Mostra reforça compromisso do CEM 804 do Recanto com a educação antirracista permanente

A Mostra de Epistemologias Negras transformou o Centro de Ensino Médio (CEM) 804 do Recanto das Emas em um ambiente de pesquisa, reflexão e diálogo sobre o apagamento histórico das contribuições intelectuais negras.

O evento foi realizado nos dias 25 e 26 de maio e reafirmou o compromisso da escola com uma educação antirracista e socialmente comprometida para além do mês de novembro.

Com o tema “Racismo Epistêmico”, o projeto pedagógico foi organizado pelos professores Tiago Leal e Juliana Soares, com o apoio dos estudantes, do corpo docente, da coordenação pedagógica e da equipe gestora.

 

O evento reafirmou o compromisso da escola com uma educação antirracista permanente

 

Vozes que transformam: intelectuais e lideranças no enfrentamento ao racismo epistêmico

O primeiro dia da programação foi marcado pela atividade “Vozes que Transformam: Intelectuais e Lideranças no Enfrentamento ao Racismo Epistêmico”. O encontro reuniu convidados com trajetórias reconhecidas na educação, literatura, pesquisa, direitos humanos e produção de conhecimento voltada para a valorização das populações negras.

A professora da Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF), escritora, dramaturga e atriz, Cristiane Sobral, compartilhou sua trajetória como mulher negra, escritora e educadora.

Ela destacou a escrita como instrumento de resistência, emancipação e construção de identidade, e evidenciou a importância de ocupar espaços historicamente negados à população negra.

Já a professora da SEEDF e mestranda pela Universidade de Brasília (UnB), Yasmin Conceição, refletiu sobre a presença de intelectuais negros(as) nos espaços universitários. Ela destacou os avanços conquistados pelas políticas de inclusão e os desafios que ainda persistem.

A mesa também contou com a presença do professor da SEEDF e um dos autores do caderno É Preciso Ser Antirracista, produzido pelo Sinpro, Adeir Ferreira.

Para o educador, é fundamental reconhecer documentos, pesquisas e produções intelectuais elaborados por autores(as) negros(as), que frequentemente são invisibilizados, mesmo quando apresentam grande relevância para a construção de políticas educacionais e práticas pedagógicas antirracistas.

Na mesma perspectiva, a professora da SEEDF, leitora crítica do Protocolo Antirracista da secretaria, Juliana Leonardo, trouxe reflexões sobre a importância dos normativos educacionais produzidos a partir das contribuições de pesquisadores(as).

 

Juventude em ação: estudantes como protagonistas do conhecimento

No segundo dia da programação, os estudantes assumiram o protagonismo das atividades. As salas de aula foram transformadas em espaços temáticos dedicados ao estudo de intelectuais, escritores, cientistas, artistas e lideranças negras.

Também foram realizadas pesquisas sobre racismo institucional e educação antirracista, além da produção de levantamentos relacionados à realidade social da comunidade escolar.

Estiveram no centro do debate personalidades como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Cristiane Sobral, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Angela Davis, Abdias do Nascimento, Machado de Assis, Milton Santos e outras.

 

Estudantes do CEM 804 do Recanto durante apresentação da Mostra

 

O racismo institucional na ciência, o protocolo antirracista da SEEDF, a medicina indígena e o caderno É Preciso Ser Antirracista, do Sinpro, também foram abordados.

O trabalho desenvolvido pelos estudantes foi compartilhado por meio de exposições, rodas de conversa, dinâmicas interativas, jogos educativos, intervenções artísticas e outras atividades criativas, que apresentaram os temas pesquisados de forma acessível e participativa.

Educação antirracista para além de novembro

Um dos diferenciais da Mostra de Epistemologias Negras foi a realização no mês de maio, rompendo com a concentração das discussões sobre a população negra apenas no mês de novembro.

Para o professor de Artes e Teatro do CEM 804, Tiago Leal, a construção de uma educação antirracista exige continuidade e compromisso permanente.

“A educação antirracista não pode acontecer apenas em novembro. Precisamos falar sobre essas questões durante todo o ano letivo. Trazer esse debate para maio é uma forma de garantir que ele reverbere continuamente na escola, influenciando nossas práticas pedagógicas, nossas relações e nossa forma de compreender a sociedade”, disse.

Segundo o educador, a proposta do projeto dialoga diretamente com a Lei nº 10.639/2003 e com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, contribuindo para ampliar o currículo escolar e reconhecer a diversidade de conhecimentos produzidos pelos povos negros.

O olhar dos professores

Para a professora Rayanne Soares, a atividade possibilitou que os estudantes conhecessem referências historicamente ausentes dos materiais didáticos.

“Muitos dos nossos estudantes nunca tiveram contato com a trajetória desses intelectuais, cientistas, escritores e lideranças negras. O projeto possibilitou ampliar esse repertório e mostrar que a produção de conhecimento foi e continua sendo construída por pessoas negras que transformaram e transformam a sociedade”, afirmou.

Para a professora Juliana Soares, uma das idealizadoras do projeto, a proposta surgiu da necessidade de fortalecer uma educação antirracista que ultrapasse datas comemorativas.

“Queríamos que eles (estudantes) compreendessem que a luta contra o racismo também passa pela valorização dos conhecimentos produzidos por intelectuais, artistas, cientistas e lideranças negras. Quando conhecemos essas trajetórias e produções, ampliamos nossa compreensão de mundo”, disse Juliana.

 

 

A voz dos estudantes

A estudante Joana D’arc, do 3º D, destacou a importância da pesquisa desenvolvida pela turma e as reflexões sobre identidade e ancestralidade proporcionadas pela mostra.

“Participar da Mostra de Epistemologias Negras me fez perceber quantas histórias importantes foram silenciadas ao longo do tempo. Conhecer essas personalidades, nos aproxima da nossa ancestralidade e nos ajuda a compreender que muitas conquistas de hoje foram construídas por pessoas que resistiram ao racismo e à exclusão”, afirmou a estudante.

Para Marcus Vinícius, estudante do 3º A e presidente do Grêmio Estudantil do CEM 804, o projeto representa um importante espaço de formação cidadã e fortalecimento do protagonismo juvenil.

“Acredito que projetos como esse são fundamentais porque nos ajudam a desenvolver consciência crítica, respeito à diversidade e responsabilidade social. Discutir epistemologias negras durante o ano letivo demonstra que a educação antirracista não pode ficar restrita a uma única data. É um compromisso permanente da escola e de todos nós que fazemos parte dela”, disse.

Compromisso institucional com a educação antirracista

Para o diretor do CEM 804, Luiz Cunha, a Mostra de Epistemologias Negras representa o compromisso da escola com uma educação antirracista permanente, construída coletivamente e presente durante todo o ano letivo.

“No CEM 804, temos o compromisso de desenvolver ações ao longo de todo o ano que promovam o respeito à diversidade, a valorização das diferentes culturas e o enfrentamento às desigualdades raciais. A Mostra de Epistemologias Negras é mais uma dessas ações que reafirmam nosso compromisso com uma escola pública democrática, inclusiva e socialmente comprometida”, afirmou.