Do Recanto das Emas para Abu Dhabi: CEM 111 leva ciência da escola pública ao cenário global da sustentabilidade
Em janeiro de 2026, o Centro de Ensino Médio 111 do Recanto das Emas (CEM 111) levou o nome da educação pública do Distrito Federal para o centro do debate mundial sobre sustentabilidade. A escola participou da 18ª edição do Zayed Sustainability Prize (Prêmio Zayed de Sustentabilidade), em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, com o projeto Ciclo Vivo, selecionado entre cerca de 8 mil iniciativas de 173 países e reconhecido entre os três finalistas globais da categoria “Global High School” (“Escola Secundária Global”).
Um dos resultados dessa participação, foi o convite que o CEM 111 recebeu para um encontro com secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), Kátia Schweickardt, para um bate-papo sobre a indicação da escola ao Zayed Sustainability Prize 2026. A visita, que ocorreu nessa terça-feira (26/5), reforçou o reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelo Clube de Ciências e pelo projeto Ciclo Vivo, que seguem demonstrando a força e o protagonismo da escola pública. “O futuro é sustentável”, destacou a publicação divulgada no Instagram oficial da escola.
Clique no link a seguir para ver trechos da reunião com o MEC:
https://www.instagram.com/reel/DY0OSMjo-m1/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==
O professor de matemática e coordenador do Clube de Ciências da escola, Geldo Ferreira de Araújo, destacou a importância da reunião no MEC para ampliar os desdobramentos do projeto. “Foi uma ótima reunião no MEC. Agora manteremos contato e em conversa sobre desdobramentos de divulgação e atividades que dialoguem com a proposta do projeto Ciclo Vivo e com agendas do MEC nas quais possamos somar esforços”, afirmou.
O projeto finalista brasileiro ainda reserva surpresas que deverão ser acompanhadas nos próximos meses. O Clube de Ciências também busca parceiros para concretizar um intercâmbio de colaboração educacional e científica com escolas finalistas do Brasil, Canadá e México para ampliar as possibilidades de cooperação internacional entre estudantes e pesquisadores(as).
A delegação do CEM 111 participou da Semana de Sustentabilidade, realizada entre os dias 10 e 16 de janeiro, em uma programação voltada à inovação, ao meio ambiente e ao intercâmbio de experiências entre jovens pesquisadores(as) de diferentes partes do mundo. Representaram a escola as estudantes Micaelly Vitória da Silva Mesquita e Pollyana Feitosa Siqueira, além da vice-diretora Duilia Ferreira de Araújo e do professor de matemática e coordenador do Clube de Ciências, Geldo Ferreira de Araújo.
Ciclo Vivo: água e agroecologia
O projeto Ciclo Vivo nasceu no Clube de Ciências do CEM 111 e atua na produção de conhecimento científico no campo da sustentabilidade, tecnologia e impacto social. A proposta integra um sistema agroflorestal educativo com captação e reaproveitamento da água da chuva por meio de irrigação automatizada desenvolvida pelos(as) próprios(as) estudantes. Em um espaço de aproximadamente 150 metros quadrados dentro da escola, o projeto prevê o cultivo de árvores frutíferas, hortaliças, plantas medicinais e espécies nativas do Cerrado e utiliza práticas regenerativas e sustentáveis.
A irrigação funciona a partir da água da chuva captada por calhas ecológicas, armazenada em cisternas e distribuída por um sistema automatizado de gotejamento programado pelos integrantes do Clube de Ciências com princípios de automação e eletrônica. O objetivo é combater o desperdício de água, fortalecer a segurança alimentar e ampliar a educação ambiental dentro da comunidade escolar.
Energia limpa no Clube de Ciências
Além da produção agroecológica, o projeto também dialoga com a geração de energia limpa. O Clube de Ciências participou, ao longo dos anos, de iniciativas voltadas à energia solar fotovoltaica, tema que ajudou a inspirar a implantação de uma usina de energia solar na escola.
A vice-diretora Duilia Ferreira de Araújo afirma que a participação no prêmio internacional representa o reconhecimento de um trabalho pedagógico coletivo construído ao longo de anos na escola da rede pública de ensino. “Chegar até aqui é resultado de anos e anos de dedicação ao fazer científico, conduzido de forma contínua no CEM 111, sempre investindo e acreditando no potencial dos nossos estudantes”, destacou.
Experiência em Abu Dhabi
Duilia ressalta que a experiência em Abu Dhabi ampliou horizontes para toda a comunidade escolar. “Estar presente em um evento desse porte fortalece o trabalho desenvolvido dentro da escola e mostra que nossos estudantes têm capacidade de dialogar com o mundo a partir da ciência e da sustentabilidade”, afirmou.
Coordenador do Clube de Ciências desde a fundação do grupo, em 2013, o professor de matemática Geldo Ferreira de Araújo avalia que a experiência internacional vai muito além da premiação. “Esse contato com projetos de outros países, o diálogo e a construção de uma rede de contados, a chamada network, são fundamentais para ampliar o alcance do trabalho científico que já realizamos com nossos estudantes”, disse.
Geldo o protagonismo juvenil como a principal marca do Clube de Ciências. Atualmente, o grupo reúne entre 40 e 50 integrantes ativos, entre estudantes do Ensino Médio e ex-alunos, que hoje atuam como universitários e profissionais. Cerca de 75% a 80% das participantes são mulheres. “Conseguimos acertar na diversidade dentro do Clube. Temos cultura, comunicação, matemática e muita ciência”, afirma o professor.
Trajetória do projeto
A trajetória do Ciclo Vivo também é resultado da permanência dos ex-alunos no projeto. Estudante de Engenharia Civil na Universidade de Brasília (UnB), Micaelly Vitória da Silva Mesquita ajudou a impulsionar a inscrição da escola no prêmio internacional e segue atuando no Clube de Ciências.
“Estar aqui [Abu Dhabi] mostra que a escola pública produz conhecimento, inovação e soluções sustentáveis, mesmo em contextos de vulnerabilidade”, destacou. A estudante lembra que o sonho de ingressar na universidade nasceu justamente a partir das experiências vividas no clube. “Fomos inspiradas por outras pessoas e, hoje, estamos aqui para ajudar a inspirar”, contou.
Também ex-estudante do CEM 111, Pollyana Feitosa Siqueira afirma que a ida aos Emirados Árabes simboliza o esforço coletivo construído por diferentes gerações de estudantes e professores. “Esse projeto é construído por muitos estudantes e professores ao longo dos anos. Estar em Abu Dhabi é dar voz a esse trabalho e mostrar que somos capazes de transformar realidades por meio da ciência”.
A estudante Ana Figuerêdo, integrante do Clube de Ciências, destaca que o projeto transformou a forma como muitos jovens enxergam o próprio futuro. “Sempre vemos as pessoas preconceituosas com a escola pública, e ver que chegamos à final mostra o quanto somos capazes”, declarou.
A história do Clube de Ciências do CEM 111 é marcada pelo incentivo à pesquisa, à autonomia estudantil e à valorização da escola pública. Ano após ano, o grupo desenvolveu projetos nas áreas de sustentabilidade, radiação, reflorestamento do Cerrado, tecnologia e divulgação científica, além de participações em feiras, eventos nacionais e atividades ligadas à ciência e inovação.
No entendimento do Sinpro, a seleção do CEM 111 para participar da Semana de Sustentabilidade de Abu Dhabi reforça o papel da educação pública brasileira na construção de soluções sustentáveis e no protagonismo juvenil em escala internacional. Mais do que representar o Distrito Federal em uma premiação global, as estudantes mostraram que ciência, inclusão social e transformação ambiental também nascem dentro da escola pública.
Prêmio Zayed de Sustentabilidade
O professor Geldo explica que o Prêmio Zayed de Sustentabilidade tem abrangência global e distribui recursos financeiros em dólares para financiamento de organizações e escolas que realizam projetos de impacto socioambiental. As inscrições são abertas em seis categorias — Saúde, Alimentação, Energia, Água, Ação Climática e Escolas de Ensino Médio Globais — e as propostas precisam comprovar impacto, inovação e capacidade de inspirar transformações sociais.
Cada organização vencedora das cinco categorias principais recebe US$ 1 milhão, enquanto as escolas premiadas recebem US$ 150 mil para implantar ou ampliar projetos estudantis. Desde 2026, os(as) finalistas passaram a receber apoio financeiro de US$ 100 mil para organizações e US$ 25 mil para escolas.
As inscrições para a edição 2027 seguem abertas até 15 de julho de 2026, em sete idiomas, incluindo português. As escolas finalistas são convidadas para a cerimônia de premiação realizada em Abu Dhabi no início do ano seguinte. No caso do CEM 111, finalista da edição 2025, o convite resultou na participação da delegação na cerimônia e na Semana de Sustentabilidade em janeiro de 2026, nos Emirados Árabes Unidos.
