Seminário debate democracia e enfrentamento ao fascismo
As características do fascismo presentes na política brasileira foram o ponto de partida do debate promovido pelo Sinpro no seminário “Democracia e fascismo: Uma sociedade em disputa”, realizado no sábado (29), no Auditório Paulo Freire, na sede do sindicato, no SIG. Organizado pela Secretaria de Formação Sindical, o encontro reuniu a categoria das 9h às 13h para discutir a trajetória histórica do fascismo, suas manifestações no cenário político atual e os desafios para a defesa da democracia.
Com o auditório cheio, o seminário foi marcado pela avaliação dos participantes sobre a importância e a atualidade do tema, especialmente diante da disputa política em curso no Brasil. A coordenadora da Secretaria de Formação Sindical do sindicato, Thaísa Magalhães, avalia que o momento é marcado pelo confronto entre o extremo conservadorismo e o neofascismo, de um lado, e a defesa da liberdade e da democracia, de outro.
Ela explica que a democracia brasileira é marcada por desigualdades e não garante a todas as pessoas o mesmo acesso a direitos e espaços de participação. Contudo, ainda assim, preserva a liberdade de manifestação e de expressão de opiniões diversas, justamente o que regimes fascistas procuram cercear. É nesse cenário, atravessado pelo racismo, machismo, patriarcado e violência contra pessoas LGBTQIAPN+ e a mulher que se trava a disputa política atual.
“Quando foram situadas as características do fascismo nascente na Itália, de como ele se comportou no mundo nas últimas décadas e como ele tem se comportado no mundo agora, a gente foi enxergando cada uma dessas características presentes na política brasileira hoje”, avaliou Thaísa.
Tensão
Com essa perspectiva histórica, o seminário abordou a ascensão de discursos e organizações de extrema direita e de natureza fascista na última década, fenômeno observado em diferentes partes do mundo. Esses discursos se apoiam em teses de ódio e de superioridade de um agrupamento humano sobre os demais e são acompanhados pelo avanço do racismo, da misoginia, da LGBTfobia, da aversão a migrantes e de fundamentalismos religiosos que criminalizam outras crenças.
No Brasil, esse tensionamento atingiu seu auge entre 2018 e 2022, período em que a extrema direita esteve no poder por meio de Jair Bolsonaro e dos partidos políticos que compõem o Centrão, sobretudo o PL. Nesse período, a educação, a saúde, a cultura e as políticas públicas voltadas às mulheres, à população negra e à população LGBTQIAPN+ foram alvo de ataques. A democracia sofreu ofensivas, dentre elas, os atos de vandalismo de 12 de dezembro de 2022 e a tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, inseridos na trama golpista chefiada pelos EUA, Jair Bolsonaro e sua turma de civis e militares, posteriormente condenados, pela primeira vez na história do Brasil, pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
O debate contou com a participação de Camila Bianchi, advogada, pesquisadora e consultora em políticas públicas, com atuação nas áreas do Direito, da Educação e dos Direitos Humanos. Graduada em Direito e Letras e mestra em Educação pela Universidade de Brasília (UnB), ela integra os coletivos Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça e Crianças e Exílio, além de atuar na defesa da democracia e na preservação da memória histórica. Ela emocionou os participantes ao compartilhar sua história de vida, marcada pelas experiências de infância durante a ditadura militar, pela fuga do país e pelo período em que viveu como refugiada na Argentina.
Também participou do seminário Jacques Novion, professor do Departamento de Estudos Latinos Americanos da UnB, orientador do Programa de Pós-graduação em Estudos Comparados sobre as Américas e ex-presidente da ADUnB. Em sua exposição, ele apresentou um panorama da América Latina e mostrou que os processos políticos discutidos no seminário não são uma experiência restrita ao Brasil. Novion também compartilhou sua história de vida como refugiado e suas experiências relacionadas ao contexto das ditaduras. Ele abordou a política de dominação dos EUA em relação a outros países e, em sua avaliação, os EUA têm assumido um caráter cada vez mais bélico diante multipolaridade – um movimento irreversível em escala mundial.
Luciano Fazio, especialista em Previdência Social, graduado em Matemática pela Universidade de Milão e consultor em direitos previdenciários, foi o primeiro palestrante a contar sua experiência. Filho de uma família italiana que veio em parte para o Brasil após a Segunda Guerra Mundial, Fazio fez uma exposição pertinente e didática e apresentou uma abordagem histórica sobre o nascimento do fascismo na Itália, sua expansão pela Europa e as consequências que permanecem até hoje naquele país.
A programação buscou relacionar esse percurso histórico com as características identificadas na política brasileira contemporânea. No entendimento de Thaísa, essa compreensão é especialmente importante diante da circulação de informações falsas e das novas possibilidades de manipulação proporcionadas pela inteligência artificial.
“A gente vive numa sociedade em que as fake news dominam e a diferença entre o que é real e o que não é real do que está acontecendo no cotidiano e das manipulações é muito tênue em tempos de fake news e de inteligência artificial”, analisa.
A atividade foi bastante proveitosa para a categoria, tanto pela participação quanto pela qualidade das exposições. Além de reforçar a importância de fazer com que as reflexões produzidas no seminário ultrapassem o espaço do encontro e cheguem aos locais de trabalho.
A proposta da Secretaria de Formação Sindical é que os participantes atuem como multiplicadores das informações e dos debates realizados no Sinpro para levar essas reflexões a mais pessoas da categoria, incluindo aí as que não puderam participar da atividade.
A discussão destacou ainda a democracia como espaço de disputa e resistência aos projetos autoritários. Embora marcada por desigualdades e limitações, a democracia preserva a possibilidade de manifestação, de convivência entre opiniões diferentes e de luta pela ampliação de direitos — possibilidades que são impedidas em regimes fascistas.
No entendimento do Sinpro, fortalecer a democracia é uma forma de enfrentar discursos, práticas e organizações de natureza fascista. Na democracia, apesar das desigualdades e imperfeições que ainda a atravessam, permanece aberta a possibilidade de lutar por uma sociedade mais justa e igualitária.
Confira também:
https://www.sinprodf.org.br/seminario-democracia-fascismo/
