Escola Classe do SMU: “Uma força que nos alerta”

Cabe usar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para falar do papel da mulher na sociedade atual? A Escola Classe do Setor Militar Urbano está demonstrando que sim, e com muito sucesso. Neste ano letivo de 2026, a escola leva seus alunos e alunas da primeira etapa do Ensino Fundamental a refletirem sobre as diversas formas de atuação da mulher na sociedade brasileira, e o reconhecimento desse trabalho.

“A mulher é o tema gerador do projeto do ano letivo de 2026”, conta a vice-diretora Virginia Fernandes, que explica como o tema está sendo trabalhado. “Nesse projeto, a mulher é abordada como um sujeito de direitos, uma trabalhadora, o pilar da família e da comunidade, guardiã da cultura e a pessoa que faz escolhas constrói seu projeto de vida. Essa abordagem permite o desenvolvimento de aprendizagens significativas trazidas para a infância, pelo caminho do respeito, da empatia, da convivência e da ética.”

 

“A estranha mania de ter fé na vida”

A diretora Heloísa Almeida aponta que adesão das professoras ao projeto foi imediata: pesquisaram, incentivaram muito os alunos e criaram atividades pedagógicas e artísticas sobre o tema, com cada ano aprofundando os temas conforme o que havia sido definido pelo projeto. Também as crianças participaram com muito interesse e motivação, levaram pra casa o assunto, conversaram com as famílias e tivemos a participação de todos, não demostraram  nenhuma rejeição – pelo contrário: “Às vezes a criança chega em casa e falam pro pai: ‘isso é machismo!’. Então, elas conseguem reconhecer machismo, violência ou abuso, inclusive o abuso psicológico.

O resultado do trabalho? “A participação da comunidade foi imensa,  muitas famílias observaram as atividades dos filhos, falaram da importância do projeto, do cuidado que os filhos passaram a ter ao falar sobre o tema em casa e agradeceram. Para nós do corpo docente isso é uma enorme alegria, fazer a diferença”, completa a diretora.

Na festa Raízes do Campo, realizada na escola no dia 10 de julho, o quinto ano apresentou a música Maria, Maria, de Milton Nascimento e Fernando Brant, para mostrar a força da mulher na sociedade brasileira. Familiares das crianças e colegas dos outros anos cantarolaram junto o clássico da MPB, e todos foram convidados a, ao final das apresentações, repetirem juntos o canto da música. Acompanhe no vídeo abaixo.

“O trabalho da EC SMU é minucioso, delicado, onde se percebe o comprometimento, espírito de equipe e entusiasmo do corpo docente com o projeto da escola. A excelência profissional fica evidente em cada detalhe de cada trabalho em exposição”, aponta a diretora do Sinpro Regina Célia, que participou da festa do segundo bimestre e relata: “foi muito gratificante para esta professora aqui chegar na escola numa manhã de sábado e ver a construção de um projeto tão rico e tão emocionante, apesar de tanta adversidade por vezes enfrentada no dia a dia de uma secretaria de educação árida, alheia e aversa ao diálogo construtivo ou a qualquer política de educação verdadeiramente inclusiva e participativa”, conta.

 

“Uma gente que ri quando deve chorar, e não vive, apenas aguenta”

Com esse trabalho, as crianças da Escola Classe pensam e desenvolvem visão crítica sobre as várias faces do papel da mulher na sociedade moderna, ao longo dos bimestres. O próprio enfoque de cada bimestre traz os papéis desempenhados pela mulher de forma crescente.

“No primeiro bimestre, falamos da mulher que cuida. Estimulamos as crianças a pensarem por que sempre tem uma pessoa que cuida em casa, muitas vezes trabalha fora, mas em casa está sempre cuidando. Quem cuida dessa mulher?”. O que a BNCC tem a ver com isso? “Esse enfoque é um recorte pedagógico, pois permite abordar de maneira contextualizada os aspectos centrais da organização social brasileira, como o cuidado, o trabalho, a cultura, o direito, as escolhas. Essa abordagem contribui para o desenvolvimento dos valores das crianças de empatia, responsabilidade e respeito”, conclui a vice-diretora, que aponta nesse momento o gancho para trabalhar questões relacionadas à violência interpessoal, desde a Lei Maria da Penha até o bullying.

Virgínia conta que no primeiro bimestre, a escola promoveu uma palestra sobre a lei Maria da Penha e violência contra a mulher.

 

“No corpo uma marca mistura a dor e a alegria”

O segundo bimestre trouxe a mulher que cuida, mas em um passo adiante: a mulher do campo. Nesse contexto, foi realizada a festa “Raízes do Campo”, no dia 10 de julho.

“A festa mostrou a alunos e comunidade escolar o papel tão importante que a mulher ocupa e que na maioria das vezes é invisível. Essa mulher cuida desde o plantio, colheita, armazenamento, e por vezes faz parte da venda e também leva o alimento para a mesa de casa e ainda cuida dos filhos”, explica a diretora da EC SMU, Heloísa Helena Almeida.

A mulher do campo abre todo um leque de possibilidades para o estudo sobre origem dos frutos, formas de consumir, cultivo de alimentos, preservação da natureza e muito mais. Essa mulher é a que trabalha na terra, produz artesanato e, em última instância, vira agrônoma e usa os estudos para modificar a terra.

“Além disso, o projeto promoveu aprendizagens em diferentes áreas do conhecimento, integrando leitura, escrita, matemática, ciências, geografia e história de forma significativa. Também fortaleceu valores como respeito, reconhecimento, cooperação e valorização da cultura e da comunidade rural”, explica a professora Letícia Bolson.

No terceiro bimestre, mais um passo adiante: a mulher passa a ser economicamente ativa. Os debates seguem na linha das conquistas das mulheres ao longo dos séculos, como o direito a estudar e trabalhar, votar: “a mulher começou a trabalhar com artesanato, então nosso projeto vai ser uma mostra cultural de artesanato. As crianças vão trabalhar com questão da economia também, nosso objetivo é que elas vendam algumas coisas que eles fizeram pra ver que realmente dá dinheiro, né?”, aposta a vice-diretora.

O último bimestre trabalhará a mulher protagonista, a mulher que estuda, que está dominando o mercado de trabalho e que não pode abrir mão dos seus direitos.

 

“Uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta”

Ao final do ano letivo, o projeto terá demonstrado às meninas que o trabalho da mulher é fundamental em todas as áreas, a mulher pode ser o que ela quiser. “Então, tem uma musiquinha que diz que a mulher pode ser o que ela quiser, as crianças adoraram”, lembra a vice-diretora.

Virgínia explica que os temas transversais contemporâneos norteiam o trabalho da EC SMU no decorrer do ano todo. “O nosso objetivo é formação integrada dos estudantes, considerando todas as dimensões cognitivas, sociais, emocionais, éticas, culturais. Então, esse projeto fortalece as práticas pedagógicas da aprendizagem acadêmica, a convivência, o respeito das diferenças, a preparação pra vida em sociedade”, conclui.

Heloisa enfatiza que não há nenhum cunho ideológico ou doutrinário no trabalho executado pela escola: “é um trabalho que respeita a infância e a diversidade das famílias na realidade de 2026. Nosso trabalho é baseado na BNCC, no Currículo em movimento da SEEDF, nas diretrizes nacionais pra educação, nos direitos humanos e na legislação educacional referente à diversidade cultural e às relações étnico-raciais. A professora também lembra que, embora esteja dentro da área militar de Brasília, a EC SMU não é uma escola militarizada. “Isso contribui bastante pra que a gente possa trabalhar com esses temas que são tão importantes, como a violência contra a mulher. Trabalhamos temas delicados e, mesmo assim, nós os abordamos dentro do universo Infantil, uma vez que trabalhamos com as séries iniciais do Ensino Fundamental.”

 

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