Arte e magistério: As mãos que educam e pintam a história da educação

Há quem diga que o tempo é um ladrão. Rouba a elasticidade da pele, a firmeza das mãos, a nitidez das lembranças. Mas há quem prove, em cada gesto, que o tempo é, na verdade, um colecionador de camadas. Basta observar a professora aposentada Maria Dirce Resende, que aos 91 anos de idade mantém ativa a memória muscular de uma vida inteira dedicada à educação e a ensinar que a beleza não é enfeite; é resistência.

Desde os 18 anos de idade, Dirce Resende encontrou nos pincéis e na leitura um elo que, mesmo após nove décadas, o tempo nunca apagou. Durante 22 anos na rede pública de ensino do Distrito Federal, a educadora natural de Minas Gerais foi professora de Artes em várias unidades escolares, como CASEB, Centro de Ensino Médio Elefante Branco (CEMEB) e escolas de Sobradinho, mostrando aos estudantes que a arte vai muito além dos traços, das telas e aquarelas.

Para ela, a arte sempre foi a trincheira onde os alunos aprendiam a ler o mundo antes mesmo de decifrar as palavras. “Desde a minha juventude procurei ler o mundo por meio das telas, das tintas, e levei este gosto para as salas de aula. Para os meus alunos, sempre mostrei que a arte é uma forma de ler o mundo de uma maneira diferente, além de expandir nossos horizontes para temas delicados e necessários”, aponta Dirce Resende.

 

Arte como processo educacional

Mais do que uma ferramenta de entretenimento, o ensino das Artes nas escolas públicas tem se consolidado como um poderoso instrumento de resgate da autoestima, estímulo ao pensamento crítico e, sobretudo, fomento à motivação para a aprendizagem ao longo da vida. Dirce Resende relembra que, em seus primeiros anos de magistério, nem as salas de aula superlotadas nem a impaciência dos estudantes foram capazes de abalar sua determinação.

“A arte sempre foi uma trincheira, onde ensinava os alunos a ler o mundo”, afirma a educadora. Ela destaca que muitos estudantes chegavam à escola carregando o peso da violência e da ausência afetiva, e era justamente por meio da Arte que encontravam espaço para elaborar e cicatrizar essas feridas. “A Arte estimula o desenvolvimento de habilidades motoras e, sem dúvida, potencializa a criatividade, fortalece o lado emocional e artístico, além de trazer uma leveza que permite alcançar objetivos que vão além da razão.”

Todo esse empenho e dedicação de Dirce à educação não passaram em branco. Além de contribuir para a trajetória pedagógica de centenas de estudantes, um deles seguiu seus passos e hoje é diretor, ator e produtor cênico em Brasília. Trata-se de Plínio Mosca, que desenvolveu um trabalho fundamentado em métodos de preparação do ator e construção de personagem.

“Apesar de todas as dificuldades que um professor enfrenta, ver que um aluno se destacou, justamente na área em que atuei, é um presente. No caso do Plínio, ele era muito interessado nas Artes e levava livros de Arte para compartilhar com os colegas”, emociona-se Dirce.

 

Seguindo os passos

Não foram apenas alguns alunos que seguiram os passos de Dirce Resende. Sua filha, também professora aposentada, trilhou o mesmo caminho no magistério público. Professora de Português, Eleonora Alexopoulos é um verdadeiro exemplo de amor, entrega e dedicação à educação.

“Minha mãe me passou esse amor pela educação. Como fui aluna dela, passei a ser apaixonada por Grécia, Egito, em leitura. Por isso segui para Letras, português e inglês. Trabalhei o projeto ‘Ler é um prazer’ em uma escola e, assim como ela, herdei essa busca por levar uma educação de qualidade para os alunos. Sempre fui animada para passar essa parte politizada. No Gama, por exemplo, fiz um trabalho com a comunidade carente, que precisa de ajuda emocional, intelectual. Foi um período lindo”, explica Eleonora.

A trajetória de Maria Dirce Resende não se mede apenas pelos 91 anos bem vividos ou pelas décadas de sala de aula. Mede-se, sobretudo, pela profundidade dos traços que deixou em cada aluno, em cada colega de profissão e, de forma mais íntima, em sua própria família. “Ao transformar a arte em ferramenta de leitura crítica do mundo, Dirce provou que o ensino vai muito além do conteúdo programático: é um ato de resistência, afeto e construção de cidadania”, ressalta Izabela Cintra, diretora do Sinpro.

A trajetória de Dirce Resende personifica a luta diária de milhares de educadores que, mesmo diante de salas abarrotadas, violência estrutural, ausência de valorização e sucessivos ataques à carreira docente, seguem plantando horizontes mais largos nos estudantes.

É nesse cenário que o Sinpro se mantém firme, não apenas como representante sindical, mas como trincheira coletiva por uma escola pública laica, democrática e verdadeiramente emancipadora.

Enquanto houver quem ensine com as mãos e a alma, a educação resiste.