Fiasco do Ideb é também consequência de um Sistema de Diário de Classe que adoece professor

O fracasso nos números do Ideb é fruto de uma semente muito bem plantada e regada por Celina e Ibaneis na educação pública do Distrito Federal. A negligência perpassa todos os detalhes e etapas do cotidiano das escolas, inclusive o sistema de diário eletrônico da rede, o EducaDF.

Manuseio difícil. Interface pouco amigável. Excesso de comandos para uma única inclusão. Dados que desaparecem e precisam ser reinseridos. Essa é a realidade desse sistema, que gera nos profissionais retrabalho, ansiedade, adoecimento. Tudo vindo de São Paulo, ao custo de alguns milhões para o contribuinte da Capital da República.

O EducaDF foi o pesadelo por trás dos erros crassos cometidos pela SEEDF no início deste ano com os pagamentos dos profissionais do Contrato Temporário, e permanece sendo o pesadelo do registro de notas, inclusão ou exclusão de alunos, de presença e registros necessários para concessão de benefícios para estudantes da rede.

Os diretores de escolas lamentam que um sistema com tanto potencial seja tão subaproveitado pela secretaria: “O sistema tem um potencial enorme de se tornar uma ferramenta robusta, mas está faltando diálogo entre a parte tecnológica e a parte operacional que somos nós aqui na ponta, os gestores e os secretários escolares”, relata Fernando Lourenço, do CEM 03 de Ceilândia, que alerta: “A ideia do EducaDF era aumentar a produtividade nas escolas, e no entanto ele hoje é responsável por 90% dos casos de desistências dos chefes de secretarias”.

 

SEEDF: ajuda e suporte ignorados, e cobranças constantes

O EducaDF foi inicialmente implantado apenas em escolas do Ensino Médio, e à época já apresentava uma série de inconsistências. Ao final de 2023, havia casos de reprovação de estudantes aprovados, e a aprovação dos que estavam reprovados por frequência. Grades horárias de professores e seus respectivos diários de classe eram inviabilizados. Em maio de 2024, professores de várias escolas de ensino médio organizavam as notas das turmas do Ensino Médio em planilhas à parte.

Os problemas do EducaDF com as escolas de Ensino Médio não foram sanados e, em 2026, o sistema estreou o ano letivo em escolas de todas as modalidades do ensino público causando os graves problemas dos pagamentos dos CTs. Em abril, a pedido do Sinpro, o deputado Gabriel Magno convocou sessão ordinária transformada em Comissão Geral na Câmara Distrital (CLDF) para discutir o problema. Ouviu uma série de relatos de falhas e inconsistências do sistema, junto com cobranças constantes da SEEDF e nenhum suporte.

Chegamos a agosto e as falhas no sistema persistem. No CED 02 do Cruzeiro, por exemplo, há relatos de lista de alunos e de disciplinas desaparecidas.

 

Alunos perdem benefícios, principalmente na EJA

O prejuízo para os alunos vai muito além de dados inconsistentes no diário escolar. Benefícios como Pé de Meia e passe escolar também deixam de ser gerados devido à instabilidade do sistema eletrônico paulista, que também desconhece as particularidades da modalidade da Educação de Jovens e Adultos. Não é possível, por exemplo, remover a matrícula de alunos em uma dada turma que apresentem certificado de que já cursaram aquela disciplina. Isso gera inconsistências e faltas, que não permitem que aquele aluno receba o pé de meia.

A dinâmica da Educação de Jovens e Adultos é diferente do ensino regular. O registro de notas é feito por eliminação de disciplinas, e não há nenhuma adaptação do EducaDF para acolher essas funcionalidades. “Nós abrimos um processo SEI, informamos das deficiências, alertamos das necessidades de alterações. Recebemos a resposta de que o sistema está sendo atualizado, e a próxima atualização irá contemplar essas necessidades. Mas já chegamos em agosto, e até agora nada”, explica o chefe da Secretaria do CESAS da Asa Sul, Ricardo Santos. Operações que estão disponíveis para todo o ensino regular, como reserva de vaga, estão desabilitadas para a modalidade EJA. Ricardo conta que vários procedimentos estão sendo feitos em papel. “Voltamos à era da pedra lascada”, lamenta.

“Nós temos inúmeras situações que o sistema simplesmente não entende o que está fazendo. Hoje, a gente não consegue por exemplo emitir o histórico ou um certificado do aluno”, explica Lourenço, do CEM 03 de Ceilândia, que também relata problemas com o cotidiano dos registros da EJA: “Pra se ter uma ideia, o 2º semestre de 2025 da EJA foi encerrado agora, e lá no ieducar. O 1º semestre de 2026 não foi encerrado no EducaDF porque o sistema entende que o fluxo de toda a rede, seja do ensino regular ou das modalidades especiais, é de componentes anuais. Por isso, temos um conflito muito sério de informações dentro do EducaDF, e isso está adoecendo a categoria”, explica o diretor do CEM 03 de Ceilândia.

 

Ansiedade, sofrimento e preocupação

Os problemas do EducaDF tiram o sono de gestores(as) e professores(as), que já sofrem com o lançamento das notas no final do ano.

“Eu fico pensando como vou emitir ao final do ano a minha lista de concluintes se eu não consigo nem encerrar o semestre? São esses detalhes que vão dificultando o nosso trabalho e vai adoecendo a categoria. Precisamos que o EducaDF seja eficiente e que de fato se proponha a fazer e entregar aquilo que se espera de um sistema informatizado de diário de classe”, reclama Lourenço, do CEM 03.