Governo Celina-Ibaneis abandona EJAIT, provoca interrupção escolar e afasta classe trabalhadora da educação
A Educação de Jovens, Adultos e Idosos Trabalhadores (EJAIT) no Distrito Federal atravessa um projeto de esvaziamento que deixa de fora da educação pública mais de 750 mil brasilienses — cerca de 25,2% da população adulta com 25 anos ou mais — que ainda não concluíram a educação básica. Esse número é da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios/ Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (PDAD/IPEDF) e demonstra que, nesses últimos 8 anos, a gestão Ibaneis-Celina atuou, deliberadamente, para sucatear a rede pública de ensino e, sobretudo, abrir caminho à privatização da EJAIT.
A estrutura definha: das 106 escolas que ofertam a modalidade, apenas três funcionam nos três turnos e somente quatro atendem a todos os segmentos de ensino, enquanto outras barreiras afastam trabalhadoras e trabalhadores da sala de aula. A PDAD/IPEDF revelou que, enquanto Regiões Administrativas (RA) de alta renda ostentam médias superiores a 14 anos de estudo, periferias como Sol Nascente e Pôr do Sol, Cidade Estrutural e Itapoã registram médias de apenas 8 a 10 anos, com concentração de pessoas na informalidade e de mulheres sobrecarregadas pelo cuidado com o lar. Trata-se de cidadãs e cidadãos que dependem, prioritariamente, da oferta pública noturna e territorializada para usufruírem do direito de retomar a vida escolar.
Outra fonte de informações sobre essa realidade são os Anais do VI Seminário Nacional de Formação de Educadores de Jovens e Adultos < https://www.sinprodf.org.br/wp-content/uploads/2026/08/ANAIS-DO-VI-SNF-EJA-2025-em-23-mar-versao-final.pdf>, o qual aponta que a precarização produzida pelo governo Celina Leão-Ibaneis Rocha é aprofundada pelo completo abandono das metas do Plano Distrital de Educação 2015-2024 (PDE). Como é o caso da Meta 09, que trata da oferta integrada à educação profissional: o governo concluiu apenas uma das 23 estratégias previstas. Esse cenário atinge o corpo docente, marcado pela instabilidade: em 2025, professoras e professores do contrato temporário já representavam 39,02% da rede. A ausência de concursos específicos para o turno noturno completa 5 anos, o que compromete a continuidade pedagógica e serve de argumento para a entrega do serviço público à iniciativa privada. Confira nas págs. 132 e 135 do documento.
Privatização e abandono
Dentre outros exemplos, está o caso do Centro Educacional nº 01 de Brasília (CED 01), unidade escolar vinculada ao sistema prisional do Distrito Federal, que atende a aproximadamente 2.400 estudantes por semestre na modalidade EJA e alcança outras 2.700 pessoas, mensalmente, com políticas de remição de pena pela leitura (págs. 278-280 do documento). Esses números evidenciam a dimensão e a relevância social da modalidade e, ao mesmo tempo, expõem os efeitos do sucateamento de uma política pública essencial para a classe trabalhadora, cujo objetivo é a privatização.
O governo Celina-Ibaneis tem um longo histórico de privatizações e, caso Celina seja eleita para o Palácio do Buriti neste ano, a educação estará na mira da privatização. Nesses 8 anos, a dupla privatizou a CEB, transferiu a gestão de espaços públicos à iniciativa privada e iniciou “estudos” para a privatização de serviços de água e saneamento (Caesb), do Metrô e de outros setores. Na educação, enquanto os investimentos nos Ensinos Fundamental e Médio permanecem aquém das necessidades da rede, a EJAIT foi colocada no centro de um processo que pode representar o início do desmonte da educação pública.
Oito anos é quase uma década de não investimento na EJAIT. Nesse período, o governo Celina-Ibaneis pôs em curso a política de esvaziamento de uma modalidade de ensino, que, basicamente, é a única que atende o setor social que sustenta a economia local. O abandono da política de alfabetização de adultos apresenta seus reflexos na evasão (interrupção) escolar, no aumento da reprovação e na exclusão social de milhares de brasilienses.
Plano Distrital de Educação 2015-2025 (PDE)
Uma das formas de demolição da educação pública é o não cumprimento do PDE. Nesses 10 anos da vigência do plano, a promessa de oferta da EJAIT integrada à educação profissional e tecnológica continua apenas no papel. A qualificação profissional, que deveria ser o principal estímulo para que a trabalhadora e o trabalhador retomassem os estudos e freassem o esvaziamento das turmas, não foi implantada. Não há ampliação de vagas, busca ativa, estruturação de cursos técnicos integrados e nenhum esforço do governo Celina Leão para cumprir o que está previsto na lei.
A trabalhadora e o trabalhador que retomam os estudos encontram somente um ensino básico sem a formação técnica que lhe garantiria melhores condições de emprego e renda, o que contribui, diretamente, para a evasão escolar e o esvaziamento da modalidade. Outra limitação é a falta de bolsa de estudos financiada pelo Governo do Distrito Federal (GDF) para a maioria do atual público-alvo das matrículas da EJAIT, muitos acima dos 40 ou 50 anos, que tiveram seus estudos interrompidos pelas exigências do mundo do trabalho.
Estatística e omissões
A ausência de diagnósticos precisos baseados em dados oficiais é outra falha grave. O governo Celina Leão não sabe quantas trabalhadoras e trabalhadores, especialmente nas periferias do DF, estão fora da escola por falta de oferta de vagas. Não há busca ativa, não há censo educacional específico e não há planejamento para atender à população que pode chegar a mais de 1 milhão de pessoas sem o Ensino Médio completo. Sem dados confiáveis, o poder público atua no escuro e a omissão se torna a regra.
“Temos de pegar sempre o número da base porque no IPEDF não existe um censo com o número de pessoas sem Ensino Médio dos 18 aos 25 anos’’, afirma Dorisdei Valente Rodrigues, professora da rede pública de ensino do DF e membra do Grupo de Trabalho Pró-Alfabetização do Distrito Federal (GTPA).
Infantilização de adultos e falta de dados
A realidade é preocupante também nas relações pedagógicas dentro das escolas. As turmas noturnas são tratadas como extensões das turmas do diurno, sem qualquer adequação ao público trabalhador. Os espaços coletivos não refletem a identidade dos estudantes. Murais com temas infantis, atividades desconexas à faixa etária e a completa falta de ambiência que dialogue com a realidade de quem passa o dia no trabalho são a prova de que a EJAIT não é levada a sério. O trabalhador é tratado como estudante infantilizado, quando deveria ser acolhido como sujeito de direitos.
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) tem focado suas métricas no Ensino Médio regular. Os resultados já são preocupantes mesmo com todos os investimentos direcionados a essa etapa. Tudo indica que a situação da EJAIT é infinitamente pior, mas o governo não permite que se saiba por quê, não avalia, não publica e não presta contas sobre essa modalidade. A falta de transparência favorece a continuidade do descaso.
Outros impedimentos: segurança, transporte e políticas de incentivo
Para muitos estudantes, o simples ato de chegar à escola já é um desafio monumental. Moradores de áreas à margem da periferia e outras regiões carentes do DF enfrentam a falta de transporte público regular e, em muitos casos, a ausência de serviços básicos, como energia elétrica, água encanada em suas próprias casas, bem como segurança pública nas ruas.
“Assim como o governo federal criou o Pé-de-Meia para incentivar a permanência no ensino regular, o Distrito Federal precisa de um programa equivalente para a EJAIT, modalidade que segue sem qualquer auxílio financeiro. Além da falta de incentivos e do limite do programa federal aos jovens de até 24 anos, as trabalhadoras e os trabalhadores da EJAIT vivem marginalizados nas periferias — em locais sem saneamento básico, água tratada ou energia elétrica. Para estudar à noite, enfrentam a ausência de transporte público, além da falta de iluminação e de segurança. Essa é a realidade do ensino noturno no DF, repleta de barreiras para quem precisa trabalhar e quer estudar, por isso falamos em interrupção e não evasão”, denuncia Dorisdei.
A ausência de transporte público no período noturno, a insegurança em razão, dentre outras coisas, da falta ou da iluminação precária e a ausência de creches ou de suporte para os filhos das trabalhadoras e trabalhadores criam uma barreira quase intransponível para o estudo. Sem incentivos essenciais, como bolsas de permanência, e diante de escolas sem secretaria aberta à noite, as pessoas que conseguem se matricular enfrentam obstáculo atrás de obstáculo. O resultado dessa sucessão de descasos não poderia ser outro: a interrupção (chamada de evasão) forçada dos estudos de milhares de pessoas da EJAIT.
O ensino noturno – frequentemente única opção disponível na rede pública – tornou-se inviável para a maioria dos estudantes. O governo insiste em não ofertar turmas no período diurno, empurrando trabalhadoras e trabalhadores para uma rotina marcada pela exaustão e pelo abandono dos estudos. “No DF, apenas duas escolas oferecem a modalidade nos três turnos, sendo uma em Taguatinga e outra na L2 Sul. Em Ceilândia, há somente uma escola com oferta no período vespertino, o que é insuficiente para atender à enorme população sem Ensino Médio da região. Diante dessa realidade, torna-se urgente mapear e identificar a real demanda por escolarização no Distrito Federal, garantindo não apenas o acesso, mas também as condições concretas para a permanência dos estudantes na sala de aula”, complementa a professora.
Esse quadro mostra que a EJAIT não é prioridade no governo Celina-Ibaneis. Queda nas matrículas, altos índices de abandono e reprovação, bem como ausência de políticas integradas revelam a omissão e o abandono, marcados pelo preconceito estrutural contra a educação de jovens, adultos e idosos trabalhadores e pelo avanço do projeto de privatização. Um exemplo é a atuação de escolas privadas de ensino básico, como o Instituto Universal Brasileiro (IUB) e o Centro de Educação Profissional (Cened), na oferta de qualificação profissional no ensino regular, no sistema prisional com proposta de remição de pena e na EJAIT. A propaganda do Cened, inclusive, aparece nas páginas do sistema penitenciário. Ao sucatear a EJAIT e relegá-la a uma política de segunda classe, o governo cria as condições para transferir à iniciativa privada uma responsabilidade que é do Estado. Enquanto isso, trabalhadoras e trabalhadores pagam a conta com a negação de um direito fundamental.
“Isso é preocupante porque o esvaziamento da EJAIT e a falta de investimentos na educação, na saúde e em outros serviços públicos não são fenômenos naturais, isolados ou acidentais: são parte de um projeto político. Resultam de uma sucessão de omissões e políticas mal-intencionadas que tratam a educação de jovens e adultos como uma modalidade de segunda classe”, denuncia a diretoria colegiada do Sinpro.
É urgente que o Governo do Distrito Federal (GDF) cumpra integralmente o PDE com a oferta imediata da EJAIT integrada à qualificação profissional; adote e amplie a bolsa “Pé-de-Meia” localmente para todos os estudantes da modalidade, sem limite de idade; realize censo e diagnóstico preciso da demanda real por vagas; garanta transporte público e oferta de turmas no período diurno; promova a adequação estrutural e pedagógica das escolas para acolher o trabalhador com dignidade; e crie canais permanentes de diálogo com a comunidade escolar para a construção participativa de políticas públicas efetivas. Educação básica é direito, e não privilégio.
Edição: Carla Lisboa
