A Brasília Nordestina
A minha geração, nascida em Brasília entre as décadas de 70 e 80, cresceu sob o signo de uma herança invisível: o saudosismo de nossos pais. Somos filhos de migrantes nordestinos que, enquanto erguiam os traços de concreto da capital, mantinham as raízes mergulhadas na terra que ficou para trás.
Trazemos em nossa memória, o ritual sagrado das manhãs de domingo: o burburinho das feiras livres, da galinha viva – que se debatia até ser degolada e o sangue aparado – comprada para o almoço e do aroma denso de pratos que eram, em si, um mapa geográfico. Dobradinha, buchada, angu e sarapatel compunham o banquete de um paradoxo fascinante: trocaram o sertão por uma promessa de futuro, mas traziam a “terra deixada” guardada no paladar, como se aquele fosse, para sempre, o melhor lugar do mundo.
As feiras eram as embaixadas do sertão. Nelas, entre um corredor e outro, o sotaque servia de ponte. Trocavam notícias de gentes distantes — “da filha de Dona Alzira”, “do finado José da Dita”. Era o ponto de encontro da parentada que chegava para um pouso, fosse para amparar uma filha parida ou buscar a cura de um mal nos hospitais da cidade nova. Na bagagem, traziam sempre um mimo que sabia a infância: o amargor doce do buriti ou o conforto da carne de lata.
Nesses reencontros, a prosa não tinha pressa. Falavam de tudo: dos compadres amargurados com as filhas “perdidas” — que a inocência das crianças fazia crer terem sumido pelo mundo —, do boi levado pelo alheio, do açude que se entregara à seca, ou do passamento silencioso de um velho conhecido.
Mas a memória também sabia festejar. Recordavam as quermesses, o rastro das caçadas e o tropel das pegas de boi. Lembravam que, lá no sertão, a noite não era um limite, mas um convite. Era comum a família vestir sua melhor roupa para caminhar léguas sob o manto escuro, visitando amigos sem a formalidade de aviso prévio. O café passava na hora, o biscoito dourava no forno, a pinga aquecia o peito e a meninada fazia do batente o seu reino. Ao final, o caminho de volta pelos oiteiros era guiado apenas pela luz prateada da lua e das estrelas, os lumeeiros do mundo.
Talvez por isso, em uma tentativa de traduzir o sertão nordestino para o Plano Piloto ou para as Cidades Satélites, os candangos ocupavam o espaço público com seus costumes.
Ao cair da tarde, as calçadas ganhavam vida com as cadeiras de tirinha e os tamboretes de couro curtido. Ali, sentados entre o asfalto e o horizonte, eles observavam o movimento, teciam a vizinhança e buscavam no céu de Brasília a mesma lua que um dia iluminou o caminho de volta para casa.
Pioneiros contam que, para amansar a nostalgia da terra distante, o presidente Juscelino providenciou um acalento ambulante: aos sábados, uma Kombi percorria as ruas poeirentas da cidade em construção, derramando melodias regionais pelos alto-falantes. Ao som daquelas notas, lágrimas torrenciais lavavam os rostos dos que recordavam famílias, amores e as pequenas cidades deixadas para trás em busca do Eldorado anunciado por JK.
Nas Escolas Parques, o espírito da terra natal ganhava palco em saraus e matinês. Ali, músicos improvisados — violeiros, sanfoneiros e cantadores — despiam-se do macacão de operário para vestir a dignidade da arte. Eram os mesmos homens que, sob o sol forte da semana, erguiam os palácios, mas que no “plano original” não tinham lugar reservado no centro. A arquitetura moderna e o progresso desenhado para o país não haviam sido pensados para o povo do Nordeste, que acabou banido para as margens, para a periferia da capital.
Contudo, a cultura periférica não apenas sobreviveu; ela resistiu e floresceu. Nós, as crianças brasilienses, crescemos contagiadas por essa nostalgia, absorvendo o sertão no modo de falar, no tempero da comida e no ritmo que embalava a casa. Era como se o Nordeste tivesse brotado dentro da gente, transmitido como um código genético por nossos pais. Não se tratava, porém, de um Nordeste geográfico, mas de um lugar idealizado, inventado pela dor e pela esperança do retirante. Um território místico onde se voltaria na primeira bonança, na primeira chuva, assim que “Deus desse bom tempo”.
O migrante cultiva uma memória cristalizada. Para ele, o roçado, os animais e os afetos ficaram suspensos no tempo, guardados em uma redoma de saudade. Enquanto se adaptava à nova metrópole, os filhos cresceram ouvindo a voz de Luiz Gonzaga ecoar em feiras, festas e programas de TV. O “Rei do Baião” era a trilha sonora de uma vida que é “andar por esse país para ver se um dia descanso feliz”.
Esse foi o cenário da minha infância e adolescência em Brasília: homens e mulheres reconstruindo a existência longe do chão onde nasceram, encontrando abrigo emocional na culinária, na religiosidade e na música que os mantinha vivos. Ainda hoje, não é raro encontrar pais e avós que nutrem a esperança do retorno, vivendo na modernidade com “o coração contrariado, presos ao ritmo do interior do mato, da caatinga e do roçado”.
Nós que estamos hoje, entre os 40 e 60 anos, convivemos com essa realidade em cada visita aos nossos pais e em cada fogueira de São João. Somos os “filhos dos paraíbas”, título que carregamos com orgulho por quem não consegue, nem quer, tirar o pé do sertão. Através de bastiões como a Casa do Cantador, o São João do Cerrado e as feiras livres, a cultura dos candangos permanece pulsante.
O plano urbanístico original da Capital tencionava silenciar a sua presença, mas os migrantes levaram para o entorno uma riqueza que atravessa gerações. As raízes permanecem intactas, mesmo incorporando novas nuances. É uma prova viva de que Brasília, antes de ser o símbolo do futuro, foi o maior encontro de resistência e força da alma nordestina.
Jeanne Gomes é professora de Português, especialista em gestão escolar. No campo literário, Jeanne transita entre a análise crítica e a escrita criativa, explorando as profundezas da subjetividade humana. É autora da crônica “A terceira margem da palavra”, publicada na antologia Ecos do Feminino (Editora InHouse, 2026). Atualmente, dedica-se à pesquisa acadêmica e à produção de textos que buscam, na palavra, um caminho de reinvenção e autonomia. Seu 1° livro infanto juvenil está em fase de Editoração.
