“A questão da mineração no Brasil está incontrolável”, alerta especialista

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“A questão da mineração no Brasil está incontrolável”. A afirmação do membro do Movimento pela Soberania Popular na pela Mineração (MAM), Charles Trocate, marcou a abertura dos debates do seminário “Mineração no Brasil: Soberania, Desenvolvimento e Salvaguardas Trabalhistas e de Negociação Coletiva”, realizado nesta segunda-feira (11) e terça-feira (12), em Salvador (BA). O encontro reúne representantes sindicais, pesquisadores e movimentos sociais para discutir os impactos sociais, econômicos e ambientais do atual modelo mineral brasileiro.

A atividade é organizada pela CUT, por meio da Secretaria Nacional de Políticas Sociais e Direitos Humanos. O evento conta com a parceria do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Extração, Pesquisa e Benefício de Ferro, Metais Básicos e Preciosos de Serrinha e Região (Sindimina), além do apoio do Fundo Labora de Trabalho Digno, da CUT Bahia e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Participaram da mesa de abertura Renato Zulato, secretário-geral da CUT; Admilson Lima, presidente do Sindimina (SE); Davyd Barcelar, da Federação Única dos Petroleiros (FUP); Alfredo Júnior, diretor do Sindiquímica (BA); o deputado estadual Radiovaldo Costa (PT-BA); e Luciomar Machado, presidente em exercício da CUT Bahia.

O seminário teve participação massiva de representantes da CUT Nordeste, com delegações da CUT BahiaCUT AlagoasCUT Rio Grande do NorteCUT Pernambuco, além da CUT Minas Gerais.

Debate sobre mineração e soberania

Durante sua fala, Charles Trocate, do MAM, fez dura críticas ao modelo mineral adotado no Brasil nas últimas décadas e afirmou que a mineração produz impactos profundos na economia, na natureza e na sociedade.

“A mineração produz afetações à economia nacional, produz afetações à natureza, ou seja, uma natureza demolida a qualquer custo, e produz afetações à sociedade”, afirmou.

Segundo ele, o país vive uma fase “incontrolável” da mineração, marcada pela exploração intensiva dos recursos naturais, perda de soberania nacional e ampliação dos privilégios fiscais às mineradoras.

Trocate destacou como marcos históricos desse processo a quebra do monopólio estatal da mineração nos anos 1990, a criação da Lei Kandir e a privatização da Vale. “Estamos há 30 anos trocando dólares por natureza”, criticou.

“Chegou o momento de ter validade aqueles e aquelas que são trabalhadores da mineração com aqueles e aquelas que vivem os territórios”, declarou.

Deacordo com Charles, o atual modelo de mineração aprofunda desigualdades sociais e territoriais.“Nos digam algum lugar em que essa mineração ajudou o município, a região, a se tornar um lugar melhor. Ao contrário, esgotou-se a força de trabalho e esgotou-se a natureza”, afirmou.

Regulação

A assessora política do Inesc, Alessandra Cardoso, afirmou que o debate sobre soberania passa necessariamente pela discussão sobre regulação, financiamento e salvaguardas trabalhistas. “Quando a gente fala de salvaguardas, estamos falando de criar instrumentos e mecanismos para que tudo isso que chamamos de soberania seja traduzido na prática das instituições”, explicou.

Ela criticou o avanço de propostas legislativas voltadas à flexibilização do setor mineral e alertou para a perda de controle público sobre recursos estratégicos.

“O Brasil está passando por um novo ciclo de regulação da mineração impulsionado pela transição energética, mas sem priorizar a soberania nacional”, afirmou.

Alessandra também lembrou os impactos da Lei Kandir e da privatização da Vale. “São momentos de perda de soberania, um após o outro, que fazem com que estejamos diante de riscos ainda maiores”, avaliou.

Exploração das terras raras

O coordenador do Macro Setor da Indústria de Salvador e dirigente do Sindiquímica Bahia, Maicon Queiroz, abordou os desafios da transição energética e da exploração das chamadas terras raras, minerais considerados estratégicos para a produção de baterias, veículos elétricos e tecnologias ligadas à energia limpa.

Segundo ele, o debate precisa incluir a participação efetiva da classe trabalhadora e evitar a reprodução de desigualdades históricas.

“Sem justiça, sem transição justa, vamos produzir novamente desigualdades históricas das revoluções industriais”, afirmou. Maicon alertou para o risco de o Brasil permanecer apenas como exportador de matérias-primas, sem desenvolver cadeia industrial própria.

“Se não houver mudança no modelo que está desenhado, seremos apenas exportadores”, disse. Ele também criticou a ausência de participação dos trabalhadores na formulação das políticas públicas voltadas à transição energética.

“Como é que a gente garante participação nessas políticas públicas? Como é que a gente garante qualificação e proteção aos trabalhadores nesse processo?”, questionou.

Organização política

A secretária nacional de Políticas Sociais e Direitos Humanos da CUT, Jandyra Uehara, destacou que o seminário integra um processo de construção coletiva iniciado há cerca de um ano entre CUT e Inesc.

Segundo a dirigente, o objetivo é fortalecer a incidência política do movimento sindical nos debates sobre mineração, energia e desenvolvimento.

“Nós precisamos organizar a nossa incidência política. Esse seminário tem esse objetivo”, afirmou.

Jandyra explicou ainda que o encontro resultará na elaboração de um guia de salvaguardas trabalhistas e de negociação coletiva voltado aos sindicatos do setor mineral.

“O produto que vamos apresentar será justamente uma compilação de salvaguardas trabalhistas e de negociação coletiva para orientar os nossos sindicatos”, disse.

Unidade em torno das pautas trabalhistas

O secretário-geral da CUT, Renato Zulato, destacou que o debate sobre mineração passou a ocupar espaço estratégico dentro da Central. Segundo ele, a CUT busca aprofundar a discussão sobre o setor e relacioná-la às pautas nacionais da classe trabalhadora.

O debate da mineração é muito importante para o Brasil e a CUT ainda não discutia adequadamente”, afirmou. Zulato também citou avanços recentes defendidos pelo movimento sindical, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda. “Conseguimos a aprovação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Quem ganha até R$ 7.500 também teve redução e está tendo ganho real no salário”, destacou.

O dirigente reforçou ainda a necessidade de unidade das centrais sindicais em torno da redução da jornada de trabalho. “A CUT e as centrais sindicais têm uma pauta e nós temos que estar unidos, fazendo pressão principalmente nos deputados federais e nos senadores pela aprovação do fim da escala 6×1 e da redução da jornada sem diminuir salários”, disse.

O crescimento da atividade mineral no Brasil

A expansão da atividade mineral também tem sido associada ao aumento de conflitos territoriais, degradação ambiental e riscos à saúde e à segurança de trabalhadores e comunidades. Diante desse cenário, o seminário discute alternativas para conciliar o aproveitamento das riquezas minerais com a soberania nacional, a proteção ambiental e os direitos trabalhistas.

Outro ponto central do debate será o papel das grandes corporações transnacionais no setor mineral e os efeitos da atual inserção do Brasil na divisão internacional do trabalho. De acordo com a CUT e entidades parceiras, mecanismos como subfaturamento de exportações, incentivos fiscais e uso de paraísos fiscais contribuem para a transferência de riqueza mineral ao exterior, reduzindo os benefícios econômicos e sociais para o país.

Fonte: CUT