Dívidas, adoecimento e suicídio: o lado mais cruel das bets

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Uma dívida que cresce a cada aposta. O salário perdido em minutos. A vergonha de contar à família e a tentativa de recuperar tudo com mais um jogo. Para quem desenvolve dependência, essa sequência pode terminar em depressão, isolamento e risco de suicídio.

No Sistema Único de Saúde (SUS), os atendimentos relacionados ao vício em jogos e a problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025, segundo o Ministério da Saúde. Ansiedade, depressão, alterações no sono, conflitos familiares e isolamento estão entre os problemas observados.

Quando a aposta toma conta da vida: casos reais de tragédias pessoais e familiares

R$ 95 mil em quatro horas: Uma servidora pública do interior do Rio de Janeiro viu o saldo de suas apostas chegar a R$ 100 mil. Não conseguiu sacar tudo de uma vez. Continuou jogando e, em quatro horas, perdeu R$ 95 mil.

Depois vieram os empréstimos, a venda do carro e a perda do emprego. O relato apresentado em um vídeo do Estadão descreve também pensamentos suicidas e a intervenção da família para ajudá-la a buscar tratamento. O prêmio que aparecia na tela nunca virou uma vida melhor.

R$ 53 mil para continuar jogando: No interior do Rio Grande do Sul, uma assistente de vendas retirou R$ 53.618 da tesouraria e do fundo de troco da loja onde trabalhava. Foram apenas cinco dias. Segundo o caso relatado pelo JOTA, ela admitiu ter usado o dinheiro para apostar. Conforme perdia, retirava mais na tentativa de repor o valor. A dívida só aumentou e o caso chegou à Justiça do Trabalho.

O adoecimento também aparece nos afastamentos. Levantamento do Intercept Brasil com dados obtidos do INSS registrou 276 auxílios por jogo patológico entre junho de 2023 e abril de 2025. A quantidade mensal de benefícios concedidos cresceu mais de 2.300% nesse intervalo.

Seis faculdades abandonadas: Um jovem relatou ao Estadão ter deixado seis cursos de graduação e perdido o emprego em meio ao vício em apostas. Em vez de estudar ou trabalhar, passava o tempo voltado ao jogo. Vieram as dívidas, o isolamento e a dificuldade de contar o que acontecia. A perda não foi apenas de dinheiro: foram anos de estudo e oportunidades de trabalho interrompidos.

Quando a dívida vira desespero

Os casos mostram a mesma sequência: a perda provoca desespero; a pessoa aposta mais para tentar recuperar o dinheiro; o prejuízo cresce e ela se afasta de quem poderia ajudá-la.

Não é preciso esperar uma tragédia para reconhecer o risco. Profissionais de saúde relatam pacientes que, depois de perder dinheiro nas bets, chegam aos serviços com ansiedade intensa, desesperança e pensamentos suicidas.

A psicóloga Claudia Feres, que atua em um Centro de Apoio Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, recomenda que pacientes dependentes e suas famílias procurem ajuda profissional.

“Eu trabalho em Caps. Chegam para nós pessoas que tiveram pensamentos e fizeram, por exemplo, tentativa de autoextermínio. É um pedido de socorro desesperado, como se falasse que precisa se ausentar da vida naquele momento”, disse.

Como o algoritmo mantém a pessoa jogando

O aplicativo registra o comportamento de quem aposta: quanto tempo permanece na tela, quais jogos procura e quando costuma voltar. Com esses dados, pode enviar notificações e ofertas para estimular uma nova aposta.

Os jogos também oferecem resultados rápidos e recompensas imprevisíveis. A pessoa não sabe quando virá o próximo ganho. Se ganha, tende a querer repetir. Se perde, pode apostar mais para tentar recuperar o dinheiro. Essa sequência reduz o intervalo entre a vontade de jogar e uma nova aposta — e pode tornar mais difícil parar.

Além disso, cores fortes, luzes, sons de vitória e animações fazem cada rodada parecer um acontecimento, mesmo quando o ganho é pequeno e o prejuízo acumulado é maior. A neurociência explica que estímulos assim, combinados com a incerteza do próximo resultado, ativam o sistema de recompensa do cérebro e aumentam a expectativa de ganhar. A sensação de “quase acerto” também pode incentivar outra tentativa: a pessoa perdeu, mas sente que esteve perto de vencer.

O celular mantém a aposta por perto

O jogo fica disponível a qualquer hora, dentro de casa, no ônibus ou no trabalho. A plataforma oferece uma sequência rápida de apostas e resultados. Uma vitória ocasional alimenta a expectativa da próxima; depois de uma derrota, vem a ideia de recuperar o dinheiro perdido.

Notificações e ofertas podem chamar a pessoa de volta justamente quando ela tenta parar. Esse é o papel do desenho dos aplicativos e dos mecanismos de recompensa: facilitar a repetição do jogo.

Infância e juventude: Pesquisa com estudantes de escolas públicas e privadas apontou que 20,4% já haviam feito apostas online. Entre os alunos de 11 anos ouvidos, 9,5% disseram já ter apostado. Para especialistas em saúde, o acesso de crianças e adolescentes a esses produtos amplia a preocupação com seus efeitos.

Uma conta que não cabe apenas no orçamento

O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em R$ 38,8 bilhões por ano os custos sociais associados ao jogo problemático. Desse total, R$ 30,6 bilhões correspondem a danos associados à saúde: R$ 17 bilhões ligados a mortes por suicídio e R$ 13,4 bilhões à depressão, incluindo perda de qualidade de vida e tratamentos.

Fonte: CUT