Dia Internacional: iniciativas buscam empoderar as mulheres na ciência no DF

O dia 11 de fevereiro é o marco do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, uma data destinada a reconhecer a fundamental atuação feminina  na comunidade científica e tecnológica ,e promover seu acesso à educação, treinamento e pesquisa . Dados demonstram o longo caminho a ser trilhado para se alcançar a igualdade de gênero na ciência.  A Unesco aponta que a média de pesquisadoras no mundo é de 33,3% e que as estudantes de ciência, tecnologia, engenharia e matemática representam apenas 35% dos que frequentam esses cursos.

Nesse contexto, a comunidade escolar é um dos principais ambientes para o debate sobre a efetivação de políticas públicas para a equidade de gênero e de oportunidades no ensino para as meninas e mulheres, desde a sua primeira formação, passando por sua graduação, pós-graduação, até a pesquisa científica, área majoritariamente frequentadas por homens.

Exemplo de mobilização de incentivo à equidade de gênero na ciência junto à comunidade estudantil, um projeto da Universidade de Brasília atendeu cerca de 500 estudantes em oficinas de tecnologia, engenharia, matemática, robótica e outras áreas de conhecimento. O objetivo era atrair e incentivar a presença de meninas na ciência, além de emponderá-las, dando o protagonismo na decisão sobre os objetos de estudo apresentados. Os 20 projetos realizados por meio de edital “Mulheres e meninas na ciência: o futuro é agora”  atenderam prioritariamente as escolas públicas, mas também os polos de extensão e Casas de Cultura da UnB.

Realizado pelo Decanato de Extensão da Universidade de Brasília,  o edital  “Mulheres e meninas na ciência: o futuro é agora” foi executado por meio de projetos apresentados pelos institutos, faculdades e departamentos da universidade.  Além de professores (as) coordenadores (as), a ação foi executada juntamente com estudantes bolsistas e a participação dos(as) professores(as) da rede de ensino.

A  decana de Pesquisa e Inovação da UnB, Maria Emília Walter, afirma que a parceria com os(as) professores(as)  do magistério do ensino público foi fundamental para o sucesso da ação. “Tivemos ótimos resultados, mas somente após o engajamento dos professores(as), isso porque as estudantes têm muita confiança nos(as) docentes. Sem eles(as), não daria certo”, destacou. Para ela, o projeto é importante para aumentar a presença feminina nas graduações de ciência e tecnologia, assim como na pesquisa científica.

Com primeira graduação em Matemática, Walter aponta que na universidade os cursos de exatas e ciência têm baixo acesso feminino.  “O diurno (da Computação) tem cerca de 15%, e nos noturnos, 5%,  no máximo 10%. Já entram poucas mulheres na graduação, quando se fala de pós-graduação, o funil vai se estreitando. São pouquíssimas mulheres”, lamenta.  No total, as mulheres representam 52% dos estudantes, 45% dos docentes e 51% dos técnicos administrativos da UnB.

Segundo a professora, trabalhos realizados pelo projeto Meninas.comp demonstraram que a baixa representatividade feminina nas áreas de ciência se deve, entre outros pontos, à cultura sexista enfrentada desde a infância. “Desde crianças, as meninas não são estimuladas a se envolverem em atividades de aventura e competição, ao estudo das disciplinas exatas e pela busca por carreiras científicas. Elas não são estimuladas como os homens são”, explica. Desde 2010, o projeto oferece oficinas e atividades de computação para meninas do ensino público, para incentivar o ingresso na graduação.

Compromisso social e políticas públicas de gênero

Uma nova lei do Distrito Federal foi aprovada em janeiro com o objetivo de valorizar as mulheres cientistas e estimular meninas e adolescentes a investir na carreira científica. Intitulada Política Distrital de Incentivo ao Protagonismo das Mulheres na Ciência, a Lei 7.400/2024 determina a realização de campanhas públicas e ações de  visibilidade das mulheres cientistas brasileiras, por meio de oficinas e debates em escolas, bolsas de iniciação científica e de pesquisa o gênero, entre outras.

Para Mônica Caldeira, diretora do Sinpro-DF,  o estímulo ao debate no ensino público nas escolas é importante, mas também é essencial a garantia da efetivação de políticas públicas para a equidade de gênero e de oportunidades no ensino e na formação. Ela destaca que deve ser assegurado o enfrentamento aos obstáculos que prejudicam o acesso escolar das meninas, adolescentes e jovens socioeconomicamente vulneráveis, a exemplo da pobreza e da falta de infraestrutura,  a violência de gênero e a divisão sexual do trabalho, entre outros.

Números apontam que o machismo e a falta de políticas públicas de gênero afetam a evasão escolar de adolescentes e mulheres. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),  em 2022,  entre os principais motivos para meninas e jovens não estarem nas escolas estavam a gravidez (22,4%) e os afazeres domésticos ou cuidado de pessoas (10,3% ). Para os homens, esse último percentual foi considerado inexpressivo (0,6%).  O trabalho é apontado como  maior motivo para a evasão: 51,6% para homens, e 24%, mulheres.

“Ser antimachista deve ser um compromisso social para que não haja espaços separados entre homens e mulheres. As mulheres, por ter muita garra e determinação, conquistam espaços majoritariamente masculinos, como a ciência. E as pesquisadoras convivem todo o dia com o desafio de ocupar e progredir em espaços potencializados para homens apenas, desde a formação escolar”, comenta Caldeira. Ela lembra ainda que, apesar da complexidade vivida nas salas de aulas e no dia-a-dia das mulheres professoras, é importante que estas docentes tenham a possibilidade de trilhar o caminho da ciência e ter acesso à formação e à pesquisa.

É o caso de Ana Carolina Castro, professora do Centro de Ensino Médio Setor Oeste (CEMSO). e doutoranda em Linguística na UnB, que representou mulheres e meninas na ciência em homenagem do Ministério da Ciência e Tecnologia, em 2023, e neste ano, participará da celebração na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).

Para Castro, por serem multifatoriais, os desafios que as mulheres enfrentam na ciência não podem ser solucionados com ações afirmativas pontuais, e o tema da igualdade de gênero na ciência deve ser prioridade das instituições. “Olhar para essa pauta, com a seriedade que ela merece, exige ação conjunta, continuada, sustentável e com atuação orgânica de especialistas das mais variadas áreas. Neste processo, entendo que é fundamental e indispensável que mulheres sejam protagonistas, assumindo lugares estratégicos, deliberativos e de destaque – e que acima de tudo, as pautas estejam comprometidas com nossas lutas diárias”, afirma a professora.