Dia da Mulher Negra reforça continuidade da luta por direitos

 

Nesta quinta-feira (25), mulheres negras de diversos países comemoram o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. A data foi instituída em 1992, ano em que ocorreu o primeiro encontro de mulheres negras da América Latina e do Caribe, na República Dominicana.

No Brasil, no mesmo dia, também é celebrado o dia da Mulher Negra, em homenagem à líder quilombola Teresa de Benguela, símbolo da resistência negra que viveu durante o século 18.

Segundo a Fundação Cultural Palmares, com a morte de seu companheiro, José Piolho, Teresa se tornou a rainha do Quilombo Quariterê e, sob sua liderança, a comunidade negra e indígena resistiu à escravidão por duas décadas, sobrevivendo até 1770, quando o quilombo foi destruído pelas forças de Luiz Pinto de Souza Coutinho.

Além de conter inúmeras atividades alusivas que resgatam a história e ressaltam a força dessas mulheres, a data é também oportunidade para debater pautas específicas de acordo com as vivências femininas em cada um desses países e traçar estratégias de enfrentamento às dificuldades e desafios impostos.

Para a diretora da secretaria de Assuntos de Raça e Sexualidade do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF), Letícia Montandon, o atual período exige que os governos estejam atentos às vidas das mulheres negras.

Conforme estimativa da Associação Rede de Mulheres Afro-Latinas, Afro-Caribenhas e da Diáspora, cerca de 200 milhões de pessoas que se identificam como afrodescendentes vivem na América Latina e no Caribe, o que corresponde a 30% da população dessas regiões. Diante dos números, a diretora relembra que no Brasil, embora existam avanços alcançados com muita luta, mesmo representando maioria da população, infelizmente, as mulheres negras continuam sendo as mais exploradas, negligenciadas socialmente e as mais atingidas pelo feminicídio,  pelo desemprego e pela violência doméstica.

Os retratos da desigualdade de raça de gênero podem ser evidenciados pelas estatísticas. Uma pesquisa do IBGE mostrou que apenas 10% das mulheres pretas ou pardas completam o Ensino Superior, o que dificulta o acesso a melhores condições de trabalho e remuneração. Enquanto que outro estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), realizado em 2018, apontou que Mulheres negras estão 50% mais suscetíveis ao desemprego do que outros grupos. Já no quesito violência,  segundo dados apontados no seminário “Mulheres Negras Movem o Brasil: visibilidade e oportunidade”, promovido pela Câmara dos Deputados,a violência doméstica atinge mais as mulheres negras, representando 58% das ligações ao Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher). Elas também são as mais afetadas pela mortalidade materna (56%) e pela violência obstétrica (65%).

“O cenário é preocupante e o momento pede ainda mais unidade e resistência. Vivemos um período em que os ataques aos direitos são visíveis. As mulheres negras estão na base da pirâmide e são as que mais sofrerão  com os retrocessos. A nefasta reforma da Previdência, por exemplo, praticamente destruirá o acesso das mulheres negras à aposentadoria, uma vez que este segmento atua nos trabalhos mais vulneráveis, intermitentes e, muitas vezes, sem o mínimo de direitos. Precisamos reforçar e celebrar os avanços conquistados até aqui e, mais que nunca, lutarmos para que as mulheres e toda a população brasileira tenham acesso à educação, trabalho, e aposentadoria digna”,  concluiu a sindicalista.

Resistência

Em comemoração à data, diversas atividades deverão ocorrer em todo país. No DF, oficinas e palestras marcam semana da Mulher Negra Latino-Americana.

A cantora Nanãn Matos, artista de destaque no DF, encerra nesta sexta-feira (26), na Caixa Cultural, a temporada do espetáculo Nãnan canta África. show em reverencia a cultura tradicional africana e afrodiaspórica, que comemora a mulher afrolatina e caribenha, a presença dessa expressão cultural.

Julho das Pretas

Nãnan Matos cantará também, hoje, na Casa Akotirene (QNN 23 conjunto J, casa 35, Ceilândia Norte), no segundo dia de atividades do Julho das Pretas. Desde ontem, e até sábado, a casa de cultura ocupada e gerida por pessoas negras oferecerá uma série de apresentações culturais e rodas de conversas que valorizam o protagonismo da raça, com entrada franca. “Resolvemos fazer uma programação prolongada discutindo nossas demandas que não cabem no dia da mulher”, afirma Joice Marques, uma das integrantes.

Black is Beautiful

Desde 18 de julho, a Ocupação Contém vem realizando um cineclube temático, todas as quintas-feiras, na Piscina com Ondas desativada do Parque da Cidade. Na edição de hoje, com o temaBlack is Beautiful, serão exibidos dois filmes produzidos por diretores negros: o curta-metragem documental Das raízes às pontas, da cineasta brasiliense Flora Egécia, e o longa Infiltrado na Klan, de Spike Lee, votado pelo público. A sessão começa às 19h, com entrada franca.

Carlos e Tereza

Já a banda carioca El Efecto lança hoje o clipe da música Carlos e Tereza, do disco Memórias do fogo (2018). Com os versos “Mas tu tem que lembrar – com orgulho! 25 do mês de julho!” e “Mas tu tem que lembrar – eu me lembro! Do dia 4 de novembro!”, o clipe faz referência à homenageada de hoje, à data do assassinato de Carlos Marighela e estabelece uma relação com o assassinato de Marielle Franco, que ocorreu, coincidentemente, 12 dias após o lançamento do álbum.

Com informações Correio Braziliense

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