47 anos do Sinpro: memórias de resistência e afeto

No coração do Planalto Central, a história do sindicalismo no magistério público do Distrito Federal se confunde com a própria fundação da capital. Criado em 14 de março de 1979, quase duas décadas após a ditadura militar dissolver a Associação de Professores, constituída nos anos 1960, o Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF) completa 47 anos, em 2026, consolidado como instrumento de resistência e esperança. Uma trajetória resgatada por vozes que vivenciaram, no “chão da escola” e nas frentes de mobilização, a construção do movimento sindical na capital do país.

Um dos pioneiros é o professor de química, Eldonor Pimentel. Conhecido no DF como professor Pimentel, ele foi um dos integrantes do grupo de 60 docentes que chegaram à capital nos anos 1960 e lecionou no Elefante Branco. Ele recorda que o grupo criou a Associação de Professores pela necessidade de sobrevivência, já que promessas de salários dignos e habitação para quem viesse lecionar na capital do país não eram cumpridas. Com o golpe de 1964, a repressão endureceu. “Vieram as prisões e até a morte de professores e estudantes, como a do nosso ex-aluno Honestino Guimarães”. Mesmo sob perseguição e demissões, a categoria não se intimidou.

Pimentel foi demitido da rede pública pelo regime ditatorial, ingressou na iniciativa privada e foi lecionar no Objetivo, além de se tornar químico da Caesb. Nos anos 1980, com a Anistia, foi readmitido pela Secretaria de Estado de Educação (SEEDF). A pedagoga, ativista social e militante Neide Silva Rafael Ferreira participou ativamente da criação da Secretaria de Raça do Sinpro. Ex-integrante da Coordenação de Direitos Humanos e Diversidade da SEEDF, ela colaborou com o sindicato em diferentes Regionais de Ensino, fomentando ações afirmativas com educadores(as) e estudantes. Ela define o sindicato como um “território de ações afetivas e militantes”. Aposentada em 2015, destaca a atuação vital do Sinpro no combate ao racismo e na busca pelo “bem viver com humanidade”.

Essa força coletiva é reiterada pela professora aposentada Raimunda Ferreira Chagas. Conhecida na categoria como “Rai”, ela foi diretora do sindicato na gestão 1992-1995, quando a entidade realizou a Primeira Conferência de Educação e criou as subsedes. “Minha vida está interligada ao Sinpro. Entrei na SEEDF e em duas semanas já estava em greve”, conta. Rai nunca deixou a luta e destaca a histórica manutenção da pecúnia da licença-prêmio (2015-2016) como símbolo de mobilização. “Foram quase 2 anos de luta. Fizemos acampamento no Palácio do Buriti até a vitória”. Para os novos, aconselha: “Filiem-se. As direções passam, mas a entidade fica. Um sindicato forte conquista condições de trabalho e qualidade na educação”.

Unificação e conquista: a chegada dos orientadores educacionais

A orientadora educacional Lúcia Santis, aposentada em 2019, reforça o sindicato como pilar dos direitos. “Sem ele, teríamos muito menos”. Ela relembra que a organização dos orientadores educacionais começou, em 1966, como associação. Em 1988, a federação da categoria se filiou à CUT com o entendimento de que a unificação fortaleceria a luta. Essa filiação ocorreu em 1990, num congresso em Aracaju, momento em que os orientadores do DF se integraram ao Sinpro. “A partir daí, o sindicato assumiu totalmente nossa luta de forma unificada”, detalha Lúcia.

Olhar para o futuro com renovação constante

A renovação é personificada por quem ingressa agora. A professora de Atividades na Escola Classe (EC) 314 Sul da Asa Sul, Juliana de Lacerda, celebra sua recente trajetória na SEEDF: “O Sinpro teve atuação significativa em prol das nossas nomeações em 2026. Foi um novo ciclo para mais de 3 mil professores. A posse tão esperada mudou nossas vidas”. O professor de física no Centro Educacional (CED) 01 de Itapoã, Lucas Rodrigues Silva, enfatiza que a batalha é diária: “O Sinpro garante a democracia. Oportunizou que, mesmo em tempos de negação de direitos, tivéssemos êxito no acesso ao magistério público”.

Uma história de sonhos, lutas e conquistas

A trajetória do magistério, em Brasília, remonta à utopia de Anísio Teixeira por uma educação pública, gratuita, laica e de qualidade. O Sinpro nasceu combatente, em 1979, sob o regime militar, enfrentando logo no primeiro ano uma greve com quase 100% de adesão, respondida com intervenção governamental e várias demissões. Com a redemocratização e a fundação da CUT (1983), a entidade aprimorou sua militância.

A atuação do Sinpro sempre transcendeu os muros escolares, influindo e participando ativamente de marcos históricos nacionais e locais, como a defesa das Diretas Já e da Anistia. No DF, foi pioneiro em causas sociais, como a implantação de faixas de pedestre e o combate à violência escolar com a campanha “Quem bate na escola maltrata muita gente” (2008). O sindicato também ganhou relevância nacional com a campanha “Maria morreu” (2017) contra a reforma da Previdência.

Inovadora, a entidade adotou a direção colegiada, em 1989, para reforçar o contato com a base. Hoje, o Sinpro reafirma seu compromisso com uma educação libertadora, inclusiva, laica, democrática, pública, gratuita, de qualidade socialmente referenciada e transformadora e com um sindicalismo autônomo, forte e independente.