Conselho Nacional de Entidades discute desafios nas lutas nacional e internacional

O primeiro dia do Conselho Nacional de Entidades (CNE) da CNTE trouxe ao debate os desafios para a luta dos trabalhadores em educação na conjuntura atual, entre disputas de significado na internet e guerras internacionais. O evento é o primeiro encontro do conselho de dirigentes de 2026, realizado em Brasília nesta quinta e sexta, 16 e 17 de abril.
A presidenta da CNTE, Fátima Silva, iniciou o discurso de abertura com comentários sobre a marcha em memória dos 50 anos do golpe militar da Argentina, que reuniu 3 milhões de manifestantes.
No dia anterior ao evento, a CNTE reuniu seus filiados na Marcha da Classe Trabalhadora. Sobre a mobilização, a presidenta avalia: “Foi uma alegria para nós todos que fizemos parte. Nós botamos ontem milhares de pessoas nas ruas, boa parte da CNTE. Então, o nosso agradecimento a cada filiada que investiu, que atendeu o chamado da CNTE, que esteve presente”.
“Tivemos também a sanção do Plano Nacional de Educação, onde nós estivemos presentes. Nosso próximo compromisso é ser os fiscalizadores desse plano, como pediu o presidente Lula”, afirmou a presidenta.
O Secretário Geral, Fábio de Moraes, destacou a representatividade feminina em peso no CNE. “É uma categoria majoritariamente de mulheres e é uma tarefa do movimento sindical intercalar sempre com mais mulheres, certo?”, comentou.
A coordenadora do SINTEPP (PA), Conceição Holanda, convidada a compor a mesa de abertura, falou sobre a necessidade de mobilizar os professores para trazer mais espaço para a classe trabalhadora nos Três Poderes. “Temos uma tarefa importante, enquanto entidades revolucionárias, que é mudar a cara do Congresso”, completou Conceição.
“Precisamos reativar o compromisso do combate ao assédio moral nas unidades escolares, porque isso tem causado um grande prejuízo, inclusive do ponto de vista da saúde dos trabalhadores e das trabalhadoras do Brasil”, lembra Francisca Pereira, da Diretoria Executiva Adjunta da CNTE. “Nós trabalhamos para viver e viver bem e não para adoecer”.
A secretária adjunta de formação da CUT, Sueli Veiga, celebrou com orgulho a mobilização da Marcha da Classe Trabalhadora, realizada no dia anterior ao CNE. “Demos uma demonstração de força coletiva e de compromisso, não só da defesa da educação pública para todos e todas, mas também da defesa dos direitos da classe”, comemorou Sueli.
Momento de reflexão
Convidados de partidos políticos se sentaram à mesa “Análise de Conjuntura” para abordar temas relevantes para a luta por direitos na atualidade, no cenário nacional e internacional.
Ana Prestes, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), iniciou o debate com análises sobre a conjuntura internacional, em especial sobre as investidas dos Estados Unidos contra países na América Latina e Ásia Ocidental. A cientista política analisou que as intervenções na Venezuela e em Cuba são demonstrações de dominância diante do enfraquecimento de hegemonia americana na política internacional.
“Donald Trump elege este hemisfério para demarcar que ‘é com o domínio completo sobre esse hemisfério que nós vamos enfrentar os novos polos emergentes de poder, principalmente o polo dinâmico da Ásia’”, explica Ana.
Para ela, é essencial que a categoria dos trabalhadores em educação traga para seus debates sindicais a análise do cenário internacional. “A gente vive uma conjuntura internacional muito aguda, de aprofundamento de guerras, isso traz um cenário muito dramático para a nossa América Latina. Isso dialoga também com o nosso processo eleitoral aqui no Brasil”, completa.
A presidenta nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Paula Coradi, comentou o papel das escolas na construção de debates sobre o funcionamento da sociedade: “No chão da escola a gente consegue mudar a sociedade. Então, não é à toa que a própria educação e o projeto de educação é sistematicamente atacado”.
“Eu tenho muito orgulho da minha profissão porque ser trabalhadora da educação é algo que nos dá capacidade de mover as estruturas da sociedade, de debater sobre as questões como racismo, misoginia, LGBTfobia e compreender de onde vem as desigualdades, onde que a gente pode transformar o mundo”, finalizou Paula.
O presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Edinho Silva, enviou um vídeo para compartilhar uma mensagem para os/as companheiros/as reunidos. Ele levantou as reivindicações por uma sociedade justa e igualitária, como a tarifa zero no transporte público, a transição energética e a universalização da educação.
“Esse encontro acontece em um momento muito importante da vida brasileira. É um momento onde nós temos que ir pra ofensiva disputar a nossa agenda no Brasil. Nós queremos que seja um país onde haja democratização do acesso à renda, que o trabalhador e a trabalhadora paguem menos impostos”, declarou Edinho.
Coordenador do Setorial Nacional de Educação do PT e ex-presidente da CNTE, Carlos Abicalil entende que as disputas por espaço no debate político precisam incluir o território ideológico nas redes sociais.
“A palavra território, hoje, cada vez menos indica o GPS, o território físico. É o território da ideia, do sentimento, da compreensão das coisas. E essa invasão de territórios simultâneos também são estratégias de guerra”, pontuou.
Para Abicalil, é nesse sentido de comunicações na era digital que a luta por mais tempo fora do trabalho ganhou uma nova roupagem. A frase única, “o fim da escala 6×1”, parte da adequação a uma linguagem simples, que lembra o antigo “redução da jornada de trabalho”.
”Essas formas de comunicação se desenvolveram a partir de situações muito difíceis para a humanidade, como foi o caso da pandemia. Tanto é assim que é o fim da 6×1, que é hoje o horizonte que nos unifica, é uma batalha vinda muito antes de nós e que se projeta para o futuro”, expressou Abicalil.
América Latina unida
A mesa “Solidariedade Internacional” trouxe convidados para alertar dos problemas que Cuba enfrenta hoje, sobretudo no contexto de crise energética. Participaram da discussão a secretária de Relações Internacionais, Marília Móes, e a conselheira da Embaixada de Cuba, Idalmys Brooks Beltrán.
Marília falou sobre a campanha “Painéis Solares para Cuba”, que recolhe doações para o financiamento de paíneis para combater os períodos sem luz do povo no país vizinho. Além disso, comentou que experienciou pessoalmente o apoio entre cubanos e brasileiros na Zona da Mata, em Pernambuco.
“A saúde da família, principalmente em regiões remotas do Brasil, como a Zona da Mata, em Pernambuco, tem muitos médicos cubanos para ter acesso ao cuidado. Acho que é muito importante, nesse momento, que nós no Brasil sejamos solidários a esse povo que nos ajuda”, compartilhou Marília.
Idalmys Beltrán lembra dos ataques do governo dos Estados Unidos contra seu povo: “Um país que está submetido a um bloqueio energético tem todos os aspectos da vida comprometidos. Estamos fazendo de tudo para que nossos meninos não tenham a vida afetada na escola, imagina você ficar doze, quatorze horas sem eletricidade. Quando você quer ir ao seu centro de trabalho, não tem transporte porque todos eles precisam de energia”.
Fonte: CNTE
