Sinpro repudia uso do FC para cobrir o rombo do BRB e denuncia os riscos à educação, saúde e segurança pública
O Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF) não pode pagar a conta do rombo do Banco de Brasília (BRB). Esse é o entendimento do Sinpro, que manifesta profunda preocupação com as tentativas do governo Ibaneis Rocha-Celina Leão de utilizar recursos públicos, patrimônio estatal e mecanismos vinculados ao FCDF para cobrir o rombo deseixado no banco público, após a crise criada por meio de operações ilegais e irregulares com o Banco Master.
No entendimento do sindicato, a medida ameaça recursos financeiros federais destinados à educação, à saúde e à segurança pública e transfere à população os prejuízos das fraudes, falcatruas e demais decisões políticas e administrativas ilegais e irresponsáveis, tomadas sem transparência e sem controle público adequado.
A coordenadora da Secretaria de Finanças do Sinpro, Márcia Gilda, afirma que a utilização do Fundo Constitucional para garantir aportes ao BRB representa ameaça direta às áreas essenciais do Distrito Federal. “O Fundo Constitucional é subsidiário da educação, da saúde e da segurança pública. Não pode ser utilizado para cobrir um prejuízo causado por aqueles que deveriam saber gerir o patrimônio de Brasília. Se esse dinheiro for aportado, os prejuízos para a população serão enormes e colocarão em risco a manutenção dessas três áreas fundamentais para o DF”, afirma.
A dirigente sindical destaca que o prejuízo não pode ser transferido para a população enquanto os responsáveis pela crise permanecem sem responsabilização. “Reafirmamos que o Fundo Constitucional é da saúde, educação e segurança e quem deve arcar com o prejuízo causado ao BRB são aqueles que inviabilizaram o banco público para favorecer seus interesses privados, não fizeram a gestão decente e utilizaram o banco público como recurso para fazer politicagem e atender aos interesses dos amigos do andar de cima”, ressalta.
Entenda o caso
Operação entre BRB e Banco Master foi aprovada em 10 minutos
Após analisar todos os acontecimentos relacionados à crise do BRB, o Sinpro afirma que essa crise não surgiu do nada e que já havia a intenção do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) de utilizar o FCDF para cobrir o rombo. Em março de 2025, o BRB anunciou a aquisição de 58% do capital do Banco Master, instituição privada controlada pelo empresário Daniel Vorcaro. A operação previa a compra de 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do banco privado.
A operação precisou de autorização da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) e foi aprovada, em agosto de 2025, em apenas 10 minutos, sem apresentação de documentação técnica completa pelo BRB, conforme reconhecido posteriormente pelo próprio senador Izalci Lucas (PL).
Em setembro de 2025, após 5 meses de análise, o Banco Central rejeitou a aquisição e denunciou o risco sistêmico e o modelo de captação do Master. O problema é que, quando a rejeição ocorreu, o estrago já havia sido feito: a carteira de créditos irregulares (títulos podres) do Master já havia sido incorporada ao BRB, ou seja, o Master recebeu o aporte de R$ 12,2 bilhões do banco público, por ordem do governador Ibaneis, e a negociata gerou um rombo para o banco público de mais de R$ 5 bilhões.
Na ocasião, o Ibaneis já pretendia, segundo informações da imprensa, usar o FCDF, responsável pelos recursos para a manutenção dos serviços da capital, para cobrir o rombo criado por ele mesmo.
Operação Compliance Zero revelou fraude massiva
Um estudo da Assessoria de Relações Governamentais do Sinpro aponta que, após absorver os ativos do Master, a carteira de crédito do BRB saltou de R$ 37 bilhões, em setembro de 2024, para R$ 57 bilhões, em setembro de 2025. Em novembro do ano passado, a Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Compliance Zero. O dono do Master, Daniel Vorcaro, foi preso e o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afastado e demitido. A investigação revelou indícios de fraude massiva, incluindo créditos sem lastro, manipulação de balanços e utilização de “laranjas” para ocultar participação acionária no BRB por meio de fundos ligados ao grupo Reag,
O escândalo atinge diretamente o núcleo político do governo Ibaneis. Foram revelados contratos de R$ 38 milhões entre o escritório Ibaneis Advocacia e um fundo ligado à Reag Trust, instituição investigada no caso e que envolve nomes como Nelson Tanure e João Carlos Mansur, que ajudaram a maquiar as contas do Master.
Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, voltou a ser preso em abril de 2026 pela PF sob suspeita de recebimento de R$ 146 milhões em propina para favorecer o Banco Master. Posteriormente, o Master foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central.
Escândalo atinge núcleo político do governo Ibaneis
O escândalo transformou Ibaneis Rocha no principal alvo político do caso. A revelação, publicada pelo jornal O Globo, de que o escritório Ibaneis Advocacia e Associados firmou contrato de R$ 38,13 milhões com um fundo da Reag Trust — instituição investigada no contexto das fraudes do Master — provocou o rompimento formal do PL com o então governador.
O ex-governador do DF nega conhecimento do contrato e alegou o afastamento do escritório desde 2018. O problema chegou no Supremo Tribunal Federal (STF), e o ministro André Mendonça se tornou relator das investigações relacionadas ao contrato. Além disso, a Procuradoria-Geral do Distrito Federal (PGDF) passou a ser investigada por causa de possíveis pagamentos de precatórios do GDF ao escritório.
Em 28 de março de 2026, Ibaneis formalizou a renúncia ao cargo de governador do DF para disputar o Senado sem solucionar o rombo do BRB criado em sua gestão. Dois dias depois, a sua vice, Celina Leão, assumiu o comando do GDF e continua na mesma política de usar o patrimônio público para pagar a fraude privada contra o BRB.
Governo tenta estruturar pacote bilionário de socorro
Mesmo diante da gravidade das denúncias, o GDF passou a estruturar um pacote bilionário com recursos públicos para cobrir o que causou ao BRB. Nos últimos dias de mandato, em 24 de março de 2026, Ibaneis formalizou pedido de R$ 4 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A CLDF autorizou crédito de até R$ 6,6 bilhões junto ao FGC ou a consórcios de bancos. Para isso, o governo colocou como garantia ações da Companhia de Água e Esgoto de Brasília (Caesb), da Companhia Energética de Brasília (CEB)e do próprio BRB, além de nove imóveis públicos do DF, incluindo a área da Serrinha do Paranoá, que já estava na mira da especulação imobiliária, cujo uso chegou a ser suspenso pela Justiça porque é área de proteção ambiental.
O Distrito Federal encerrou 2025 com déficit de R$ 1 bilhão e sem capacidade de obter garantias do Tesouro Nacional. Em abril de 2026, o BRB anunciou fundo de até R$ 15 bilhões, gerido pela Quadra Capital, para tentar securitizar os ativos herdados do Banco Master.
Em 1º de maio de 2026, Celina Leão se reuniu com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e, após esse encontro, descartou a liquidação do BRB. Ela afirmou que “a solução é técnica” e informou que o GDF aguardava aval do Tesouro Nacional para operação de R$ 6,6 bilhões, além de estudar a venda de dívida ativa do DF.
Para o Sinpro, é inaceitável que patrimônio público, serviços essenciais e recursos que deveriam fortalecer políticas sociais sejam usados para reparar consequências de uma operação conduzida sem responsabilidade e transparência.
Base governista bloqueou CPI por meses
Mesmo diante da dimensão do rombo e da crise, a base governista na Câmara Legislativa do DF (CLDF) bloqueou por meses a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do BRB-Master.
O estudo encomendado pelo Sinpro aponta que Wellington Luiz (MDB), presidente da CLDF, controlou a pauta e travou a instalação da CPI e que a base de Ibaneis, formada por 17 dos 24 deputados distritais, atuou para bloquear investigações.
O pacote de socorro ao BRB foi aprovado pela CLDF sob intensa contestação judicial, com liminares suspendendo partes da lei sendo alternadamente concedidas e derrubadas. A oposição, formada por parlamentares do PSOL e do PT, dentre eles Gabriel Magno, Ricardo Vale e Chico Vigilante (os três do PT), Fábio Félix e Max Maciel (do PSOL), cobrou responsabilização desde o início do escândalo.
O estudo encomendado pelo Sinpro alerta também para o balanço de 2025 do BRB que não foi publicado até o fim do prazo legal de 31 de março de 2026, o que amplia a falta de transparência sobre a real dimensão da crise e do rombo.
IPREV e aposentadorias dos servidores podem ser atingidos
Outro ponto considerado crítico pelo Sinpro envolve o Instituto de Previdência dos Servidores do DF (IPREV-DF), que detém 12,3% das ações do BRB e ocupa assento no Conselho de Administração do banco.
O IPREV participou — ou se absteve — de decisões estratégicas relacionadas ao Banco Master e, atualmente, enfrenta perdas expressivas. Em dezembro de 2025, o instituto calculava seu portfólio no BRB em R$ 531 milhões. Após a queda de mais de 50% das ações desde a Operação Compliance Zero, o valor tornou-se muito inferior.
O Sinpro avalia que há conflito de governança e cobra transparência sobre como o representante do IPREV votou em cada reunião do Conselho que tratou do Banco Master e do pacote de socorro.
Além disso, a lei de capitalização do BRB, sancionada em 10 de março de 2026, teve vetado por Ibaneis Rocha o artigo que garantia ao IPREV 20% do valor obtido na transferência de bens do GDF ao banco. Na avaliação do sindicato, as servidoras e os servidores públicos ficaram sem proteção expressa.
O documento do Sinpro aponta que a Lei Complementar (LC) 1.051/2025 passou a permitir que o IPREV utilize toda a rentabilidade do Fundo Solidário Garantidor (FSG) para pagamento de aposentadorias e pensões, o que amplia o impacto da desvalorização das ações do BRB sobre a capacidade de pagamento dos benefícios.
O Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) determinou que o IPREV apresente esclarecimentos sobre riscos patrimoniais e governança do FSG.
Crise ameaça educação, salários e crédito consignado
O Sinpro afirma que a crise do BRB-Master afeta diretamente professoras e professores e orientadoras e orientadores educacionais da rede pública do DF. A entidade lembra que o GDF acumula denúncias de não repasse da contribuição patronal ao Instituto de Assistência à Saúde dos Servidores do Distrito Federal (Inas), o que compromete o Fundo de Assistência à Saúde dos Servidores do Distrito Federal.
Além disso, ao encerrar o ano de 2025 com déficit de R$ 1 bilhão e com o aprofundamento da crise fiscal, o DF apresenta um cenário de arrocho salarial. Profissionais em regime de contratação temporária enfrentaram atrasos salariais em 2026.
O estudo do Sinpro aponta ainda para o problema da renúncia fiscal do DF, que cresceu de R$ 1,9 milhão, em 2019, para R$ 10,2 milhões na previsão para 2026, enquanto o orçamento da educação segue sacrificado. O documento mostra que o orçamento para valorização da carreira do magistério é, historicamente, o primeiro a ser contingenciado em crises fiscais.
O sindicato alerta para os impactos sobre o crédito consignado. Uma pesquisa Sinpro com a Universidade de Brasília (UnB) mostra que 58% das professoras e dos professores, bem como das orientadoras e dos orientadores educacionais do DF têm empréstimos consignados e que 42% comprometem mais da metade da renda com dívidas.
Na avaliação da entidade, a instabilidade do BRB pode provocar deterioração das condições de crédito, com juros maiores, prazos menores e restrições de acesso. Também há preocupação com a possibilidade de venda da carteira de consignado do banco, chamada pelo deputado Fábio Félix (PSOL) de “filé mignon”, como forma de compor caixa.
O que o Sinpro defende
Após análise do estudo feito pela de Relações Governamentais do Sinpro e diante da crise, o sindicato defende:
– Transparência total sobre as operações que envolvem o BRB e o Banco Master.
– Divulgação imediata do Balanço completo de 2025 do banco público.
– Instalação e funcionamento efetivo da CPI do BRB-Master na CLDF.
– Proteção integral ao Fundo Constitucional do DF e ao patrimônio público da capital do país.
– Preservação dos empregos e direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores do BRB.
– Responsabilização dos(as) agentes públicos e privados envolvidos no caso BRB-Master.
– Fiscalização do uso das garantias públicas oferecidas pelo GDF.
– Transparência sobre os votos do representante do IPREV no Conselho do BRB.
– Revisão da LC 1.051/2025, que ampliou a exposição previdenciária ao desempenho dos ativos do BRB.
– Regularização da contribuição patronal ao Inas.
– Laudo técnico independente sobre a situação do IPREV pós-crise BRB.
– Monitoramento das condições do crédito consignado da categoria.
– Articulação com outros sindicatos do funcionalismo do DF para ampliar a pressão política sobre o caso.
“O rombo do BRB é resultado de uma decisão política equivocada, tomada sem transparência, que agora ameaça o patrimônio público, a previdência das servidoras e dos servidores e os serviços essenciais de toda a população do Distrito Federal. O Sinpro não aceita que a conta seja paga pelas professoras, professores, orientadoras e orientadores educacionais e nem pelas servidoras e servidores públicos do DF”, reforça Márcia Gilda.
