Educadores da rede pública de ensino do DF sofrem nova tentativa de censura
Nessa segunda-feira (19), o Centro Educacional (CED) 06 do Gama foi alvo de um ataque político da extrema direita em uma ação que buscou censurar e constranger direção, professoras, professores, orientadores e orientadoras educacionais, estudantes, enfim, toda a comunidade escolar, bem como desmoralizar a escola pública e produzir vídeos político-partidários de impacto para redes sociais nas vésperas do segundo turno das Eleições 2026. Uma das protagonistas da ofensiva foi a deputada distrital recém-eleita e ainda não diplomada, Estefane Sampaio (PL), ligada ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
Acompanhada de outras pessoas, ela entrou na unidade, filmou o diretor e o submeteu a um interrogatório sobre uma suposta atividade político-partidária na escola com o objetivo de produzir vídeos com os cortes definidos por sua equipe para postar em suas redes sociais. O episódio evidencia uma investida política e repressora contra a comunidade escolar e a autonomia da educação pública.
Esse tipo de ação vem ocorrendo desde o início de outubro, quando um estudante do próprio CED 06 do Gama acusou professores e direção da escola de promoverem atividade político-partidária durante as aulas. Sem comparecer às atividades pedagógicas desde a última terça-feira (13/10), o estudante compareceu à unidade escolar, nessa segunda-feira (19/10), acompanhado do pai e da parlamentar não diplomada. Durante a reunião, a deputada teve um comportamento inquisidor e interrogou o diretor como se fosse autoridade policial, sem permitir que ele falasse e colocando palavras na boca dele com uma versão falaciosa dos fatos.
O diretor da escola, Sebastião Júnior, o Tião, relata que a abordagem da recém-eleita e das pessoas que a acompanhavam foi marcada por intimidação, agressividade e desrespeito aos profissionais da escola. “Foi uma ação para constranger toda a escola, não apenas a mim, mas todos os professores e servidores. Eles chegaram filmando, de forma agressiva e intimidatória, sem permitir que as pessoas respondessem às perguntas. Não vieram para ouvir e resolver a situação, mas para gravar vídeos para a internet. A abordagem prejudicou o funcionamento da escola e desrespeitou os profissionais que estavam trabalhando”, afirmou.
Diante do conflito, a direção da escola solicitou a presença do Batalhão Escolar (BE), que conduziu o caso para ser tratado na esfera administrativa da escola, apenas com a presença do diretor, do pai e do estudante. Após muita resistência, a recém-eleita e não diplomada deixou o local, momento em que o problema pôde ser debatido e resolvido pelas partes. Esse foi o terceiro episódio de investidas políticas da extrema direita contra o CED 06 do Gama e a rede pública de ensino do DF, com envolvimento de um estudante.
O diretor do Sinpro Hamilton Caiana afirma que as ações têm sido recorrentes e que, na manhã desta segunda-feira (19), representantes do sindicato e parlamentares foram à unidade para prestar apoio à gestão e aos profissionais da educação.
Interferência nas atividades pedagógicas
A parlamentar não diplomada e as pessoas que a acompanhavam circularam por salas de aula, filmaram estudantes, inclusive menores de idade, prejudicando o funcionamento e tensionando o ambiente. A ação remete a práticas de coronelismo que o PL e outros grupos de extrema direita reproduzem no interior de Goiás em época eleitoral para exercerem pressão política sobre profissionais da educação e amedrontar a comunidade escolar. Diante da situação, o advogado do sindicato orientou o gestor sobre como proceder em ações desse tipo.
O episódio acende um alerta sobre os riscos que governos alinhados a esses grupos representam para as escolas da rede pública de ensino do Distrito Federal e do Brasil: perseguição política, intimidação, invasão brusca do ambiente escolar e tentativas de transformar instituições públicas de ensino em currais eleitorais da extrema direita. Em vez de contribuir para o trabalho pedagógico e para a valorização dos profissionais da educação, a parlamentar não diplomada estreia na vida política com uma ação de intimidação à comunidade escolar. Longe de demonstrar compromisso com as liberdades democráticas, o respeito à escola pública e a autonomia escolar, a deputada recém-eleita dá sinais de que pretende levar à Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) uma postura de confronto com a categoria do magistério.
Esse caso evidencia os riscos da perseguição política aos profissionais da educação e das tentativas de transformar escolas em instrumentos de disputa político-partidária. Escola pública não é propriedade de políticos nem curral eleitoral: é espaço de formação, pluralidade, gestão democrática e construção do conhecimento.
“Esse tipo de ataque acaba desmotivando o corpo docente e os demais funcionários da comunidade escolar. Os professores já estão desvalorizados e ainda precisam enfrentar esse tipo de situação. A gente precisa de políticos que sejam parceiros das escolas, que ajudem no trabalho pedagógico e na valorização da categoria para que possamos desenvolver melhor nossas atividades pedagógicas e preparar os estudantes para tudo, incluindo aí a capacidade de defender a soberania do Brasil e, principalmente, conseguir chegar à universidade pública”, afirmou Hamilton.
O dirigente sindical também manifestou preocupação com o uso de gravações e imagens da comunidade escolar nas redes sociais. Ele afirma que a movimentação da equipe da deputada não diplomada parecia voltada à publicação de vídeos com cortes capazes de distorcer o que ocorreu na unidade. O Sinpro cobra apuração dos episódios ocorridos no CED 06 do Gama pelos órgãos competentes, com respeito ao devido processo legal e à autonomia da escola. A comunidade escolar precisa de apoio pedagógico, valorização profissional e respeito à gestão democrática — não de intimidação, exposição pública degradante ou intervenções político-partidárias para lacração nas redes e que prejudiquem o cotidiano de estudantes e trabalhadores da educação.
