uso das eleições para lavar o golpe de 2016
Rodrigo Rodrigues, presidente interino da CUT Brasília e denominado anfitrião da comemoração pelo presidente da Mesa, Vicentinho, elogiou a atuação dos dois parlamentares e também denunciou o fato de que a Câmara dos Deputados estar sempre de portas fechadas para a classe trabalhadora. “Hoje nos foi permitido entrar nesta Casa com nossas camisetas, ostentando as marcas de nossas entidades. Mas, normalmente, temos enormes dificuldade para adentrarmos aqui e falarmos nesta tribuna. Temos enormes dificuldades para falarmos com os parlamentares e participarmos das audiências públicas porque o golpe contra a democracia cala a voz da classe trabalhadora e impede nossa participação”, disse.
Ele lembrou que a CUT nasceu para defender a democracia, lutando pela redemocratização do país e foi protagonista na luta por direitos da classe trabalhadora. “E permanece hoje. Comemora seus 35 anos nesta mesma luta, contra o golpe. A luta de hoje retorna aos princípios da Central Única dos Trabalhadores, na década de 1980, que volta a defender como pauta principal a democracia. Estamos agora num processo eleitoral no qual temos como principal candidato, aquele que é o mais aclamado pelo povo, lidera as pesquisas de intenção de voto, que possibilitou a melhoria de vida de todos os brasileiros, está preso, condenado injustamente, sem nenhuma prova, unicamente para ser impedido de concorrrer às eleições.
Rodrigues relembro ou golpe de Estado de 2016 e seus prejuízos para o país e o protagonismo da CUT na luta contra o avanço do conservadorismo no Brasil. “Um golpe que esta Casa teve intensa participação. Como não temos aqui uma grande bancada representativa de parlamentares, como são os deputados Vicentinho e Erika Kokay”, disse. E denunciou a pretensão dos políticos que governam o Brasil à revelia da vontade do povo.
“Querem lavar o golpe de Estado dado em 2016, impeachmando a presidenta Dilma injustamente sem nenhum crime cometido, no vergonhoso dia 29 de agosto de 2016, exatamente há 2 anos, quando o país assistiu um show de horrores acontecer. Querem lavar o golpe com eleições de 2018, retirando do páreo aquele que é o representante da classe trabalhadora. Não podemos permitir. Por isso hoje, nesta sessão solene que homenageia a CUT, fiz questão de vir de camiseta vermelha cuja cor, muitas vezes, me impede de entrar, mas quero agora ostentar outra camiseta que é a nossa principal bandeira de luta no principal momento e de quem luta pela democracia, que é a camiseta que pede Lula Livre! Queremos Lula livre! Queremos Lula Presidente!”
Foto de Karina Zambrana

Lula, Meneghelli e Vicentinho e o sindicalismo cidadão
Os deputados Vicentinho e Érika Kokay lembraram da história da CUT e da importância de sua história para o Brasil e para a classe trabalhadora do mundo inteiro . Ambos destacaram que a existência da CUT não agrada e nem nunca agradou aos empresários estrangeiros e à elite que apoiou o golpe no país. Lula, Jair Meneghelli, Vicentinho, primeiros dirigentes nacionais da CUT tinham a missão não só de lutar contra os planos econômicos e em defesa dos direitos trabalhistas, mas também cotnra a ditadura e em defesa da democracia.
O ex-presidente Lula foi o primeiro presidente da CUT. Jair Meneghelli, o segundo. O seu mandato é considerado o do período das grandes greves em todo o país. Na gestão de Vicentinho, a CUT foi o centro da resistência contra o neoliberalismo e a missão de introduzir na sociedade brasileira o sindicalismo cidadão. Na sua gestão, foi criado o Fórum Nacional de Lula, a Central de Movimentos Populares, o fortalecimento dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais entre outros. Era um período de preocupação com os altos índices de desemprego.
Érika disse que Vicentinho foi professor de cada uma das lideranças sindicais do Brasil. “Aprendemos o caminho da luta com Vicentinho. Aprendemos o que é abnegação e generosidade de um companheiro dirigente sindical que fez algumas greves de fome. Ele deixou de comer o pão para que nós pudéssemos ter fartura de pão. Lembro de Vicentinho, aqui na Esplanada, juntamente com o presidente da CUT do Distrito Federal, em greve de fome para mostrar ao Brasil que deveríamos respeitar a Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e não termos a demissão imotivada, a demissão coletiva, que ainda hoje fere este Brasil. Na época, eu presidia o Sindicato dos Bancários de Brasília e lembro que Vicentinho organizou uma belíssima manifestação nesta Esplanada na comemoração da imortalidade de Zumbi dos Palmares”.
Ela mencionou as milhares de marcas que o povo brasileiro carrega dos maus momentos históricos. “A gente tem tantas marcas de Casas Grandes e Senzalas, mas nas nossas veias corre o sangue de Zumbi dos Palmares e de Dandara. E Vicentinho fez a CUT marchar com Zumbi dos Palmares, lembrando que esse povo não aceita os ferros dos grilhões da escravidão, ou seja, o aço das balas que assassinam nossos jovens negros e pobres e que algemam os pulso dos nossos jovens. Vicentinho introduziu na CUT a necessidade de os trabalhadores libertarem o ser humano que carregam dentro de sim. Por isso, ninguém enfrentou mais o trabalho escravo e infantil do que Vicentinho”, disse a deputada.
Ele é refundador do movimento sindical no Brasil. Foi membro da comissão de mobilização na histórica greve de 1980 e, um ano após esse fato, foi eleito vice-presidente de Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional, em 1982, dirigiu com outros companheiros, em 1983, a primeira greve geral do Brasil após o golpe militar de 1964: uma greve de solidariedade aos petroleiros.
Outras lideranças do movimento sindical e pela anista também discursaram, como a vice-presidenta da CUT Nacional, Carmen Ferreira, que lembrou do protagonismo de Kokay, que presidiu a CUT Brasília. “É incontestável o papel da CUT nesses 35 anos. Lutamos por democracia desde o nosso nascimento. Lutamos por direitos, trabalhos decentes, inclusão de jovens, mulheres, indígenas, sem-terra, lutamos muito neste país. Organizamos os setores público e privado, urbanos e ruais, ao longo dessa história. E produzimos o mais importante que a luta de classes poderia ter produzido: o maior presidente da República da história deste país, Luiz Inácio Lula da Silva”, disse.
E continuou: “Produzimos o maior líder político do país. Para nós, nada mais é importante do que retomar a democracia e retomar a democracia significa ter Lula livre para que a gente possa votar naquele que nós, da classe trabalhadora, escolhemos”. Ela apresentou a “Plataforma da CUT para as Eleições 2018: Democracia, direitos e soberania”. Além dela Carmen e outros dirigentes da CUT Nacional, esteve presente Antônio Lisboa, secretário de Relações Internacionais e membro eleito, representante dos trabalhadores, no Conselho de Administração da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A CUT, a luta professores do DF e as reformas neoliberais do golpe
Na sessão, a categoria docente do Distrito Federal, uma das entidades fundadoras da Central, também esteve presente. Várias(os) dirigentes do Sinpro-DF participaram da comemoração. Rosilene Corrêa, diretora do sindicato, lembra que a CUT foi criada num processo de luta contra a ditadura militar que culminou com a redemocratização do país, quando a classe trabalhadora compreendeu a necessidade de organizar uma central sindical que realmente a representasse”, disse.
Ela lembrou que o processo de reconquista dos sindicatos se iniciou um pouco antes, derrubando as direções interventoras que a ditadura havia colocado e das lutas tanto econômicas – dos reajustes salariais, das condições de trabalho – e políticas – de reconquista da democracia, direito ao voto. O Sinpro-DF, por exemplo, foi refundado em 1979 após mais de duas décadas sob intervenção.
“A retomada ocorreu juntamente com a percepção de que a luta de cada sindicato, de cada categoria, por mais numerosa e forte que seja, se essa luta estiver dissociada da luta política geral não conseguirá fazer valer a grande força que a classe trabalhadora tem que é o seu número. A criação da CUT é justamente quando a classe trabalhadora percebe que não basta ter um grande número, e sim transformar esse grande número em grande organização, articulação política, para fazer valer suas demandas específicas e gerais”, disse Rosilene.
Yuri Soares, também dirigente sindical do Sinpro-DF e da CUT Brasília, lembra que a criação da CUT foi uma vitória importante naquele momento histórico. “Rompeu com o sindicalismo tradicional, atrelado ao Estado, que havia sido criado na época de Getúlio Vargas. Era um sindicalismo burocratizado. A CUT surgiu com a proposta de um novo sindicalismo: de base, autônomo, livre, independente, um sindicalismo que, de fora do Estado, possa influenciar o Estado e não o que ocorria anteriormente”.
Ele considera que, assim como naquele momento foi necessária a criação de uma organização sindical, independente, autônoma e livre para defender os interesses da classe trabalhadora, hoje, mais do que nunca a CUT se faz nescessária. “No caso dos professores, todas as greves que realizamos, sempre contamos com o apoio ativo da CUT que mobiliza, até mesmo, os seus sindicatos filiados em solidariedade de classe. No caso do DF, é um exemplo, como é o caso dos trabalhadores rodoviários que, por diversas vezes, paralisaram suas atividades em solidariedade à nossa greve da rede pública de ensino”, lembra.
Soares também destacou a solidariedade sindical dos bancários que estão sempre na luta com a categoria. “A CUT é necessária para nos organizarmos contra o golpe. Tivemos uma série de retrocessos colocados pelo governo golpista, no último período, como a Emenda Constitucional 95/2016 é algo que ataca os investimentos públicos e congela os investimentos em educação por duas décadas, ou seja, por toda uma geração. A própria reforma trabalhista que ataca os direitos dos trabalhadores e sempre foi defesa da CUT os interesses dos trabalhadores da iniciativa privada como dos servidores públicos”.
O sindicalista afirma que a reforma trabalhista atinge os servidores públicos. “Os economistas afirmam que a massa salarial dos trabalhadores da iniciativa privada está estrangulada pela perda de direitos imposta pela reforma trabalhista e, com isso, o consumo está também estrangulado. Com isso, a economia não cresce. E se a economia não cresce, os impostos também não crescem e, consequentemente, os reajustes dos servidores públicos estão ameaçados porque é uma cadeia de eventos: o trabalhador da iniciativa privada não consome, com a queda do consumo o comércio e a indústria têm sua economia estrangulada, aí os impostos arrecadados pelo governo são menores, portanto, os aumentos salariais ficam comprometidos”, explicou.
Confira, a seguir, um vídeo institucional com a importante história da CUT para o Brasil, a América Latina e o mundo.

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